ENSINO BÁSICO Redes
têm provocado perda
de empregos e redução salarial
Apesar da formação de redes de escolas privadas
não ser um conceito recente,
no Rio Grande do Sul tem se acentuado a compra de instituições,
religiosas em
sua maioria, e em dificuldades financeiras, por grandes redes privadas
de ensino
ou mantenedoras regionais. O Extra Classe começa neste mês
uma série de
matérias sobre este cenário da Educação
Básica. O objetivo é ampliar o debate
e mostrar as mudanças enfrentadas por professores, pais
e alunos neste processo.
As primeiras redes abordadas nesta série são: Rede
Romano e Rede
São Francisco, ambas de propriedade da Arquidiocese de Porto
Alegre, que
adquiriu duas escolas no ano passado. Segundo informações
da Arquidiocese,
a decisão pela compra foi orientada por um grupo de trabalho
de Educação que
se reúne periodicamente. Para a nova diretora-geral da Rede
Romano (ex-Rede
Paulo Apóstolo), Luciana Nunes Prates, o modelo de gestão
por redes fortalece
a Educação. Ela também afirma que a Mitra
pretende ampliar o número de
escolas no estado. “Temos perspectivas de ampliar ainda este
ano para mais
oito colégios”, revela Luciana, sem citar os nomes
das escolas que serão
adquiridas. A existência de duas redes a partir de uma mesma
mantenedora é explicada pelo Arcebispo de Porto
Alegre, Dom Dadeus Grings: “As
duas redes
são uma casualidade que tem a ver com motivos históricos,
a forma como foram
compradas as escolas e
também por uma necessidade
de gestão”.
Por Grazieli Gotardo
m
2008, foram duas as
escolas compradas pela
Mitra: Colégio Espírito
Santo e Colégio Salvatoriano
Nossa Senhora de
Lourdes, denominados agora
São Mateus e Santa Marta,
respectivamente. Pais e
alunos enfrentaram, nestas
instituições, mudanças no
material didático, uniforme
e em praticamente todo o quadro de professores
e funcionários. Foram mais de 60 professores
que ficaram sem emprego. A Mitra
Diocesana argumenta que questões legais a
impediram de realizar a readmissão dos docentes.
Procurado pelo Sinpro/RS no ano passado
a fim de negociar a permanência dos professores
nas escolas, o então diretor-geral das
Redes, Padre Luciano de Souza Oliveira, não
aceitou negociar com o Sindicato.
“Procuramos
até o Arcebispo para propor
um acordo que, mesmo baixando salário, preservasse
o emprego dos professores que quisessem
permanecer. Os dirigentes recusaram
porque não queriam acordos com um Sindicato”,
relata Fátima Ali, diretora do Sinpro/RS.
Atualmente, Padre Luciano é pároco da
Igreja Bom Jesus, em Porto Alegre e, de acordo
com informações da assessoria da Rede
Romano, não reponde mais por questões relativas às
escolas. A reportagem não conseguiu
entrevista com o pároco.
O Arcebispo Dom Dadeus Grings reafirmou
o posicionamento. “Não podemos misturar
as coisas, nossa proposta salarial é diferente
e para ficar com os professores teríamos
que manter os salários”, disse.
No entanto, em 2007, o Sinpro/RS fechou
um acordo com a Escola São Vicente Mártir
(atual São Francisco – Zona Sul), comprada
pela Mitra, em que foram mantidos os empregos
dos professores, mesmo com redução
salarial. O padre José Luiz Schaedler, diretor-geral da
Rede São Francisco, confirma: “Toda a
negociação se deu junto ao Sindicato.
Procuramos realizar tudo dentro do acordo
anual”.
Sobre os baixos salários praticados pelas
Redes da Mitra, Luciana explica: “O que
estamos fazendo é não iniciar num patamar
alto e acrescentamos 5% a cada ano.”
A afirmação, no entanto, é contestada
pelo Sindicato: “A promessa para os professores
admitidos foi de iniciarem com 15%
acima do piso, mas os contracheques dos
docentes da escola Santa Marta mostram que
o aumento não chega a 1%”, afirma Cássio
Bessa, diretor do Sinpro/RS.
Escola
Espírito Santo
Segundo relatos de ex-professores,
em
maio de 2008 todos foram informados da
venda da escola. “Disseram que ninguém
ficaria sem emprego, que seríamos demitidos
num mês e readmitidos no mês seguinte”,
conta uma professora.
Outra docente disse que a falta de
informações era angustiante. “Se
não perguntássemos
não éramos informados de
nada. Assinei minha demissão num guichê,
em pé, e sem nenhuma explicação”,
lembra a professora, com 16 anos de magistério.
A mãe de um ex-aluno reclamou da
falta de cuidado na demissão dos professores. “Fomos
informados que eles seriam
demitidos apenas no final do ano, mas a
professora da 1º série do Fundamental
foi
dispensada em outubro, sem motivos claros,
causando um trauma nas crianças”,
relatou a mãe.
A administração não permitiu
que a
escola fosse fotografada por estar em obras.
Escola
Santa Marta
Os relatos de falta de informação
se
repetiram nos depoimentos dos professores
demitidos do Colégio Nossa Senhora
de Lourdes (Santa Marta). Para uma exprofessora
que conseguiu permanecer na
escola após a venda para a Mitra, mas pediu
demissão, existe uma falta de atenção
com a comunidade escolar e alunos ao não
tentar manter os professores. “Pedi demissão
em função do baixo salário.
Trabalhava
12 horas e não ganhava 500 reais. O
padre Luciano foi grosseiro comigo e disse
que eu nunca mais trabalharia na rede.
Fiquei chocada pois ele não precisava dizer
isso”, lamenta a docente.
Escolas da Mitra
Rede São Francisco
Instituto de Educação São Francisco,
bairro
Rubem Berta.
São Francisco Santa Fé, bairro Santa
Fé
São Francisco Zona Sul, bairro Camaquã
São Francisco Cachoeirinha, no Centro
Alunos: 1,7 mil
Rede Romano
*Senhor Bom Jesus (antigo Colégio
Marista Irmão Weibert), bairro Jardim Itu-Sabará
*São Mateus (Colégio Espírito
Santo),
bairro Jardim São Pedro
*Santa Marta (Colégio Salvatoriano Nossa
Senhora de Lourdes), bairro Azenha
*Este ano os colégios passam a se chamar
Romano I, Romano II e Romano III, respectivamente.
Alunos: 2 mil
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