Ano 8 - nº 74
Agosto 2003



Luis Fernando Verissimo:
O diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro de Tony Blair e é considerado o guru da política externa do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo publicado no Guardian que...



Nei Lisboa:
Estou há dois anos sem televisão em casa. Não, isso não é uma declaração de pobreza ou o início de uma diatribe contra os serviços de assistência técnica. Foi uma opção, que começou quase como uma brincadeira, na época da mudança...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras, aquela música amorosa limpa apimentada e mágica, brotando...





Os rastros de Hernández confundidos na memória

Renato Dalto


Há uma antiga casa de esquina, com poucos resquícios da construção original, envolta numa névoa que encobre a memória. Nesta casa, situada na esquina das ruas Rivadávia Corrêa e Uruguai, na cidade fronteiriça de Sant’Ana do Livramento, o poeta argentino José Hernández teria escrito, entre 1871 e 1872, os versos do clássico, Martín Fierro, ícone da literatura latino-americana. Mas esta casa, declarada tombada como monumento histórico pelo artigo 208 da Lei Orgânica do Município, em 1989, pertence ao empresário Luiz Pedro Escosteguy e é hoje uma loja de calçados, filial da maior rede do ramo no Estado. Restaram apenas três placas numa parede que não foi demolida, todas elas em homenagem a Hernández. “Deixei as placas em respeito a quem as colocou ali”, revela Escosteguy. Segundo ele, também pouco restava da construção original quando ordenou a demolição do prédio. “Cem anos depois, imagine quanta coisa mudou nesta casa”, defende-se.

A casa foi de tudo um pouco. Pensão, tinturaria, cartório, teve paredes demolidas, madeiras substituídas, novas pinturas. Além disso, há controvérsias em relação ao próprio local. Duas versões históricas, de pesquisadores respeitados, divergem frontalmente. O historiador Ivo Caggiani, na obra “Sant’Ana do Livramento- 150 anos de história”( 3º volume), afirma que José Hernández hospedou-se na casa a partir do final de janeiro de 1871, quando fugiu da Argentina após a derrota da revolução comandada por Ricardo López Jordán contra a intervenção de Domingos Faustino Sarmiento. A residência pertenceria ao espanhol D. Pedro Garcia. “Aqui Hernández encontrou a paz necessária para escrever seu poema ‘El Gaucho Martín Fierro”, escreve Caggiani.

Mas outro santanense ilustre, o pesquisador João Carlos Paixão Côrtes, que nasceu nas proximidades, discorda. “ A casa onde eu nasci era um local visitado pelo José Hernández. Ele morava em Rivera, no Uruguai, nas proximidades do Cerro do Marco, junto à linha divisória. E vinha a esta residência acompanhado do Major Pirán, que namorava uma das filhas do dono da casa, da família Labarte”, relata Paixão. Ele documentou a pesquisa com o depoimento assinado por Belmira Labarte, uma das moradoras da época.

Essa discussão, assim como a preservação ou não do prédio onde esteve Hernández, remete também para a preservação da memória e o contraponto entre a pesquisa documentada e a tradição oral. Para Luiz Pedro Escosteguy, por exemplo, preservar não se restringe à arquitetura. “Preservar é cultuar a memória, não é simplesmente conservar a casa onde esteve o autor da obra”, opina. Renato de Mello Levy, procurador do município, afirma que o tombamento da casa pela lei orgânica do município “precisaria ser intrumentalizada através de processos administrativos para que se materializasse o tombamento”. Aliás, o mesmo artigo 208 da lei orgânica recomenda o tombamento de oito prédios. Segundo Levy, nenhum deles entrou em processo para se efetivar como patrimônio histórico.

Paralelo a isso, a saga de Martín Fierro – o gaúcho pobre e sem destino – emerge com vida própria na cultura oral da cidade. Seus versos são recitados nos galpões de CTGs e algumas marcas lembram a passagem do poeta pela cidade. Conta-se que ele escrevia à sombra de um guapuruvu centenário, na Praça General Osório, em frente ao prédio onde hoje está a prefeitura da cidade. Um busto de José Hernández adorna a praça, à sombra das árvores. Já aconteceram iniciativas para fundar centros culturais e associações com o nome de Hernández ou Martín Fierro. O próprio governo argentino já mostrou interesse em comprar a casa da esquina e transformá-la em referência cultural. E o nome da cidade de Livramento aparece às vezes sublinhado como “Terra de Martín Fierro”. É a obra que permanece apesar das confusões da memória.

O autor que universalizou o gaúcho

O poeta argentino José Hernández nasceu num subúrbio de Buenos Aires, em 10 de novembro de 1834. Foi criado por uma tia materna, no campo, onde passou a conviver com o mundo dos gaúchos argentinos. Foi soldado, jornalista, combateu ao lado do General Urquiza. A virada em sua vida aconteceu em 1870, quando Urquiza foi assassinado, em Entre Rios. Logo depois, o general López Jordán assumiu o governo da província, mas foi derrubado pelas tropas do presidente Sarmiento. Hernández, que apoiara Jordán, teve que fugir para o exílio. E foi assim que teria aportado em Livramento, em 1871.

Nesse período, teria escrito a primeira parte de “El Gaucho Martin Fierro”, publicado em Buenos Aires, posteriormente, em 1872. O sucesso deste poema épico foi imenso e, até o final do século passado, já tinha sido traduzido em vários idiomas. A universalidade do poema está na inconformidade de um gaúcho andarilho, sem pátria e sem destino, ligado visceralmente ao pampa e à sua gente, arraigado a valores como a lealdade e a honestidade. Atualmente, o livro se encontra em edição bilígüe pela editora Martins Livreiro.


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