
Armagedon

motorista
que me levava do aeroporto de Tel Aviv para o
Mar da Galileia, onde me juntaria com um grupo de brasileiros
que visitava Israel a convite do governo, ia identificando
laconicamente os lugares pelos quais passávamos. Era como
se eu fizesse um pequeno tour da Bíblia com um guia reticente:
só o nome do lugar já deveria evocar tanta coisa, que
maiores
explicações eram supérfluas. Já tínhamos
percorrido alguns quilômetros
de estrada numa planície árida quando ele fez um gesto
de apresentação e disse apenas: – Armagedon.

Armagedon! O Vale de Megiddo, onde se travará a batalha
final entre o Bem e o Mal, entre as hostes do Cristo e as hostes
do
AntiCristo, depois da segunda vinda de Jesus, no fim dos tempos
iníquos e o advento do Milênio! E eu sem uma reação
adequada
preparada para a ocasião. Como sou ateu (não-praticante),
não
acreditava no que estava programado para acontecer ali, mas não
pude deixar de me decepcionar com o lugar. Parecia haver espaço
suficiente para as hostes se digladiarem nos dois lados da estrada
asfaltada, mas o cenário não estava à altura
do que seria, afinal, o
maior megaevento da História.
Não sei o que eu esperava ver. Talvez montanhas mais dramáticas
no horizonte e pedras mais significativas no chão. Pelo menos
não havia tendas na beira da estrada vendendo camisetas e
bonés
para as torcidas dos dois lados. Nada parecido com o lugar em que
Jesus foi batizado no Rio Jordão, onde hoje há uma
loja de souvenires
que vende até coroas de espinhos feitas de plástico.
Muita gente acredita em Armagedon, e não apenas
fundamentalistas toscos. Ronald Reagan acreditava. A direita religiosa
americana apoia a direita israelense porque Israel triunfante
será um protagonista importante dos últimos atos: um
dos sinais
da vitória final do Bem em Armagedon será a conversão
em massa
dos israelitas ao cristianismo. Está na Bíblia. E cada
novo capítulo
da eterna crise no Oriente Médio é visto por cristãos
milenaristas
como mais um passo na direção da batalha final da qual
os judeus
também sairão vitoriosos, só que não
mais judeus.
Pode-se imaginar fundamentalistas furiosos sonhando com mísseis
nucleares iranianos cruzando no ar com mísseis nucleares israelenses
num preâmbulo do “gran finale” desejado. Enfim,
o Armagedon.
Enfim, Cristo o único senhor do mundo. Israel precisa ouvir
os seus
sensatos. Precisa, principalmente, saber quem são os seus
amigos.
