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Luciano Lobelcho sobre foto AgBR |
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Enquanto o governo federal comemora o sucesso das formas
alternativas – e limpas – de geração
de energia e a Petrobras anuncia o aumento
dos investimentos para o quinquênio 2009-2013 em 55%, de
forma a mais do que dobrar a
produção de óleo, um debate ganha força
entre os que conhecem bem o setor energético. É o
que diz respeito à exploração
das gigantescas reservas de petróleo descobertas na camada
do pré-sal. Por hora, o petróleo que repousa sob
as camadas
de pré-sal é brasileiro, mas quando for extraído
será de quem? Essa indagação integra um debate
que começa a tomar corpo.
De um lado, movimentos sociais se articulam pela alteração
do atual marco regulatório do setor. De outro, as multinacionais
que atuam na exploração de petróleo no Brasil
tentam manter o marco hoje em vigor, que lhes garante o acesso
generoso às
reservas de pré-sal. Estabelecido a partir da Lei do Petróleo
(Lei 9.478/97) e do Decreto 2.705/98, o marco atual determina
que a União tenha uma participação especial
na produção do petróleo que chega a até 40%
e que receba royaltes na faixa de
5%. Entre os países exportadores, a média desta participação
ultrapassa os 80%. Além disso, o Brasil possui contratos
de
concessão, enquanto muitos já utilizam os de partilha,
mais indicados para áreas de risco quase zero como é o
caso do pré-sal.
Por Flávia Benfica

ano
de 2009 é apontado como
fundamental para a definição do
futuro do país no que se refere às
reservas de pré-sal, porque o governo
vai estabelecer qual o novo marco regulatório
do setor. Para bater o martelo,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
tomará por base as alternativas propostas
pela comissão interministerial
encarregada de formatar as diretrizes
do novo modelo. Criada em julho do
ano passado, a comissão é coordenada
pelo ministro de Minas e Energia, Edison
Lobão, e integrada pela ministrachefe
da Casa Civil, Dilma Rousseff,
pelos ministros do Planejamento, Paulo
Bernardo, e da Fazenda, Guido Mantega,
e pelos presidentes da Petrobras,
José Sergio Gabrielli, do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES), Luciano Coutinho,
e da Agência Nacional de Petróleo
(ANP), Haroldo Lima.
No final de janeiro, sem alarde, a
comissão realizou uma reunião na qual
ficaram fechadas cinco propostas. Na
saída do encontro (do qual participaram
apenas Dilma, Lobão e Bernardo),
o ministro de Minas e Energia declarou
que uma segunda reunião, a ser realizada
na primeira semana de fevereiro,
com todos os integrantes da comissão,
seria definitiva, mas ela não aconteceu.
Foi Lobão também que adiantou
que a decisão do presidente Lula
deve ocorrer em um mês a partir do
momento em que receber as propostas
do grupo. Apesar das declarações do
ministro, na Casa Civil a informação é de
que o governo não vai definir “apressadamente” uma questão
que considera tão estratégica. Foi isso que Dilma
declarou aos integrantes do Conselho
Permanente da Confederação Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), durante
encontro realizado na sede da entidade
em Brasília para tratar sobre o
assunto em 11 de março. A comissão
interministerial deve concluir seus trabalhos
em abril e apresentá-los ao presidente
Lula.
Enquanto o governo adia uma decisão,
os movimentos sociais, para
quem as notícias também chegam a
conta-gotas, tentarão em 2009 o que
não conseguiram em 2008: fazer com
que as informações a respeito de como
se dará e com quem ficarão os recursos
obtidos com a exploração da camada
do pré-sal cheguem a toda a sociedade,
de forma que ela possa opinar.
A primeira grande atividade conjunta
do ano foi o seminário do Fórum
Contra a Privatização do Petróleo e
Gás, realizado no início de março no
Rio de Janeiro.
No evento ficou definido que as
entidades participantes consideram
prioritários o cancelamento dos leilões
de petróleo e gás (com anulação
dos já realizados) e a mudança na Lei
do Petróleo, de forma que a exploração
e a produção fiquem a cargo da
Petrobras e esta volte a ser totalmente
estatal. “Nossa mobilização é pela
alteração do marco regulatório e pelo
fim dos leilões”, resume o diretor do
Sindipetro/RS, Edson Flores.
