Um artigo do
presidente da União
Brasileira de Escritores (UBE), o poeta, sociólogo e psicólogo
Claudio Willer, trouxe à tona uma questão preocupante:
a literatura corre sério risco de vida no currículo
das escolas brasileiras se levarmos em conta os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN). Publicado recentemente na imprensa
do centro do País, Em Defesa da Literatura mostra que nos
PCN, utilizados pelo MEC, no capítulo que trata de Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias, a literatura praticamente deixa
de existir, não apenas como
disciplina, mas como campo autônomo
do conhecimento. O argumento, aponta o
escritor, seria o de “corrigir o modo como a disciplina na
LDBen
nº 5.692/71 vinha dicotomizada em Língua e Literatura
(com ênfase na literatura brasileira)”. O abandono
dessa dicotomia seria justificado por uma complicada abordagem
teórica.
Jéferson Assumção
Literatura maltratada nos currículos escolares
extualmente,
os PCN dizem: “o conceito de texto literário é discutível.
Machado de Assis é literatura, Paulo Coelho
não. Por quê? As explicações não fazem sentido
para o aluno. Outra situação de sala de aula pode ser mencionada.
Solicitamos que alunos separassem de um bloco de textos, que iam desde poemas
de Pessoa e Drummond até contas de telefone e cartas de banco, textos
literários e não-literários, de acordo como são definidos.
Um dos grupos não fez qualquer separação. Questionados,
os alunos responderam: ‘Todos são não-literários,
porque servem apenas para fazer exercícios na escola. ‘E Drummond?’ Responderam: ‘Drummond é literatura,
porque vocês afirmam que é, eu não concordo. Acho ele um
chato. Por que Zé Ramalho não é literatura? Ambos são
poetas, não é verdade?’”.
Observações como essas dariam os argumentos de fundo para fazer
com que a literatura deixasse de existir como um campo autônomo do conhecimento.
Willer rebate: “o texto dos PCN endossa esse tipo de argumentação,
dá razão a ela, com base no relativismo sócio-cultural.
Em uma paródia involuntária, os PCN sugerem que o valor literário
e até mesmo o falar corretamente seriam imposições autoritárias,
modos de dominadores submeterem os excluídos”. O documento do MEC
afirma: “aprende-se a valorizar determinadas manifestações,
porque socialmente elas representam o poder econômico e simbólico
de certos grupos sociais que autorizam sua legitimidade (sic). (...) o desenvolvimento
da competência lingüística do aluno no Ensino Médio,
dentro dessa perspectiva, não está pautado na exclusividade do
domínio técnico de uso da língua legitimada pela norma
padrão(...)”. O sítio do MEC (www.mec.gov.br) informa que
o objetivo dos PCN é “propiciar aos sistemas de ensino, particularmente
aos professores, subsídios à elaboração e/ou reelaboração
do currículo, visando à construção do projeto pedagógico,
em função da cidadania do aluno”, mas, de fato, entre os
10 volumes dos PCN disponíveis gratuitamente na internet existe espaço
para Língua Portuguesa, Matemática, Meio Ambiente, Pluralidade
Cultural, Orientação Sexual, porém não para Literatura.
Por isso, Willer vê os PCN como uma das causas dos péssimos índices
de leitura no País. “Se não me engano, eles são de
96, e de lá para cá temos piorado o desempenho em escrita, leitura,
compreensão e raciocínio. E a carga horária de Literatura
vem sofrendo reduções”, aponta o escritor, para quem as conseqüências
práticas da literatura em sala de aula a partir desses parâmetros
são a instauração ou agravamento da barbárie. “Cito
Ernst Robert Curtius, que, em Literatura Européia e Idade Média
Latina (Editora Hucitec – EDUSP, 1996), diz o seguinte: a literatura faz
parte da ‘educação’. Por quê, e desde quando?
Porque os gregos encontraram num poeta o reflexo ideal do seu passado, de sua
existência, do mundo dos deuses. Não possuíam livros sacros
nem castas sacerdotais. Sua tradição era Homero. Já no século
VI era um clássico. Desde então a literatura é disciplina
escolar, e a continuidade da literatura européia está ligada à escola”,
defende.
Mercado de
trabalho
em jogo
Ainda conforme o escritor, admitindo-se que haja uma “civilização
ocidental”, que foi mudando ao longo do tempo, para melhor e para pior,
e que a literatura seja constitutiva dessa civilização, então
os PCN anunciam seu fim ou, ao menos, a ruptura com ela. “Rompendo desse
modo com o devir da civilização, zerando sua herança, teríamos
algo para pôr em seu lugar?”, pergunta. Willer vê, por trás
da crítica relativista ao valor, à norma culta, à erudição,
de seu aparente pluralismo, um espesso conformismo. “Ao longo do século
XX, houve um deslocamento do prestígio do livro e da literatura, com a
entrada em cena de novos suportes que privilegiaram outros sistemas de signos.
