
A
arte da derrota
Por dois Santos dos Santos*
o
mundo há mais derrotados do que vencedores”. Esta
frase do
filósofo Michel Serres diz muito sobre a trágica
condição humana.
Não é necessário grande esforço para
descobrir que na verdade a
maioria veio para fracassar. Mas alguns perdedores trazem, enovelada
em si,
toda uma “poética da derrota”, que, analisada
a fundo, pode revelar uma
é
tica rigorosa e talvez quem sabe uma “estética do
fracasso”.
MANOEL FRANCISCO DOS SANTOS – o Mané Garrincha – nasceu
em Pau Grande, município de Magé, estado do
Rio de Janeiro,
em 18 de outubro de 1933. No início dos anos cinquenta do
século passado,
saiu da várzea para fazer teste no Botafogo, um dos grandes
clubes
de futebol do Rio. No primeiro treino, marcado pelo lendário
Nilton
Santos, revelou-se um malabarista da bola, incontrolável.
Nilton teria
recomendado ao treinador: “Contratem esse garoto porque eu
não quero
jogar contra ele”. Tornou-se profissional e uma das glórias
do Botafogo.
Na Copa Mundial de 1958, na Suécia, era reserva, mas com
sua entrada
em campo o Brasil melhorou muito e acabou ganhando o campeonato.
Na Copa de 1962, no Chile, com a saída de Pelé, por
lesão, ele foi único
e inacreditável, garantindo com as pernas tortas e os seus
pés mágicos a
conquista do título. Um pouco mais tarde, por estar sempre
machucado –
já que a marcação era feroz – e outras
frustrações, acabou se entregando
ao alcoolismo. Foi jogando cada vez menos, até abandonar
o futebol e
se transformar numa espécie de pária luminoso e angelical,
dependendo
da ajuda de amigos e instituições. Era um gênio
desse tipo de esporte
como nunca houve nada parecido. Morreu em sua terra natal, em 20
de
aneiro de 1983.
ROBERT FALCON SCOTT, explorador inglês, nasceu em 6 de junho
de 1868. Seu sonho era chegar à Antártida e conquistar
o Polo Sul
para o Império Britânico. Para isso fez mais de uma
expedição. Na última,
com três companheiros, partiu de Cardiff na segunda quinzena
de
outubro de 1911, equipado com pôneis e cães adaptados
ao frio. Ao
chegarem ao Polo, em 17 de janeiro de 1912, encontraram ali a bandeira
da Noruega fincada no gelo por Roald Amundsen, que havia
chegado 33 dias antes. Na volta, Scott e seus homens se perderam
e
provavelmente – em consequência do clima inóspito,
do cansaço e
da fome – tenham morrido em fins de março deste mesmo
ano. Os
corpos foram achados depois de nove meses. Sobreviveram o seu diário
e a sua história.
TELÊ SANTANA DA SILVA – o Telê Santana – nasceu
em Belo
Horizonte, em 27 de julho de 1931. Em fins dos anos 40 do século
passado,
foi para o Rio de Janeiro, onde passou a jogar pelo Fluminense,
e por
sinal era um bom jogador. Ao encerrar a carreira, nos anos 60,
torna-se
técnico de futebol, vindo a treinar vários clubes
Brasil afora, até chegar à
Seleção Brasileira de 1982. Telê Santana foi
excepcional, lendário até,
não por haver vencido nesta ocasião, mas porque perdeu
com um time
de primeira como há muito não se via. Sua visão
do futebol, leal e íntegra,
mostrava que se devia esperar de uma partida mais do que força
bruta e eficiência. Havia espaço, no que ele pregava,
para a elegância, a
beleza e o estilo. Um técnico que combatia a violência
quando outros
mandam bater sem pena nem remorso, que proibia o carrinho por trás,
que tinha como lema uma frase que devia estar gravada com letras
grandes
em todos os estádios de futebol: “Eu prefiro empatar
jogando bem do
que ganhar jogando mal”. Exatamente o contrário de
todo este rebanho
de medíocres, que mereciam estar na várzea e nos
potreiros convivendo
com bovinos e quadrúpedes em geral. A Seleção
de 1982, desclassificada
na semifinal daquele torneio, foi uma das grandes seleções
de todos os
tempos, emulando com as de 1958, 1962 e 1970. A derrota foi o seu
túmulo e a sua glória.
MARKO KAHN SU GRIÁ, índio, homossexual, aidético,
viciado
em álcool e morador de rua, nos perto de 40 anos que lhe foram
concedidos
para viver era um “compêndio de situações
humanas” – como diz
a jornalista Rosina Duarte, que o conheceu – que tinha tudo
para atrair
o estigma e a discriminação de uma forma geral. Nascido
em Redentora,
a maior reserva indígena do estado, provavelmente em 1970,
foi criado
entre brancos por uma família de origem alemã. Ao entrar
em conflito
com os pais adotivos, tentou reatar com as raízes, mas não
deu
certo. Então ficou ao léu. Possivelmente nesta época
esteve na Febem,
famigerada instituição para recolhimento e guarda de
menores abandonados.
Depois, com certeza tenha ficado a maior parte da vida na rua,
ao desamparo. Possuía algum estudo, talvez o primeiro grau,
e lia muito,
apesar das condições adversas. Em certa ocasião,
andou trabalhando
como funcionário na Ufrgs e na Assembleia Legislativa do Estado.
Muito
inteligente, extremamente articulado, com uma clareza de raciocínio
e capacidade de exposição espantosas, dava também
palestras sobre
prevenção de Aids. Houve momentos em que usou droga
pesada, mas a
sua preferência, até pela facilidade para adquirir,
era o álcool. Quando
bebia, tornava-se agressivo, um tanto verbalmente, e apanhava bastante,
da polícia e dos próprios companheiros de desgraça.
Personalidade forte, franca, amorável, serena e generosa quando
sóbria, na opinião de amigos e conhecidos – a
chinesa, como era chamado –
foi perdendo para a morte, uma a uma, as amizades mais caras
e íntimas, ficando em consequência muito depressivo
e adoentado
(tuberculose, uma das enfermidades oportunistas que atacam quem
sofre de Aids). Encorajado a reagir, disse que não valia a
pena, que
vários daqueles que amava já haviam partido, e que
já era também
hora de ele ir. E então foi.
* Escritor