ALBERTO MUSSA
Comer
o outro para ser eterno
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Cristina Lacerda/
divulgação Editora Record |
Alberto Mussa, antes de ser escritor foi professor
de Português e Literatura em escola pública no Rio
de Janeiro, além de
atuar em faculdades privadas, enquanto se preparava para fazer
concurso para ser docente da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, onde sonhava atuar no novo Departamento de Literatura
Africana que estava para ser aberto. Sua
ambição inicial era a academia e a carreira do magistério.
Para seu azar, ou sorte, no auge da era Collor, o concurso foi
suspenso. Na época, sem emprego e sem poupança, foi
buscar outras alternativas de trabalho. Isso coincidiu com uma
proposta para fazer parte do corpo de lexicógrafos na elaboração
do Dicionário Houaiss. A partir daí sua vida deu
uma
guinada. Acabou trocando o magistério pela Literatura conforme
as oportunidades foram surgindo. Como professor,
Mussa ainda exercita sua antiga vocação nas diversas
palestras e cursos livres para os quais é convidado a falar
sobre os
temas dos seus livros. Alberto Mussa, venceu o Prêmio Casa
de Las Américas e o APCA com O enigma de Qaf (2004),
e o mesmo APCA e o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca
Nacional com seu livro anterior, O movimento pendular
(2006). Recentemente lançou Meu destino é ser onça,
ensaio sobre a mitologia Tupinambá.
Por César Fraga
Extra Classe – É correto afirmar
que existe um quê de antropofagia
e canibalismo cultural que
permeia a sua obra?
Alberto Mussa – Acho que
sim. Se a gente pensar naquele
sentido do Manifesto Antropófago
de Oswald de Andrade. Porém, a
motivação fundamental não partiu
de um interesse específico deste
pensamento. Apesar de eu considerar
o Manifesto uma peça literária
muito bonita. Partiu mesmo
de uma característica de personalidade.
Acho que cada autor coloca
sua personalidade de escritor
em função de seus interesses e daquilo
que considera importante escrever.
Além da literatura, de todos
os gêneros e épocas, sempre me
interessei desde muito cedo por
línguas: hebraico, africano, grego,
línguas indígenas, dialetos árabes
etc. Esse conhecimento de línguas
acabou me transportando para a
mitologia dos povos que falam ou
falavam essas línguas. E, apesar de
nunca ter feito estudos acadêmicos
em relação a isso, a mitologia é outra área que me
instiga bastante.
EC – Mas o senhor está afastado
do mundo acadêmico.
Mussa – Sim, abandonei a Universidade
há muitos anos. Não segui
a carreira que eu pretendia.
Inicialmente eu queria ser professor
de Literatura Africana, mas isso
acabou não se concretizando. Tentei
fazer um doutoramento em línguas
Tupi-Guarani em 1990, mas
isso também não foi avante. Acabei
me desviando da academia e
me tornando escritor, justamente
pela falta que a Universidade fez.
Mas esses assuntos sempre me interessaram,
assim como a história
e a pré-história dos povos. O meu
primeiro livro, Elegbara, se baseia
numa figura da mitologia africana,
que é o orixá Exu. Foi então que
escrevi algumas histórias em que
direta ou indiretamente aparecia
esta figura. E esse já era um início
de tratamento desta questão mitológica.
Certa vez usei como resposta
a citação de Oswald de
Andrade: “Só me interessa o que
não é meu. Lei do Homem. Lei do
Antropófago”. E isso coincide com
a minha busca. Com essa vontade
de conhecer culturas.
EC – A questão da linguagem
também é sempre importante em seu
trabalho, tanto quanto o que é narrado.
Como funciona o seu processo
de apropriação da linguagem e da
forma de pensar dos indivíduos e povos
sobre os quais o senhor escreve?
Mussa – Na verdade não sei
se eu chego nesse nível de apropriação,
pois isso exigiria um conhecimento
e uma formação especializada
em Antropologia, que não
tenho. Sou um leitor leigo. Meu
objetivo é a Literatura. Na verdade,
busco apenas fazer
uma provocação literária.
Como normalmente
a gente
encontra em
culturas que não
são as nossas, mas
estão próximas
de nós, fatos,
costumes e incidentes
muito diferentes
da nossa
forma de pensar,
isso se torna
um elemento literário
forte e
muito produtivo.
São elementos
que nos obrigam
a refletir e a fazer
uma viagem
maior. Obviamente
existe um
tipo de literatura
que é mais
referencial, que
procura retratar
o cotidiano ou
os dramas da contemporaneidade.