Uma orientação como esta, ao rebaixar a importância da literatura
em instituições de ensino, sanciona semelhante estado de coisas,
em lugar de oferecer alternativas à sociedade midiática”,
expõe.
Como presidente de uma entidade que congrega escritores, acredita que, “felizmente”,
o ensino não é o único determinante do interesse pela literatura. “Curiosidade
e criatividade são naturais no ser humano. Sempre haverá leitores,
e, pelo que vejo em oficinas e palestras, o interesse por literatura continua
vivo. Só que a escola não tem mais nada a ver com isso, ou vai
deixando de ter a ver”. Os PCN seriam, assim, instrumentos para “continuar
ajudando a piorar os índices e o desempenho” de leitores brasileiros.
Eles seriam parte de uma etapa do “baixo populismo e do processo de burocratização
do conhecimento”.
O assunto surgiu depois de uma discussão há cerca de um ano e meio
de Willer com os professores Izabel Faria, do Gabinete de Leitura do Rio
de Janeiro, e Maria Helena Nery Garcez, da USP, que alertaram o escritor. “Examinei
os parâmetros curriculares, disponíveis no site do MEC, e fiquei
perplexo. Publicamos um número do jornal da UBE, O Escritor, dedicado
ao assunto. A repercussão foi boa, no sentido de aparentemente ninguém
discordar. Mas não vejo uma discussão do assunto no âmbito
da categoria dos professores, salvo vozes isoladas, como a de Leyla Perrone-Moisés”,
fala. Segundo ele, aparentemente, professores não se dão conta
de que “o mercado de trabalho deles está em jogo”. E, o que é pior
ainda, alfineta Willer, “ou então, acham, muitos dentre eles, que
literatura é complicado demais, dá trabalho ler, e é melhor
trabalhar só com os ‘contextos de uso’, ou seja, a lírica
fala do povão inspirada no tchan, na Xuxa e no Ratinho, aderir à banalidade,
e deixar por isso mesmo”.
MEC sugere não
utilizar PCN
Consultada pelo Extra Classe, a assessoria de Comunicação do Ministério
da Educação informou que os PCN não estão sendo sugeridos
pelo atual governo, que vê neles alguns problemas. O principal seria o
fato de terem sido feitos por uma empresa externa de consultoria ao MEC. “Estamos
apenas há seis meses aqui e ainda estamos avaliando. O que é bom
vai ficar. Reconhecemos que eles são bons, mas têm um grande problema
que é o fato de terem sido feitos em um gabinete. Interessante é que
só o Sul é que nos pede PCN. É o único lugar. O restante
do Brasil, não”, informa a assessora de comunicação
do MEC, Ana Galluf. Segundo ela, o restante do Brasil se pauta pela Lei de Diretrizes
e Bases da Educação (LDB). “Os PCN ainda continuam para as
escolas que nos pedem, mas eles não serão mais reimpressos. Estamos
mandando apenas pela Internet, mas vai ter alguma coisa no lugar”, afirma.
Sobre o status da literatura na política educacional do atual governo,
o MEC enviou uma nota assinada pela responsável pelo Plano Nacional de
Material Didático, que instrumentaliza o Plano Nacional de Bibliotecas
Escolares. Na nota (leia abaixo), estão relacionados os critérios
do MEC para o que o governo considera uma obra literária.
Mas o que é literatura?
A professora
Zilá Bernd, do
Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
não conhece detalhadamente os critérios do MEC, mas
salienta a dificuldade em determinar a “literariedade” dos
textos. “É ao mesmo tempo muito simples, na medida em
que um leitor mediano tem perfeitas condições de
distinguir uma bula ou uma receita de cozinha de um poema de Quintana
ou de uma crônica de Drummond, e extremamente complexa, pois
vem ocupando teóricos da literatura desde tempos imemoriais”,
lembra. Para ela, muitos fatores complicativos intervêm na
avaliação, variando inclusive através do tempo.
Obras, como a do escritor francês François Rabelais
foram percebidas como populares e não literárias na época
de sua criação no século XVI e dois séculos
mais tarde foram “redescobertas” e incorporadas à instituição
literária francesa como obras primas. “Além disso,
já foi comprovado que uma mera notícia de um acidente
automobilístico, publicada em um jornal, pode ser (re)lida
como peça literária, se colocada em outro contexto
e diagramada como um poema concreto...”, argumenta. Portanto,
ela considera que o debate não deva de modo algum enfatizar
esta dicotomia literário/não-literário, mas
o importante no caso da escola é despertar o gosto pela leitura, “o
prazer do texto de que falava Roland Barthes, o resto se fará naturalmente”.
