É raro caminhar pelas ruas de uma cidade no Brasil
sem tropeçar em um buraco, ter de desviar de uma pedra
na calçada,
uma placa ou uma banca de revistas. Se este é um problema
para quem enxerga, é pior para quem tem deficiência
visual
ou se locomove em uma cadeira de rodas. Sem falar para os
idosos e os acidentados. Cerca de 14,5% da população
tem
alguma incapacidade ou deficiência, segundo o Censo
de 2000. Estas pessoas ainda precisam da boa vontade alheia
para frequentar uma escola, entrar em um banco, assistir
a um filme no cinema, ir a um estádio, a um bar ou
circular em
uma loja, porque a maioria dos estabelecimentos não
tem rampas, banheiros espaçosos, sinalizadores no
chão e outros
equipamentos exigidos por lei. A legislação
que garante a acessibilidade é abrangente, mas, na
maior parte das vezes, nãoé cumprida, e os infratores não sofrem qualquer punição.
Por Clarinha Glock
inte
anos depois da primeira
legislação que reconheceu e
garantiu o direito de acessibilidade
–
a Lei nº 7853, de 24 de
outubro de 1989, dispõe sobre a
Política Nacional para a
Integração das Pessoas com Deficiência
–
, há muitos obstáculos.
Em 2004, o Decreto nº 5296 regulamentou
as Leis nº 10.048 e
10.098 que estabeleceram a prioridade
de atendimento e as normas
gerais e critérios básicos de
promoção da acessibilidade. Estipulava,
por exemplo, um prazo de
24 meses para a adaptação do
transporte público. O período
máximo seria de 12 meses para a
acessibilidade em portais e sítios
eletrônicos de administração pública
na Internet para pessoas com deficiência
visual.
Novas leis, portarias e decretos
vieram depois, em nível municipal,
aperfeiçoando as diretrizes,
estipulando novas datas para
o cumprimento e, no entanto, o
Brasil está visivelmente atrasado
em relação a outros países. Como
o prazo da lei federal já expirou,
os municípios fazem termos de
ajustamento de conduta conforme
a situação.
Porto Alegre devia servir de
exemplo para as cidades menores,
já que existe até um órgão executivo –
a Secretaria Especial de
Acessibilidade e Inclusão Social.
Mas o secretário Tarcízio Teixeira
Cardoso, ele próprio uma pessoa
com deficiência, reconhece que
a mudança é lenta porque inclui
um processo de inovação
conceitual sobre as questões estruturais –
urbanística, arquitetônica,
de transporte e comunicação – ,
e, principalmente, cultural.
“Conta a história que os índios
deixavam para morrer seus filhos
com deficiência”, lembra o
secretário. Sofismas e mitos ajudaram a perpetuar o preconceito
e a impedir avanços – ou a pessoa é
vista como um super herói, que
sem pernas e sem braços ultrapassa
qualquer barreira, ou como um
coitadinho que está com um cobertor
em cima das pernas e com
a boca entreaberta, esperando a
hora do comprimido. Muitos antes
não exigiam seus direitos porque
ficavam em casa – era tão
difícil circular pelas ruas, entrar
nos lugares e se sentirem efetivamente
cidadãos, que preferiam
evitar o confronto. Agora que saíram,
não há desculpa para
ignorá-los.
O
custo ainda é uma barreira
Um problema constatado pelo secretário
Tarcízio Cardoso é a falta de apropriação
dos
custos para aplicar a acessibilidade. Por desconhecimento,
e com um orçamento em geral
apertado, na hora da construção muitas
obras não contemplam recursos para fazer as
adequações necessárias. Quando
existe a
verba, não consideram o custo-benefício.
O
gasto a mais com o concreto de uma rampa
construída conforme orientações
técnicas,
por exemplo, pode ser compensado pelo uso
inteligente do novo espaço – abaixo dela
pode
ser instalado um bebedouro, um quiosque,
um depósito. Além disso, economiza o
preço
de refazer o projeto para adaptá-lo conforme
a lei depois que a obra é concluída.
“Todo mundo diz que custa caro, mas uma
pessoa com deficiência não é mais
alguém
dependente do assistencialismo, ela produz”,
acrescenta Cardoso. “Revistas pagam a sua
publicação com anúncios para pessoas
com
deficiência, o que comprova que é um consumidor
em potencial”.
A lei exige que pelo menos 10% da frota
de ônibus tenha elevadores para o ingresso
de cadeirantes. “Mas falta manutenção
nos ô
nibus de Porto Alegre e algumas vezes os
elevadores não funcionam”, reclama Dilceu
dos Santos Flores Júnior, chefe da Unidade
de Deficientes Físicos da Fundação
de Articulação
e Desenvolvimento de Políticas Públicas
para Pessoas Portadoras de Deficiência e
Pessoas Portadoras de Altas Habilidades no Rio Grande
do Sul (Faders). Outra reclamação
são ônibus com lugar para apenas um
cadeirante – se esta pessoa estiver acompanhada
de outra em cadeira de rodas, uma delas terá esperar
pelo veículo seguinte,
o
que pode durar até 40 minutos, dependendo
da linha e do itinerário.
Mesmo um cadeirante experiente como
Flores Júnior já caiu em buracos duas
vezes,
furou um pneu de sua cadeira e quebrou
uma roda em calçadas irregulares.
Outra vez quase foi atropelado por um ônibus
porque a calçada era muito alta – teve
de andar pelo meio da rua até encontrar
um rebaixamento.
Fora
da capital é ainda pior
No interior do estado, a situação é
mais preocupante. A realização
de fóruns locais organizados
pela Faders tem estimulado discussões
e mudanças. “As pessoas vêm
nos agradecer porque não sabiam
do direito a passe livre e outros
benefícios”, conta Flores Júnior.