Existem excelentes autores que
tratam dessas coisas. Não é o meu
caso. Me interessa o contrário, buscar
situações exóticas – entenda-se
o termo no sentido etimológico
da palavra. Mas esse exotismo, esse
diferente que está fora de mim é o
que realmente me motiva.
EC – Não
há uma certa
universalidade
nesse
exotismo? Mitos originários de várias
culturas distantes possuem
muitas semelhanças. O senhor poderia
enumerar alguns e referir qual
a sua interpretação desse fenômeno?
Mussa – Sim. Existe quase uma
contradição. As culturas são muito
diferentes e os mitos similares.
Existem vários exemplos espalhados
pelo mundo. O mito do dilúvio
foi contado na
Babilônia dois mil anos
antes da redação da Bíblia.
Depois passou a ser
um tema clássico, mas
essa história também foi
contada com variantes
na África e pelos nossos índios Tupinambás e
Tamoios. Esse é um tipo
de mito universal
como tantos outros. É como se existisse um
fundo
cultural comum e gigantesco que
vem da alta pré-história da humanidade,
quarenta ou cinquenta mil
anos atrás, quando muito da compreensão
das coisas passava pela
mitologia. A partir da dispersão dos
homens pelo planeta, esse conhecimento
foi mantido e foram feitas
adaptações locais. O motivo do
mito é o mesmo, mas a significação é
diferente. Outro mito recorrente é
o da origem do fogo. Raramente,
nas várias culturas onde ele existe,
o fogo é descoberto. Quase sempre é
roubado. Isso não pode ser coincidência.
Pode, inclusive, conter
uma verdade histórica profunda.
Claro que para que seja entendido
como mito, sempre está presente
algum elemento mágico, fantástico.
O fogo é roubado, portanto não
se trata de uma invenção do homem,
mas sim de um conhecimento
que ele rouba, adquire, e a partir
daí se diferencia dos outros animais.
Para os gregos significa o castigo
de Prometeu, que não era um
homem, e num ato de doação pelo
bem da humanidade se sacrifica.
Um mito análogo com a história de
Jesus, que se também se sacrificou
em prol dos homens. Já no mito
Tupinambá não existe essa significação
de sacrifício, mas de superioridade
do homem ante os animais.
Em resumo: o homem rouba o fogo
do abutre, que era o dono do fogo.
Com isso, a ave que comia carne
cozida, passa a comer carne podre.
EC – Em Meu destino é ser
onça o senhor escreve que o canibalismo
era um traço civilizatório dos índios e os diferenciava
dos animais.
Como isso se deu?
Mussa – O canibalismo dos Tupi é
bastante complexo e nós ainda
não temos uma compreensão exata
disso, pois fazia parte de uma cultura
que já desapareceu. Só podemos
nos valer do que foi escrito,
porém essas fontes sofreram muitas
interferências. Mas a ideia básica
passa pela realidade de então,
quando a morte natural era algo
muito perigoso. Além disso, o objetivo
religioso era chegar à Terra-sem-mal, uma espécie de Paraíso,
onde se viveria para sempre, dançando
e bebendo. Nesse lugar, não
havia incesto, nem morte, nem trabalho.
Para se ter direito a esse paraíso,
em que a vida é só prazer, era
necessário que a alma fizesse uma
grande viagem cheia de provas por
lugares perigosos. Ou seja, o Tupi
precisava se habilitar durante a
vida para essa Terra-sem-mal. Parte
desse processo de habilitação à vida eterna passava pela
quantidade
de nomes que a pessoa conseguia
obter. Então, o matador, toda
vez que matava, tomava o nome do
morto e o integrava ao seu.
Cunhambembe, por exemplo, possuía
centenas de nomes, pois havia
matado mais de cem pessoas.
Quanto mais nomes, mais apta a
pessoa estava para assumir a vida
eterna. A pessoa que morria
sacrificialmente já era admitida
nesse local. Há um jogo de inversões,
em que aquele que vence
adquire credenciais para a vida
eterna e aquele que morre já a conquista
de imediato, ou em algumas
interpretações, tão logo fosse vingado.
Já a morte natural não
credenciava a nada, e forçar a própria
morte seria uma covardia. Essas
pessoas precisavam vingar uma
série de antepassados numa situação
desejada de morte em que o
matador e a vítima precisam um do
outro para atingir seus objetivos.
EC – Por que restituir o mito
Tupinambá?
Mussa – Primeiro, porque acho
que como peça literária é muito
interessante. Segundo, porque
também existe um serviço à cultura
brasileira que precisa ser prestado,
que é o de colocar em português
essas coisas todas que estão
em outras línguas e que teoricamente,
pelo menos, deveriam nos
interessar mais do que aos outros.
