
Professor:
atribuições, realização e cansaço...
Jorge Renato Johann*
epois
de 34 anos em sala de aula, tenho a dimensão da tarefa que
assumi profissionalmente. Do encantamento dos primeiros tempos à
maturidade serena de uma missão inconclusa, percebo as
mudanças que ocorreram.
Ilustração: Claudete Sieber |
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Há mais de três décadas, o sonho de todo jovem
professor era conseguir
dois contratos, de 20 horas, numa escola pública estadual.
Com
20 horas dava para comprar um fusca, e com dois contratos dava
para
comprar o apartamento e casar. A saúde era garantida pelo
respaldo
completo do Instituto de Previdência do Estado. Conseguir
trabalho
em escolas particulares era a complementação de uma
trajetória de
sucesso, em qualquer nível de atuação. As
férias eram, no inverno, de
mês inteiro, e de três meses, no verão. Com
estas condições, ser professor
era uma possibilidade de realização
sob todos os aspectos, além do
status de uma bela profissão. Com
isso, quem almejasse a continuidade
de seus estudos, imediatamente
se candidatava ao ingresso
nos diversos programas de pósgraduação.
Assim se podia fazer
cursos de especialização, de
mestrado e até mesmo de doutorado,
embora a oferta fosse reduzida
por aqui. Sobrava um dinheiro
para comprar livros, e usufruir de
todos os tipos de atividades culturais que se apresentassem. Do
cinema ao
teatro, não havia dificuldades maiores de se aproveitar
o que aparecesse.
Escolas de excelência proliferavam tanto no âmbito
público, quanto no
particular. Era uma questão de escolha onde se queria
que os filhos
fossem educados. Ser professor ou filho de professor conferia
sentimentos de dignidade e de respeito.
Paradoxalmente, o mundo evolui e seu desenvolvimento não
representa
necessariamente um processo continuado e ascendente. Sabemos
das razões pelas quais a Educação foi sucumbindo
a uma condição
de precariedade lamentável. O certo é que a máquina
de entortar as
melhores coisas girou contra a Educação e os educadores.
O trabalho
foi se aviltando e os trabalhadores da Educação mergulhando
em sentimentos
de baixa auto-estima e de uma auto-imagem desprezível. Sua
jornada de trabalho se multiplicou em obrigatórios três
turnos diários
para garantir uma precária sobrevivência. As exigências
profissionais
foram aumentando, enquanto o tempo e as condições
para usufruir
uma qualidade de vida confortável foram minguando cada
vez mais.
O aperfeiçoamento profissional passou a ser inviabilizado
por absoluta
falta de meios disponíveis. E os reflexos de toda uma depreciação
educacional se evidenciam tanto nos professores e nos alunos, quanto
nos espaços físicos das escolas. A frustração
e o cansaço dos primeiros
se revela na reação displicente e agressiva dos últimos.
Os belos espaços
escolares não escondem mais a deterioração
que vai por dentro.
Resulta que a Educação e educadores pedem socorro.
Enquanto a
mercantilização do ensino cria guetos de excelência
para uma sociedade
marcada por diferenças e privilégios, é preciso
urgentemente que se
funde a esperança de que ainda é tempo de construirmos
uma escola de
qualidade para todos.
* Professor de Filosofia do Uniritter, Conselheiro Estadual de
Educação.
Mestre em História da Cultura e doutorando em Educação.
