Os rastros de Hernández
confundidos na memória
Renato Dalto
Há uma antiga casa de esquina, com poucos resquícios
da construção original, envolta numa névoa
que encobre a memória. Nesta casa, situada na esquina das
ruas Rivadávia Corrêa e Uruguai, na cidade fronteiriça
de Sant’Ana do Livramento, o poeta argentino José Hernández
teria escrito, entre 1871 e 1872, os versos do clássico,
Martín Fierro, ícone da literatura latino-americana.
Mas esta casa, declarada tombada como monumento histórico
pelo artigo 208 da Lei Orgânica do Município, em 1989,
pertence ao empresário Luiz Pedro Escosteguy e é hoje
uma loja de calçados, filial da maior rede do ramo no Estado.
Restaram apenas três placas numa parede que não foi
demolida, todas elas em homenagem a Hernández. “Deixei
as placas em respeito a quem as colocou ali”, revela Escosteguy.
Segundo ele, também pouco restava da construção
original quando ordenou a demolição do prédio. “Cem
anos depois, imagine quanta coisa mudou nesta casa”, defende-se.
A casa foi de tudo um pouco. Pensão, tinturaria, cartório,
teve paredes demolidas, madeiras substituídas, novas pinturas.
Além disso, há controvérsias em relação
ao próprio local. Duas versões históricas,
de pesquisadores respeitados, divergem frontalmente. O historiador
Ivo Caggiani, na obra “Sant’Ana do Livramento- 150
anos de história”( 3º volume), afirma que José Hernández
hospedou-se na casa a partir do final de janeiro de 1871, quando
fugiu da Argentina após a derrota da revolução
comandada por Ricardo López Jordán contra a intervenção
de Domingos Faustino Sarmiento. A residência pertenceria
ao espanhol D. Pedro Garcia. “Aqui Hernández encontrou
a paz necessária para escrever seu poema ‘El Gaucho
Martín Fierro”, escreve Caggiani.
Mas outro santanense ilustre, o pesquisador João Carlos
Paixão Côrtes, que nasceu nas proximidades, discorda. “ A
casa onde eu nasci era um local visitado pelo José Hernández.
Ele morava em Rivera, no Uruguai, nas proximidades do Cerro do
Marco, junto à linha divisória. E vinha a esta residência
acompanhado do Major Pirán, que namorava uma das filhas
do dono da casa, da família Labarte”, relata Paixão.
Ele documentou a pesquisa com o depoimento assinado por Belmira
Labarte, uma das moradoras da época.
Essa discussão, assim como a preservação ou
não do prédio onde esteve Hernández, remete
também para a preservação da memória
e o contraponto entre a pesquisa documentada e a tradição
oral. Para Luiz Pedro Escosteguy, por exemplo, preservar não
se restringe à arquitetura. “Preservar é cultuar
a memória, não é simplesmente conservar a
casa onde esteve o autor da obra”, opina. Renato de Mello
Levy, procurador do município, afirma que o tombamento da
casa pela lei orgânica do município “precisaria
ser intrumentalizada através de processos administrativos
para que se materializasse o tombamento”. Aliás, o
mesmo artigo 208 da lei orgânica recomenda o tombamento de
oito prédios. Segundo Levy, nenhum deles entrou em processo
para se efetivar como patrimônio histórico.
Paralelo a isso, a saga de Martín Fierro – o gaúcho
pobre e sem destino – emerge com vida própria na cultura
oral da cidade. Seus versos são recitados nos galpões
de CTGs e algumas marcas lembram a passagem do poeta pela cidade.
Conta-se que ele escrevia à sombra de um guapuruvu centenário,
na Praça General Osório, em frente ao prédio
onde hoje está a prefeitura da cidade. Um busto de José Hernández
adorna a praça, à sombra das árvores. Já aconteceram
iniciativas para fundar centros culturais e associações
com o nome de Hernández ou Martín Fierro. O próprio
governo argentino já mostrou interesse em comprar a casa
da esquina e transformá-la em referência cultural.
E o nome da cidade de Livramento aparece às vezes sublinhado
como “Terra de Martín Fierro”. É a obra
que permanece apesar das confusões da memória.
O autor que universalizou o gaúcho
O poeta argentino José Hernández nasceu num subúrbio
de Buenos Aires, em 10 de novembro de 1834. Foi criado por uma
tia materna, no campo, onde passou a conviver com o mundo dos gaúchos
argentinos. Foi soldado, jornalista, combateu ao lado do General
Urquiza. A virada em sua vida aconteceu em 1870, quando Urquiza
foi assassinado, em Entre Rios. Logo depois, o general López
Jordán assumiu o governo da província, mas foi derrubado
pelas tropas do presidente Sarmiento. Hernández, que apoiara
Jordán, teve que fugir para o exílio. E foi assim
que teria aportado em Livramento, em 1871.
Nesse período, teria escrito a primeira parte de “El
Gaucho Martin Fierro”, publicado em Buenos Aires, posteriormente,
em 1872. O sucesso deste poema épico foi imenso e, até o
final do século passado, já tinha sido traduzido
em vários idiomas. A universalidade do poema está na
inconformidade de um gaúcho andarilho, sem pátria
e sem destino, ligado visceralmente ao pampa e à sua gente,
arraigado a valores como a lealdade e a honestidade. Atualmente,
o livro se encontra em edição bilígüe
pela editora Martins Livreiro.
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