Ano 8 - nº 74
Agosto 2003



Luis Fernando Verissimo:
O diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro de Tony Blair e é considerado o guru da política externa do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo publicado no Guardian que...



Nei Lisboa:
Estou há dois anos sem televisão em casa. Não, isso não é uma declaração de pobreza ou o início de uma diatribe contra os serviços de assistência técnica. Foi uma opção, que começou quase como uma brincadeira, na época da mudança...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras, aquela música amorosa limpa apimentada e mágica, brotando...





Por uma CUT mais ousada

Ousadia. Essa foi a palavra utilizada pelo novo presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores, Luiz Marinho, para definir uma das suas propostas para os próximos três anos de liderança na CUT. Contundente em suas declarações, Marinho afirmou nesta entrevista, concedida em dois atos (por escrito e por telefone) ao jornal Extra Classe, que, apesar das “contradições internas” do governo Lula, a relação com a central tem sido tranqüila, transparente e responsável. O presidente da CUT disse que o papel da entidade é “puxar” o governo para uma “visão social” e ao mesmo tempo pressioná-lo, quando achar que ele está atuando de forma errônea no que se refere aos interesses dos trabalhadores. Leia-se aí Reforma da Previdência. Neste ponto, a CUT sob a liderança de Marinho tem sido incisiva, principalmente porque a “reforma da reforma”, cujo relatório foi apresentado em meados de julho, não contemplou as reivindicações defendidas pela central sindical. No momento em que fechávamos esta edição, a CUT, abandonando o tom conciliador adotado até então, ameaçava organizar nova greve para pressionar o governo. Nesta entrevista, Marinho defende ainda a urgência da reforma sindical, antes mesmo da reforma trabalhista, o fim da unicidade e do imposto sindical e a valorização dos servidores federais. Luiz Marinho tem 43 anos e foi eleito em julho deste ano com mais de 74% dos votos. De 1996 a 2003 foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Trabalhou nas campanhas contra as demissões em massa no setor automotivo em 98, como os 10 mil cortes anunciados pela Volkswagen e os 2.800 da Ford. Foi responsável pela articulação de acordos setoriais, como o chamado acordo emergencial do setor automotivo, de 1999, e de projetos como o da renovação da frota nacional de veículos. O presidente nacional da CUT recebeu o prêmio destaque do ano de 1999, concedido pela revista Livre Mercado e foi apontado pela CNN-Time como uma das 50 lideranças latino-americanas para o novo milênio. Em março deste ano, foi nomeado Presidente do Consea Nacional.

Ana Esteves*


Extra Classe – Quais as suas principais propostas para os próximos três anos à frente da CUT?
Luiz Marinho
– Num primeiro momento, a CUT precisa aperfeiçoar sua maneira de se comunicar, especialmente com seus filiados, seus sindicatos, suas federações. Buscar orientar o trabalho de suas entidades no que se refere às várias demandas que surgem diariamente na política, no mundo jurídico e assim sucessivamente. A entidade também precisa buscar um aperfeiçoamento na sua maneira de comunicação com o conjunto da sociedade brasileira para disputar espaço e mostrar sua importância. A juventude, por exemplo, não acompanhou a luta do passado, então, se você não estiver sempre marcando presença , vai perdendo o referencial.
A CUT precisa estar mais ousada no papel da negociação, criando vários instrumentos que a aperfeiçoem nesse sentido, nas discussões com o mundo político, com municípios, estados, União e também com o setor privado.

EC – E no que se refere ao processo de reestruturação da legislação sindical?
Marinho
– A entidade tem um papel determinante neste processo, pois essa organização sindical de hoje é um inibidor da ação das centrais sindicais, assim como um inibidor do processo de negociação. Então, devemos exercer um papel de liderança no sentido de construir um entendimento para reformulação sindical e para criar as devidas condições de praticidade da negociação. Precisaremos organizar sindicatos para ter um instrumento que crie condições para essas negociações; acho que entre as principais metas da minha gestão, essa é uma das mais importantes.

