MEMÓRIA
Obra
de Locatelli abandonada no IA
Sem receber nenhuma manutenção há 50 anos,
desde que foi pintada, o desgaste
natural da obra é incrementado por infiltrações
das chuvas pelo telhado, além
de urina e fezes de morcegos que habitam o forro
Por Naira Hofmeister

improvável
aconteceu: justamente na escola
onde professores e alunos são artistas,
três obras de arte estão se deteriorando à espera
de restauração. A maior delas é um
mural
que mede 9,3 x 2,9 metros e ocupa toda uma parede
no oitavo andar do Instituto de Artes da
Ufrgs. A pintura está lá desde 1958, quando seu
autor, Aldo Locatelli, presenteou a instituição
pelo seu cinquentenário. Nela estão retratados
professores que fizeram história no IA como
Fernando Corona e Tasso Corrêa e suas alunas, o
principal público da Escola de Belas Artes no seu
nascimento.
O pintor deixou a obra “inacabada” propositalmente.
O mural mostra três diferentes fases
da pintura: os esboços e a intensidade que duas
camadas de tinta conferem à obra. “É como se
a
própria pintura fosse uma aula”, elogia o coordenador
do Núcleo de Painéis e Murais e presidente
do Centro Acadêmico do IA, Alejandro Ruiz.
Meio século depois, já não é possível
diferenciar
as distintas fases do mural. Sem nenhuma
manutenção há cinquenta anos, as tintas estão
desbotando e algumas figuras já estão completamente
apagadas. Pior. Foram instaladas tomadas
e fios de eletricidade na parede e algumas camadas
de reboco precisaram ser colocadas sobre os
buracos abertos.
Nos últimos anos, um vazamento no telhado
provocou manchas na camada pictórica e os habitantes
do forro – os morcegos – depositam
excrementos que estragam ainda mais a obra.
“É
lamentável”, desespera-se o líder estudantil.
Ele e seus colegas chegaram ao ponto de distribuir
guardanapos através de um conduto que fica na parte
superior da obra para tentar minimizar o problema.
Mesmo assim, os rostos das alunas de Fernando
Corona estão manchados pela água que escorreu.
DINHEIRO – Há um ano a direção do Instituto
de Artes conseguiu que a Reitoria da Ufrgs
liberasse R$ 60 mil para restaurar o mural. Tintas
e pincéis foram comprados e a professora Lenora
Rosenfield se disponibilizou a comandar o processo
gratuitamente. Para a execução, seriam selecionados
bolsistas entre os próprios estudantes do IA.
Mas até agora ninguém colocou a mão na massa.
“Não queremos começar a restauração
antes
de darmos uma solução definitiva para o telhado”,
justifica o diretor do IA, Alfredo
Nicolaiewsky.
A cobertura do IA é original – tem portanto,
66 anos – e durante esse tempo todo recebeu
pequenos reparos. “Alguns telhados estão
num estado assustador”, alerta.
O diretor garante que um edital já está sendo
preparado e que a licitação para a reforma
do telhado deverá acontecer logo. No entanto,
ele não precisa o prazo. “É uma obra cara,
que envolve uma burocracia danada antes de
ser iniciada”, lamenta.
Quanto mais o tempo passa, pior fica o estado
do mural de Locatelli, já que as
infiltrações são as maiores causadoras
dos danos à camada pictórica. “Mas
não é tinta que está descolando, é
a própria parede”, revela
a restauradora, professora
Lenora Rosenfield.
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DURABILIDADE – Aldo Locatelli
não deve ter imaginado que o
seu presente para o Instituto de Artes
pudesse um dia ficar no estado
atual. Talvez prevendo uma manutenção
constante por parte dos alunos, o
pintor não preparou a parede da maneira
mais adequada.
Geralmente em murais utilizava-se
a técnica do afresco, que é a pintura
sobre a argamassa molhada, que lhe
confere maior durabilidade. “Locatelli
fez essa obra a seco, por isso ela é frágil
e menos durável”, aponta Lenora.
Mesmo corrigindo a infiltração,
será necessária uma avaliação
periódica
para conservar o mural. “A cada
dez anos, imagino. Há um envelhecimento
natural que deve ser considerado”,
calcula a professora.
À
ação do tempo associa-se o fato
de o espaço que abriga a obra ser atualmente
uma divisória de sala de aula.
Não há climatização e
o sol incide diretamente
sobre o mural. “Há muito
movimento e, por mais que os alunos
cuidem, o contato direto existe”, avalia.
Um outro detalhe. O local atualmente é
uma sala de aula de música.
Como apenas os estudantes de canto,
piano, sopros e regência utilizam a sala,
a maioria absoluta dos aspirantes a
artistas plásticos não tem nenhum
contato com a obra. “Mais de 90% dos
alunos desconhecem que ela existe”,
assegura Ruiz.
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Novela do prédio
novo
Expor o mural para todos ou retirar os alunos
de música da sala onde ele está é um problema
insolúvel a curto prazo. “Precisamos ocupar
porque nos falta espaço físico”, justifica
Alfredo Nicolaiewsky.
O prédio do Instituto de Artes foi inaugurado
na década de 1940 e a previsão é que tivesse
o dobro do espaço. A instituição não
teve
recursos para ampliar. Por isso, a capacidade
do IA no projeto era de 300 alunos. Hoje são
mais de mil.
E a partir da execução do Programa de Apoio
a Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades
Federais (Reuni), até 2014 serão
pelo menos mais 200. Além de ampliar as vagas
nos três cursos atuais – teatro, música e
artes visuais – o IA deve oferecer ênfase
em História da Arte
já no vestibular de 2010.
“Queremos deixar claro que
sem um novo prédio não teremos
condições para isso”, salienta o
diretor da instituição.
Desde a década de 80, se debate uma
nova sede para o Instituto de Artes. Durante
anos se falou em levar os cursos para
o prédio da antiga Medicina, na esquina
das ruas Sarmento Leite e Luiz Englert.
Depois de uma restauração concluída em
2007, o casarão histórico passou a abrigar
o curso de Biomedicina, que deve se
mudar assim que sua sede definitiva no
Campus da Saúde ficar pronta.
Durante 2008 chegou-se a anunciar que o
novo endereço do IA seria o campus Olímpico,
no bairro Jardim Botânico. Mas a Escola Superior
de Educação Física (Esef) também tem
problemas
em compartilhar o espaço.
Através de sua assessoria de imprensa, a Reitoria
informa que está mobilizada para solucionar
o impasse, mas não detalha as possibilidades. “A
Ufrgs ainda não tem uma definição clara
sobre
o assunto”, limita-se a informar o Secretário
de Comunicação Social, Flávio Porcello.
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