Será realizada entre os dias 26 e 29 de agosto a 10ª Jornada
Nacional de Literatura, em Passo Fundo, no campus da UPF. Mas talvez
fosse melhor dizer que a Jornada deste ano já teve seu início
imediatamente após o encerramento da edição
anterior, há dois anos. Quem a realiza ou é da região,
sabe que se trata de um evento permanente, que tem seu ápice
nos quatro dias de celebração sob a lona do Circo
da Cultura, a cada dois anos, geralmente no mês de agosto.
Os preparativos, assim como as Pré-jornadas, atividades
que envolvem toda a comunidade em preparação para
o evento começam cedo. Em 2003 também ocorre a 2ª Jornadinha
Nacional de Literatura, evento integrado à Jornada, porém
com enfoque direcionado aos alunos do Educação Básica.
Para a Jornadinha, não apenas os organizadores tiveram de
aumentar o número de participantes em 2,5 mil para atender
todas as escolas que estavam previamente inscritas, como esgotaram-se
as vagas em pouco mais de três horas após seu início.
Para a jornada as inscrições enceraram em menos de
24 horas depois de abertas.
César Fraga
Jornada terá
participação de
15 mil pessoas

ste ano, muda o formato e a Jornada terá a
abrangência e o status de um verdadeiro
fórum de literatura, pois serão realizadas, a partir dessa edição
, conferências, além das mesas de debates, shows, teatro, oficinas
cursos e seminários, atividades que já ocorriam nas edições
anteriores.
Entre os nomes presentes nas conferências e debates da 10ª Jornada
Nacional de Literatura estão Edgar Morin, John Hemingway, Luiz Peazê,
Frei Betto, Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai, Mônica Waldwogel,
Joel Rufino dos Santos, Luiz Antônio de Assis Brasil, Dráuzio Varella,
Hector Babenco, Jorge Furtado, Luis Augusto Fisher entre outros, além
dos já figurinhas carimbadas nas jornadas anteriores, Inácio de
Loyola Brandão, Deonísio da Silva e Júlio Diniz, coordenando
os debates.
A edição de 2003 terá como tema “Vozes do terceiro
milênio: a arte da inclusão”. O evento conta com o apoio das
Leis de Incentivo à Cultura Federal e Estadual e da Unesco, e receberá o
número recorde de 15 mil participantes.
No dia 26, durante a abertura, será divulgado o resultado do 8º Concurso
Nacional de Contos “Josué Guimarães” (oferecido pelo
IEL) e o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura,
em sua 3ª Edição (maior prêmio de Literatura, em dinheiro
do Brasil, R$ 100 mil).
Para a coordenadora da Jornada de Literatura, Tânia Rösing, a edição
deste ano tem como principal diferencial justamente a ampliação
do público. “Esse fenômeno é resultado do trabalho
de preparação para a Jornada e comprova o desejo das pessoas em
encontrar os autores e aqueles que trabalham a questão da leitura também
em outros suportes, que não necessariamente o livro”, explica. Ela
justifica que a literatura está presente em várias manifestações
culturais, além do livro impresso e utiliza como exemplo os sites de poesia
na internet, o teatro de bonecos e as exposições de arte baseadas
em literatura.
“Nos preparamos também para uma expectativa maior do público, que
por ter, em grande parte, participado de Jornadas anteriores, também estará querendo
mais dessa edição: mais autores, mais peças de teatro, mais
exposições”, diz Tânia. Ela faz questão de destacar
como um aspecto positivo do processo de preparação, o grande envolvimento
das famílias. Ela explica: “o processo envolve as crianças,
adolescentes, pais e demais familiares próximos, lendo e participando
de análises de obras como preparação para a Jornada”.
Essa metodologia vem sendo utilizada desde 1981, quando ocorreu a primeira edição,
a partir de uma idéia do falecido escritor gaúcho Josué Guimarães,
principal idealizador do evento. “A metodologia se consolida a partir do
momento que mais pessoas estão desenvolvendo o hábito da leitura
de forma autônoma. Além do estímulo da escola e dos professores,
existe, com a apropriação da leitura pelas famílias, um
ganho real, que modifica a prórpia cultura da região no que se
refere ao ato de ler. Uma prova disso é que se multiplicam os eventos
a partir deste modelo”, garante a coordenadora.
Literatura nossa de cada dia
A partir da experiência das Pré- Jornadas, os organizadores
propõem que a literatura não pode ser trabalhada
isoladamente. Os leitores passam , neste caso, por um processo
que envolve diferentes áreas do conhecimento. O que justifica
a presença de Edgar Morin, como conferencista na noite do
dia 27, quando explanará sobre as “Propostas para
a educação do terceiro milênio”, defendendo
o abandono da fragmentação da informação
e a necessidade de desenvolver uma cultura voltada para interdisciplinaridade
e transdisciplinaridade. “Temos isso vivenciado na prática.
Estamos dando vida a uma parte do pensamento de Morin”, expôe
Tânia Rösing.
A Pré-Jornada, iniciada em abril passado, conforme seus
coordenadores teve abrangência estendida, além da
região de Passo fundo, a diversas localidades brasileiras.
A estimativa é de que mais de 150 mil pessoas tenham sido
atingidas até seu encerramento em 30 de julho. “Essa
movimentação cultural é feita por grupos interdisciplinares
para análise e interpretação das obras e dos
autores que estarão presentes no evento”, explica
a coordenadora da Pré-Jornada Dalva Machado Bisognin. Segundo
ela, as atividades são realizadas em três momentos.
Na primeira etapa são realizadas junto à comunidade
(famílias, sindicatos, escolas das redes pública
e privada, presídios), onde são difundidas as obras
e o trabalho dos autores. Num segundo momento são formados
grupos que realizam encontros por afinidades. E no terceiro momento
cada leitor escolhe três autores e três obras para
leitura e análise individual. Posteriormente são
realizados seminários para a troca dessas experiências.
Os resultados na comunidade são sentidos na conquista do
hábito da leitura para muitas pessoas que, inclusive, não
necessariamente participantes efetivos da Jornada. Para se ter
uma idéia, os números da Pré-Jornada referentes à edição
passada, o efeito multiplicador das 4,70 mil pessoas envolvidas
diretamente com as atividades, resultaram ao final do processo
num saldo de 150 mil leitores envolvidos. Os números exatos
deste ano serão computados em setembro.
Leitura atrás das grades
Pela primeira vez as atividades da Pré-Jornada foram levadas
ao Presídio Regional de Passo Fundo. Lá, um grupo
de 30 apenados participou de um seminário que discutiu literatura,
no dia 17 de julho. O trabalho iniciou um mês antes, quando
a professora Alba Oliveira Ficanha procurou a equipe da Jornada
de Literatura em busca de obras para os detentos lerem. Alba trabalha
com as disciplinas de Português e Literatura no Núcleo
Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja)
instalado no Presídio. “A leitura é uma forma
de acesso à cidadania e a Jornada de Literatura, neste ano,
com o debate sobre a inclusão, abriu as portas a nós”,
destaca a professora.
Os presos tiveram contato com as obras de autores como Luiz Augusto
Fischer, Zélia Gattai, Luiz Antonio de Assis Brasil, Márcia
Kupstas e Dráuzio Varella. Para a coordenadora das Pré-Jornadas,
professora Dalva Bisognin, a Jornada de Literatura deste ano, até mesmo
em função do seu tema, inclusão, não
poderia deixar de desenvolver atividades sociais voltadas aos detentos. “Todos
podem e devem ser incluídos neste mundo da leitura, porque
todos podem crescer muito através do hábito de ler”,
conclui Bisognin.
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