EC – Como está a relação da CUT com o governo Lula?
Marinho
– Essa relação se dá com as contradições inerentes de um governo do aspecto ideológico do governo Lula, das contradições internas que tem e dos partidos que compõem a sua base. Mas, mesmo assim, se dá de forma transparente, tranqüila e com responsabilidade. A CUT tem que ter clareza de que o papel dela é de inclusive disputar espaço com o governo em determinadas questões para com isso “puxá-lo” para uma visão mais social, até como forma de ajudá-lo. Temos que trabalhar para que o governo dê certo, porque, se não der, certamente o outro governo que suceder não será de esquerda e a nossa geração pode ter perdido a sua grande oportunidade. Nesse sentido, temos que ser muito tranqüilos para interferir junto ao governo na base da pressão, quando ele atuar de forma errônea no que diz respeito aos interesses dos trabalhadores.

EC – A CUT defende uma reforma trabalhista que amplie direitos. Como isso é possível dentro de um contexto que aponta cada vez mais para a flexibilização dos direitos trabalhistas? Como é a reforma que a CUT quer, afinal?
Marinho
– A CUT defende sim uma reforma trabalhista que amplie direitos e para que isto seja possível quer colocar na frente da reforma trabalhista justamente a reforma da estrutura sindical. Não são reformas independentes entre si, naturalmente. Mas, para que os trabalhadores possam admitir discutir qualquer tipo de flexibilização de direitos, como querem os empresários, é preciso antes fazer a reforma sindical. Uma reforma que signifique o fortalecimento da organização sindical, das estruturas sindicais no local de trabalho. Sem ela, com sindicatos enfraquecidos e pulverizados qualquer mudança na legislação trabalhista que deixe os trabalhadores sem proteção da norma legal acarretará, certamente, perda de direitos. Para evitar este tipo de dano aos trabalhadores, nós colocamos a necessidade de fazer a reforma sindical antes da reforma trabalhista.

EC – O 8º Concut definiu políticas para maior participação das mulheres no meio sindical, predominantemente comandado por homens. Como se dará essa maior inserção?
Marinho
– O problema do desequilíbrio da presença da mulher nas instâncias de poder não é privilégio da Central. A sociedade brasileira precisa vencer os preconceitos que pesam sobre a mulher e que nascem de uma estrutura de produção marcada pela exploração do trabalho humano e pelo jogo de superexploração mantido pela sociedade capitalista em relação ao seu exército industrial de reserva. O 8º Congresso decidiu pela institucionalização de uma secretaria nacional de mulheres dentro da CUT. Será mais um passo na direção de fortalecer a presença feminina nas instâncias da Central, bandeira que vem sendo sustentada internamente desde nossa fundação, há 20 anos.

EC – Que tipo de contribuição a CUT pode oferecer para a consolidação do conceito de Controle Social de Políticas Públicas?
Marinho
– A questão do Controle Social das Políticas Públicas responde ao dilema entre o conceito do estatal e do privado. Nem sempre o estado é melhor que a sociedade para dar respostas às questões sociais, conforme leitura errada feita pela esquerda no passado. Mas a sociedade civil não pode prescindir do estado para enfrentar as distorções produzidas nos modelos de desenvolvimento pautados pelo interesse privado, como é o caso da sociedade capitalista. Defendemos um modelo de estado voltado para o bem-estar social, é sempre melhor garantir o controle social das políticas públicas através da construção de instrumentos de representação do governo, empresários e trabalhadores. Para isso, a CUT está sempre pronta e está sempre exigindo a formação de comissões tripartites para discutir e gerenciar as políticas públicas.