Afinal de contas, nós temos uma
relação direta, histórica, com esses
povos. Não só vivemos no mesmo
território em que eles existiram,
como somos descendentes deles. A
maioria das pessoas que vive no
Brasil descende de índios, por mais
que sejam muito miscigenados. O
fato é que existe na população brasileira
uma continuidade genética,
biológica e espacial de uma
população que viveu aqui. Ora, em
qualquer país que se tenha o mínimo
de respeito pela história e
pela cultura, se preserva e se estudam
as formas culturais ancestrais.
EC – Até por que a cultura indígena
influiu muito na formação
da identidade brasileira. Até mesmo
na linguagem. Esses elementos,
mesmo que diluídos, ainda estão
presentes?
Mussa – Exatamente. O português
do Brasil é o que é em função
dos falantes da língua geral, do
tupi antigo e das línguas africanas.
O nosso português está totalmente
contaminado por essas línguas
todas. Mas não só na questão da
linguagem. O Brasil não seria o
que é se não tivesse a história que
teve. Não há outra herança que
não a história. E é a relação que se
deu entre todos os povos que coexistiram
aqui, com ou sem violência,
que resultou no que somos
hoje. Isso é o que condicionou a
formação do povo brasileiro e suas
variantes regionais. Eu acho que é um dever nosso preservar, discutir
e trazer à tona essa documentação,
não só dos Tupinambás, mas de
centenas de povos indígenas. A
gente pensa hoje muito em preservação
do meio ambiente e da
biodiversidade, porque se compreendeu
depois de muitos anos de
desrespeito à natureza que é fundamental
para a vida que se preserve
essa diversidade. E eu acho
que tão ou mais importante que
isso é a diversidade cultural. E o
Brasil tem isso. É um país com uma
das maiores diversidades culturais
do mundo. São quase 200 etnias
que possuem línguas e modos de
pensar diferentes. Precisamos conhecer
e valorizar isso. Por meio do
estudo, trazer para o imaginário que
compõe nossa nacionalidade essa
questão da nossa ascendência indígena.
Esse aspecto foi massacrado
durante o período colonial, por
ser indesejado. Existia a questão de
limpar o sangue por não sei quantas
gerações para deixar de ser considerado
bugre, mulato ou negro. Só que agora já estamos em condições
de reverter essa situação e encarar
a história de outra maneira.
EC – Em O trono da Rainha
Ginga, os africanos. Em O enigma
de Qaf, os árabes. Em Meu destino é
ser onça, os índios. Já em
Elegbara e O movimento pendular
a narrativa atravessa a história
de vários povos e culturas. Existe
um plano, uma espinha dorsal em
sua obra no sentido de definir a si e
também a nós brasileiros, pelo entendimento
e compreensão daqueles
que não somos, mas que de alguma
forma construíram nossas
heranças culturais, éticas e estéticas?
Mussa – Nunca foi um plano
consciente. Na verdade, essas coisas
foram acontecendo na medida
em que me interessaram em momentos
distintos da minha história
pessoal. Meio por acaso. O trono
da Rainha Ginga e Elegbara são
frutos do mesmo movimento. A
própria Rainha Ginga faria parte
do projeto inicial de Elegbara e
estaria entre os personagens que
compõem o livro. Tanto é que ela
também tem a presença do personagem
Exu na trama. Na época eu
ganhei uma bolsa da Biblioteca
Nacional para produzir um romance.
Como esse conto já tinha tomado
uma proporção maior do que
os demais, acabou virando um livro
a parte. Esses dois livros, portanto, são consequência daquele
período que estudei muito história
da África, línguas africanas e
possuía uma acúmulo sobre o tema.
Minha dissertação de mestrado
chamava-se justamente O papel
das línguas africanas na história do
português do Brasil. Eu já tinha
muitas leituras sobre línguas e mitos
africanos, além de um interesse
pessoal, pois frequentei muito candomblé e umbanda quando era
mais jovem. Além disso, fui
capoeirista e sempre estive ligado
ao universo de escola de samba.
Meu tio foi compositor de sambasenredo
de carnaval e meu irmão,
que introduzi na capoeira hoje, é mestre. Depois disso, me interessei
pela poesia pré-islâmica e comecei
a estudar árabe. Foi quando
fiz a tradução dos poemas
suspensos e acabei fazendo uma ficção
ambientada no mundo árabe,
que é O enigma de Qaf. Já O movimento
pendular que foi escrito mais
tarde abarca vários povos e culturas.