Debate
sobre tecnologia encobre
interesses das multinacionais
De um lado, as informações que chegam ao
cidadão médio dão conta apenas da existência
ou não de tecnologia capaz de permitir a exploração
das gigantescas reservas de pré-sal em território
brasileiro. De outro, em Brasília e no Rio
de Janeiro, onde fica a sede da Agência Nacional
de Petróleo (ANP), a discussão é outra. Especialistas
no setor sabem que a tecnologia existe,
e que permitirá ao Brasil – a partir de 2014,
quando o petróleo da camada de pré-sal já estiver
jorrando – passar para a confortável posição
de quarto
produtor mundial (atrás apenas da Arábia Saudita,
Irã e Iraque). E em um momento da história em
que o debate se dá em torno do esgotamento dos
recursos e do fato de petróleo e gás continuarem
a
responder por 50% da matéria energética mundial.
A discussão dos especialistas, que trata principalmente
do marco regulatório, envolve uma
série de outras questões e, por isso, como dizem
os próprios representantes do governo, o tema é estratégico.
Os movimentos sociais denunciam a
ingerência forte do lobby internacional na ANP,
de forma que as grandes multinacionais que
atuam no setor obtenham o maior – e mais barato –
acesso aos novos campos, a tentativa de
desmonte da Petrobras e o risco de novas privatizações,
conforme o modelo desenvolvido na
era FHC.
Foto:
AgBR |
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A proposta de criação de uma nova estatal
para exploração do petróleo da camada de présal
também não agrada aos movimentos,
que preferem que a Petrobras
(hoje com 40% de capital privado),
retorne completamente às
mãos do Estado e fique responsável
pelo processo. Para o presidente da Associação dos
Engenheiros da Petrobras
(Aepet), Fernando Siqueira, a criação
de uma nova estatal teria o objetivo de desviar
a discussão das mudanças necessárias no marco
regulatório.
“Essa nova estatal apenas substituiria a ANP
no gerenciamento dos leilões. Seria como trocar
seis por meia dúzia”. Do lado do governo, o argumento é
de que, por trás da grita, parte das
reivindicações dos movimentos são corporativas.
A ideia é mudar o marco regulatório, mas sem
dar maiores poderes à Petrobras. “Os movimentos
fazem questionamentos legítimos só que no
passado recente optamos por um modelo que
neste momento não parece adequado modificar
integralmente. Posso garantir que o governo
Lula é de caráter nacionalista e o
novo modelo, que será definido em breve,
vai levar isto em conta”, assinala o
líder do governo na Câmara dos Deputados,
Henrique Fontana (PT/RS).
Por fora, correm com rapidez as multinacionais.
Seu principal argumento é o de que o país
não teria tecnologia e nem
recursos financeiros suficientes
para arcar com a
exploração sem o seu
auxílio. E é justamente
o discurso das multinacionais
que mais
aparece nas informações
que chegam
ao cidadão
médio.
Estudo indica
necessidade de controle na extração
No final do ano passado, a Consultoria
Legislativa da Câmara dos Deputados lançou
o estudo
Um novo marco legal para pesquisa
e lavra das jazidas brasileiras de petróleo
e gás natural, que dá destaque para o fato de
o risco de exploração do petróleo no pré-sal
ser de quase zero e, por isso, se fazer necessário
um maior controle da riqueza e participação
nos resultados da exploração. Pela
Lei do Petróleo (Lei 9.478/97), a União assina
contratos de concessão para a pesquisa e
a lavra, mas o produto dessa lavra é propriedade
do concessionário. Assim, o petróleo
extraído pertence às empresas concessionárias
e a parte do governo é paga em royalties
(hoje na base de 5%) e participações especiais (que
são de 40% apenas no Brasil).
| Foto:
Antonio Cruz ABr |
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Via
Campesina A ocupa prédio do Ministério
de Minas e Energia
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A proposta do estudo são contratos de partilha
no lugar das concessões, com gestão a cargo
da nova estatal. No modelo de partilha de produção,
parte do óleo extraído pertence ao Estado.
Oficialmente, essa é também a posição
da ANP. Mas há mais. Um dos pontos que leva
representantes dos movimentos sociais a desconfiarem
da boa vontade do governo é o histórico
e por vezes a postura de alguns dos representantes
da União. Foi o diretor da ANP,
Haroldo Lima, que no ano passado deixou vazar
as informações sobre o pré-sal, antes de qualquer
anúncio do governo. O currículo do ministro
das Minas e Energia, Edison Lobão, dispensa
apresentações. As críticas à ANP incluem,
por exemplo, a de que a empresa
norte-americana Halliburton, por
meio da subsidiária Landmark, atua
dentro da agência, sem concorrência,
no gerenciamento do Banco de
Dados de Exploração e Produção
(BDEP), e a de que o diretor responsável
pela gerência que define os
blocos a serem licitados seria um preposto
da multinacional.