Zilá acredita que não haja uniformidade no trabalho
com literatura em sala de aula, feito nas escolas brasileiras. O
ensino da literatura varia de escola para escola e até mesmo
de professor para professor. “Existem aqueles que se preocupam
em formar leitores, em despertar o gosto pela leitura, independentemente
do tipo de texto, deixando livre a escolha dos autores. Acho que
mais importante do que dizer que os romances de Machado de
Assis são ‘alta’ literatura e que por isto
o aluno tem que gostar de lê-los, e que os de Paulo Coelho
não o são, é mostrar através da
análise do estilo, todas as inovações propostas
pelo primeiro, e a série de clichês que encontramos
no segundo. O aluno chegará por ele mesmo a uma avaliação
do que é literatura”, expõe.
Nesse sentido, afirma Zilá, o papel dos cursos de Letras das
universidades ganha suma importância, tanto nos níveis
de graduação quanto de pós-graduação. “Na
medida em que o aluno de Letras e futuro professor entra em contato
com elementos técnicos como as teorias do texto e do discurso,
como as figuras de retórica, como a teoria literária
em geral, ele poderá levar seus jovens alunos a conhecer melhor
como se estrutura um romance, um poema ou uma crônica,
o que certamente contribuirá para a formação
de melhores leitores”. O problema, aponta a professora, é que às
vezes os alunos de Letras ficam demasiadamente atrelados a leituras
teórico-críticas e perdem eles próprios o prazer
da leitura dos textos ficcionais e poéticos.
Este tipo de leitura poderia fazer com que a literatura corresse
um risco de sumir do currículo? Zilá diz que este risco
sempre existe e existirá e o mesmo acontece
com disciplinas como o Latim e o Francês, por exemplo, segundo
a especialista, sempre ameaçadas de extinção. “É preciso
estar atento a modismos que levem a políticas de simplificação
dos currículos. Penso, contudo, que o País que não
valorizar seu próprio patrimônio literário, que é onde
se forja a identidade do povo e onde se registram os desvãos
da história, aqueles elementos da história individual
e humana que deixam de ser registrados pela historiografia oficial,
estará praticando um suicídio”, alerta.
Nota
oficial do MEC ao Extra Classe
A
avaliação
das obras recai sobre a qualidade literária e gráfica,
a unidade da coleção e a representatividade dos
autores, pois o que se pretende é que os alunos tenham
em seu poder um recorte realmente significativo da produção
literária brasileira e estrangeira. Mais detalhadamente,
no ano de 2002, foram os seguintes os pontos avaliados:
- Textualidade: consideram-se os aspectos relativos aos recursos
estéticos e literários utilizados pelo autor, o equilíbrio
da obra, o desenvolvimento do enredo e a seleção
e articulação dos textos;
- Pertinência temática: a propriedade do tema e do
tratamento temático em função do público-alvo;
considera-se, em particular, o quanto a obra contribui para a ampliação
de referências culturais e literárias desse público,
assim como para sua formação ética;
- Autoria: o quanto os autores são reconhecidos como símbolos
da cultura brasileira – torna-se um fator relevante em função
da finalidade e do caráter da coleção. Neste
sentido, considera-se a avaliação da crítica
e a importância histórica;
- Projeto gráfico: avalia-se os aspectos físicos
da obra como ilustração, relação
entre texto e imagem, distribuição espacial, capa,
tamanho da mancha, recursos gráficos.
Neste item observa-se, também, as soluções
encontradas para as limitações técnicas; Projeto
editorial: diz respeito ao conjunto. Considera-se a concepção
e execução da coleção, em função
de suas finalidades e o público-alvo. Isto inclui a presença
de um eixo organizador, articulação entre os volumes,
apresentação dos livros e da coleção,
oferecimento de informações adicionais (bibliografia,
glossário, notas, informações históricas);
a coleção é um conjunto de obras de literatura
e como tal deve ser constituída; as seleções
autoral e textual devem ser motivadas. A organização
em coleções tem por objetivo dispor de dispor aos
leitores um conjunto de obras completo, com uma lógica organizacional
capaz de contribuir para o aprimoramento de conceitos éticos
e estéticos e promover o desencadeamento de novos interesses
e de novas referências culturais.
Nabiha Gebrim, Coordenação Geral de Avaliação
de Materiais Didáticos e Pedagógicos/COMDIPE.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do Sindicato
dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul - SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90.040-000 - Bairro Farroupilha
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