Donos de hotéis de Caçapava do
Sul e Montenegro adequaram seus
estabelecimentos para receber os
visitantes. Em Caxias do Sul, depois
da realização dos fóruns, foram
instalados elevadores nos ônibus.
Em Bento Gonçalves, as escolas
começaram a se adaptar e os
professores estão se qualificando.
Em Tapera, a administração municipal
construiu um cordão da
calçada alto demais e foi alertada
para que fizesse um rebaixamento.
“A educação é a alma do negócio”,
diz Flores Júnior. “Se os pais
não encaminharem os filhos com
deficiência para a escola, eles mesmos
estarão discriminando. Isso é comum
nas cidades menores, onde
as crianças não vão ao colégio porque
não têm transporte escolar
adaptado”. A lista de constrangimentos é
tão grande, que desanima.
Como a do rapaz que passou
em todos os testes para um emprego,
mas não foi contratado porque
sua cadeira de rodas não passava
na porta da sala onde iria trabalhar,
a frustração de alguém que
usa um veículo especial e sua vaga
no estacionamento é ocupada por
quem não precisaria dela, ou uma
pessoa com deficiência visual
que bate a cabeça em um telefone
público porque no chão,
antes dele, não existe um
sinalizador adequado.
Os preconceitos e as barreiras
precisam ser superados com informação
e denúncias. “Temos que
buscar parcerias com o governo e
a sociedade civil para orientar, informar,
e para que as ações efetivamente
se realizem”, enfatiza
Adilso Luis Pimentel Corlassoli,
presidente do Conselho Municipal
dos Direitos das Pessoas com Deficiência
de Porto Alegre. Corlassoli,
que é coordenador-adjunto de
Educação Especial na Secretaria
Municipal de Educação e tem deficiência
visual, considera a legislação
brasileira uma das cinco
melhores do mundo. “Precisa tirála
do papel”, explica.
Uma das medidas, por exemplo,
visa a dar acesso aos caixas de
autoatendimento dos bancos. “As
redes bancárias foram notificadas
para fazer as modificações
exigidas”, adianta Corlassoli. As
mudanças devem permitir a um
deficiente visual consultar sua
conta conectando um fone de ouvido.
A tela se apaga, e ele passa a
usar a voz, podendo fazer todas
as operações. Nas cidades onde
não existem os Conselhos de
apoio às pessoas com deficiência,
quem se sentir lesado pode denunciar
diretamente ao Ministério
Público, que tem obrigação de
fazer valer as leis.
Oliveira luta pelo fim dos constrangimentos
“Não precisamos de ajuda, só do direito de
ir e
vir”, ressalta Carlos Roberto Oliveira, o Carlão,
campeão
nacional e internacional de maratonas em cadeiras
de rodas. Apesar de ser um atleta reconhecido,
Oliveira sofre no dia-a-dia ao ser barrado na entrada
de banco para saber onde vai, só porque é cadeirante
ou está de muletas. Quer poder ir a um
cinema e não ter de sentar quase em cima da tela, e
se divertir à noite em um bar sem precisar de ajuda
para se deslocar.
Fala, brincando, que é um “animal em extinção”,
porque tem sequelas de poliomielite e a doença foi
erradicada no país. Nas últimas eleições,
candidatouse
a vereador em Porto Alegre. Não foi eleito, mas
considera-se um vencedor. “Hoje tenho meu espaço
na sociedade graças ao esporte. Ele me deu saúde,
porque tenho a musculatura mais trabalhada, reflexos apurados,
sem falar que conheci os quatro cantos
do mundo”, conta. Venceu provas importantes,
como a Maratona de Nova Iorque em 2001. Atualmente
tem patrocínio, mas precisou fazer um empréstimo
para viajar – já ouviu de uma empresa que
não iria patrociná-lo porque ficava ruim associar
sua
imagem à de um “aleijado”.
Oliveira luta pelo fim das discriminações. Em fevereiro,
junto com o Clube Gaúcho do Desporto em
Cadeira de Rodas do qual é integrante, participou
do encaminhamento de uma representação à Promotoria
de Direitos Humanos de Porto Alegre para
exigir a concretização de políticas públicas
de desporto
adaptadas no Município. E está articulando
também reuniões com os representantes do Estado
para garantir o acesso a centros de treinamento e a
criação de uma escola paraolímpica para crianças.
Calçadas
nota zero
A Secretaria Especial de
Acessibilidade e Inclusão Social
de Porto Alegre tem duas
prioridades este ano: concluir
o Plano Diretor de Acessibilidade
e criar um grupo de fiscais
que deverão percorrer a
cidade para alertar e multar os
infratores. A verba arrecadada
com as multas deverá reverter
para um fundo a ser administrado
pelo Conselho Municipal
dos Direitos das Pessoas com
Deficiência.
A primeira fase do Plano
Diretor de Acessibilidade incluiu
um levantamento
criterioso das pavimentações e
do regramento do mobiliário
urbano (caixas de correio, orelhões,
telefones públicos, bancas,
cartazes) de Porto Alegre
feito pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do
Sul em parceria com a Prefeitura.
O resultado não foi bom.
A nota média para as calçadas é
7, calcula o secretário Tarcízio
Teixeira Cardoso – isso se levar
em conta cada item separadamente.
De forma coletiva, é zero. “Não
adianta ter uma rua
com pavimentação perfeita se
há uma banca de revistas que
impede a passagem de uma cadeira
de rodas”, explica.
O pré-projeto do Plano Diretor
será encaminhado para
consulta popular em reuniões
temáticas e audiências públicas.
Outra etapa, a ser concluída
em 2009, prevê a aplicação
da lei na prática, em um projeto-piloto de acessibilidade
em
quatro ruas do Centro.
Para o envio de cartas,
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