“Em
2004 o Ministério Público
determinou que fosse feita concorrência
para administrar o banco de
dados da ANP. A Agência não obedeceu.
Estamos pensando em ação
judicial”, destaca Siqueira. A ANP
refuta as acusações. Conforme as informações
já divulgadas pela agência, o contrato com a
subsidiária da Halliburton é de prestação
de
serviços técnicos especializados, para apoiar a
operação rotineira do BDEP, relacionados ao
uso do sistema Petrobank, e de capacitação
técnica em atividades especializadas de carga
e recuperação de dados geofísicos do banco.
Em relação ao diretor, o argumento é de que
o
fato de ter trabalhado na multinacional não
prejudica ou interfere no desempenho de suas
atuais funções.
Discussão também
passa pelo congresso
As descobertas das reservas de pré-sal motivaram
não apenas mobilizações por parte dos
movimentos sociais, mas também no Congresso.
No ano passado três projetos de lei (PLs)
sobre o assunto foram apresentados na Câmara
dos Deputados. Todos foram anexados e passaram
a tramitar em conjunto com o PL de 2003,
de autoria do ex-deputado Mauro Passos (PT/SC), que regulamenta
a distribuição dos recursos financeiros provenientes
da compensação
financeira pela exploração de petróleo ou
gás natural na plataforma continental.
Pelo projeto, a compensação financeira devida
pela lavra deve ser dividida na seguinte
proporção: 20% para a constituição
de um fundo
repartido entre os ministérios de Minas e
Energia, Ciência e Tecnologia, Meio Ambiente
e Defesa; 40% para a constituição de um
fundo repartido entre estados e municípios afetados
pelas atividades de escoamento da exploração
de petróleo e gás e 40% para um fundo
repartido entre estados e municípios não afetados.
Atualmente Passos é o membro latino-americano
do Conselho Mundial de Energias Renováveis
(WCRE), com sede na Alemanha, e preside
o Instituto para o Desenvolvimento de Energias
Alternativas na América Latina (Ideal).
| Os
projetos apresentados no ano passado |
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PL 4018/2008 – em
3 de setembro
De autoria da deputada Elcione Barbalho
(PMDB/PA), estabelece que 30% dos royalties e
participação especial provenientes
da exploração
de petróleo e de gás natural da camada
de
pré-sal sejam destinados ao Fundo Nacional
de
Desenvolvimento da Educação (FNDE)
e ao Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à
Fome (MDS).
PL 4476/2008 – em 10 de dezembro
Apresentado pelo deputado Henrique Fontana
(PT/RS), dispõe sobre a destinação
dos royalties
incidentes sobre a produção de petróleo
e
gás natural que ultrapassar a produção
mensal
média dos 12 meses anteriores ao da publicação
da lei. Por ela, os royalties referentes à produção
anterior seguem distribuídos conforme as Leis
7.990 e 9.478. Os novos serão repassados aos
estados,
Distrito Federal e municípios, proporcionalmente à
população de cada um, e na proporção
de 48% aos estados e Distrito Federal e 52%
aos municípios. Os recursos serão exclusivamente aplicados em ações e programas públicos
de
Educação, Ciência e Tecnologia.
PL 4506/2008 – em 16 de dezembro
Do deputado Osório Adriano (DEM/DF),
prevê que a ANP possa, no edital de licitação,
reduzir ou elevar o valor dos royalties entre 5% e
50% da produção. O royalty que representar
5%
da produção, quando a lavra ocorrer em área
terrestre, será distribuído conforme
a Lei 7.990.
Quando a lavra for na plataforma continental,
o projeto prevê duas possibilidades de divisão.
Na primeira, 60% são destinados a um Fundo
Especial que beneficiaria estados, territórios,
municípios e Distrito Federal para que apliquem
os valores em obras de infraestrutura, saneamento,
saúde e segurança pública. Na
segunda, o
percentual cai para 40%. Na justificativa do
projeto, o deputado argumenta que o sistema
vigente corresponde aos interesses nacionais e
que é prejudicial ao país uma mudança
do marco
regulatório que implique a “excessiva” estatização.
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