O livro mais recente, Meu destino
é
ser onça, já não é ficção. Ainda
tenho um projeto de fazer uma
obra de ficção sobre esse universo,
principalmente sobre as bandeiras,
que podem render boas histórias.
EC – Esse vai ser o próximo livro?
Mussa – Ainda não. O próximo é
uma historinha que se passa
no Rio de Janeiro, mais ou menos à
feição de A Rainha Ginga, naquele
mesmo ambiente. Mas está nos planos, para daqui alguns anos,
esse romance maior sobre as bandeiras
que é uma aventura fascinante
e que não possui um livro
de referência. Eu gostaria de fazer
esse livro. Mas também tenho interesse
em escrever algo sobre a
China, que é uma civilização que
me interessa muito.
EC – Voltando a Meu destino é
ser onça. É muito difícil para as
pessoas compreenderem as virtudes
dos ritos canibais indígenas?
Mussa – Eu acho que se não
entendem, pelo menos deveriam se
dar conta de que existe uma
metafísica complexa. Esse canibalismo
não se dá em um estado de
selvageria. Ele tem uma significação
metafísica. Existe um sentido,
uma razão para existir.
EC – Se há razão não é animal.
Seria isso?
Mussa – Sim. E tem um objetivo
nobre decorrente de uma forma
de compreensão do mundo,
que por mais que seja diferente da
nossa, tem de ser respeitada. Nós
representamos apenas uma maneira
de encarar o mundo, que não é melhor nem mais correta. Um índio,
por exemplo, não concebe que
alguém fique preso. Isso é uma abominação.
E nós que temos cadeias
e prendemos outras pessoas nelas.
Na visão deles, somos verdadeiros
selvagens, pois praticamos uma violência
que é terrível. Ao mesmo
tempo nós os julgamos selvagens
porque eles comem pessoas, ou
melhor comiam. Ser enterrado ou
morrer naturalmente era a pior coisa
possível. Essas diferenças de opinião
mostram que ninguém está com a razão absoluta. Justamente
por isso não podemos partir de um
pressuposto de que estamos em um
estágio superior. Isso é uma grande
mentira.
EC – A leveza fluída do seu
texto é ocasional ou metodicamente
lapidada para que favoreça ao leitor
acompanhar seu estilo reflexivo
de contar histórias?
Mussa – Quando se começa a
escrever, você precisa encontrar
um estilo pessoal e senti isso logo
no início, quando comecei a querer
ser escritor. Eu aprendi muito
sobre isso por meio da leitura de
Jorge Luis Borges e de seu biógrafo,
Bioy Casares. Inclusive, gosto
mais do Casares, apesar de Borges
ser um gênio indiscutível. E sendo
brasileiro, tinha duas sombras muito
pesadas: Machado de Assis e
Guimarães Rosa, que eu não tinha
como imitar, tanto por falta de capacidade,
como por serem referências
muito marcadas. Como eu vinha
do mundo acadêmico, essa
identificação com os dois argentinos
me dizia que era possível com
a experiência de texto que eu já tinha ir naquela direção.
Mas essa
influência serviu muito mais para
que encontrasse meu estilo pessoal,
minha voz própria, me permitindo
ser eu mesmo em meus textos.
Porém, eu acho que minha
maneira de escrever só alcançou a
maturidade em O enigma de Qaf.
Antes disso meu estilo ainda estava em construção.
EC – Como o senhor quer atingir
o leitor? Que tipo de compreensão
espera provocar?
Mussa – Não sei se espero compreensão. É
mais provocação. Além
disso, sinto muita falta na Literatura
brasileira do fantástico e da
aventura. Mas não tem aí uma
crítica. Nossa literatura não fica
devendo para nenhuma literatura
do mundo. Porém, não temos
essa tradição e tento explorar um
pouco isso.
EC – Seu trabalho não é ensaio
acadêmico nem ficção pura.
Como o senhor o define?
Mussa – Em alguns livros, por
mais que misture essas duas coisas,
existe uma fronteira bem nítida. O movimento pendular, por
exemplo, foi um livro que sofreu
muito com um tom muito
ensaístico que tinha, apesar de ser
ficção, um romance. Já Meu destino é
ser onça não é ficção. Por mais
que eu tenha utilizado ficção e
tenha partido de uma proposta literária
que é reconstituir uma coisa
que nunca existiu, trata-se de um
ensaio.
EC – Mas também há uma
questão de hábito de escrita que ajuda
nessa classificação, não é mesmo?
Mussa – Sim (risos). O movimento
pendular eu escrevi a mão,
como todas as minhas ficções e Meu
destino é ser o nça foi direto no computador,
como todos os ensaios. E é uma coisa psicológica minha.