A identidade do mar

Era
um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo
televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras,
aquela música amorosa limpa apimentada e mágica,
brotando daqueles lábios carnudos daquela boca coração
dele, aquele balanço sensual de seu corpo abraçado
ao violão, como se esse fosse dele uma extensão.
Ai, aquele luxo de simplicidade me comovia sem que eu percebesse...
Era um poeta lindo! Um homem romântico e simples, sofisticado
de tanta natureza e gostoso aos oitenta anos.Queria casar com ele!
Às vezes, eu baixava os olhos ao prato pra não errar a mira
da escolha do garfo a distinção do grão, a
dose do alimento. Até que num desses momentos, voltando
os olhos à tela, dei de cara com os olhos de Caymi!
Um close fechado dando detalhes estupendos da sua mirada e ao mesmo
tempo uma panorâmica forte daquele olhar.
Ai meu deus, o que eram, o que são e o quanto sãos
são os olhos de Caymi?!
Aquela gigantesca meiguice de olhar era quase uma covardia comigo!
Era uma beleza flagrante demais para um coração como
o meu, que sofre de fraquezas irremediáveis por essa belezas!
Resultados: explodi num choro pluvial! Aquele olhar me fez chorar.
Chorava, chorava, chorava lágrimas prato sofá e sentia
o porquê, mas esse porquê como me cabe explicar?
Meu deus, não era só um olhar era a poesia!
Não, não era só a poesia, era ela de frente
com sua fronte real!
E não era só a frente e a fronte era a fonte dela.
Mas ainda assim não era. Não. Aquele olhos não
eram só a fonte dela.
Aquilo era o fundamento e a fundação do azul!
Não...,ainda isso não era....aquele olhos e aquele
olhar eram mais aquela praia nítida que se via neles era
o mar. Mas acontece que o mar, na realidade, era outro: o mar era,
na verdade, um mero reflexo, um retrato convexo, fiel e sublime’ dos
morenos olhos de Dorival Caymi.
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Inverno, 26 de junho de 2003 – ES,
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