EC – Qual a posição da CUT quanto à unicidade sindical e à contribuição obrigatória? Quais motivos levam a Central a essa posição? O fim da unicidade e da contribuição não poderia pulverizar o setor e criar sindicatos de fachada?
Marinho
– A CUT nasceu defendendo a bandeira da liberdade e autonomia sindical. O que significa na prática acabar com a unicidade e com as contribuições obrigatórias. O trabalhador tem de ter o direito de optar por este ou aquele sindicato e contribuir apenas para a entidade que quiser. Sem quebrar o princípio da unicidade e do imposto sindical, não haverá liberdade e autonomia. Quem tem de decidir se deve ou não haver apenas um ou dois sindicatos em cada base profissional ou territorial são os trabalhadores. Quem deve decidir se o sindicato deve representar apenas uma categoria profissional ou todas as categorias da indústria, por exemplo, são os trabalhadores do local ou da região. Isto é liberdade e autonomia: direitos que os trabalhadores deveriam ter respeitados na reforma sindical que esperamos seja feita de uma vez por todas. Aliás, é esta a nossa oportunidade histórica de conquistar a liberdade e autonomia. Uma conquista que depende hoje, em face da proposta do Fórum Nacional do Trabalho, mais das centrais sindicais que do governo ou do parlamento. Quanto à questão da pulverização, pelo contrário, a médio e longo prazo a liberdade dos trabalhadores contribuírem e/ou optarem por este ou aquele sindicato fará com que os sindicatos fracos política e financeiramente cedam lugar a sindicatos fortes, certamente em número menor que os existentes hoje. O Brasil, hoje, todos nós sabemos, é campeão mundial em número de sindicatos e centrais.

EC - A redução da Jornada de Trabalho é uma bandeira da CUT. Como essa questão será negociada na hora de discutir a reforma trabalhista?
Marinho
– A redução da jornada é uma bandeira histórica dos trabalhadores. Ela estará presente não apenas na hora de discutir a reforma trabalhista, mas em cada luta que sustentarmos, seja em suas categorias isoladamente seja em campanhas conjuntas nacionais ou setoriais. A redução da jornada contribui tanto para dar resposta ao desemprego, como também para a afirmação da cidadania do trabalhador.

EC - Qual a posição da CUT em relação à Reforma da Previdência? Quais os principais pontos de divergência?
Marinho
– A CUT defende um sistema previdenciário justo, que ponha fim a regimes especiais (tais como insistem representações do judiciário) e às distorções produzidas ao longo dos anos, responsáveis pela convivência de uma grande massa de segurados miseráveis ao lado de uma pequena minoria de privilegiados. Também defende a aposentadoria por tempo de serviço, garantindo condições especiais para aqueles que sofrem desgaste físico e mental no exercício da função. O sistema deve ter caráter contributivo, com gestão quadripartite (governo, trabalhadores da ativa, aposentados e empresários). Porém, discordamos veementemente da taxação dos inativos, do teto de apenas 10 salários mínimos (propomos 20, que contemplaria cerca de 95% dos assalariados). Em relação à idade mínima e ao “fator previdenciário”, propomos regras de transição e mecanismos de proteção conforme resoluções aprovadas pelo Congresso da CUT.

EC – Em junho, o governo federal instalou a Mesa Nacional de Negociação Permanente com os servidores Públicos e a CUT indicou a reforma da previdência como uma das prioridades para discussão. Como está o processo de negociação?
Marinho
– A Mesa Nacional de Negociação Permanente não está tratando do assunto previdência. A pauta é bastante ampla e de interesse dos servidores. Este tipo de negociação é estratégica para mudar a relação entre o poder público e o servidor. O servidor precisa ser valorizado e não pode continuar sendo tratado como a razão dos males do País, um cultura que foi introduzida e alimentada durante os últimos governos. Há privilégios que precisam ser combatidos, mas a grande maioria dos servidores públicos prestam servidos abnegados ao País e precisam ser valorizados. Nós esperamos que esta Mesa de negociação permanente realmente funcione e traga resultados.

EC – Pode acontecer de a CUT ter de cortar a “própria carne” para viabilizar suas propostas de reforma trabalhista e sindical? Como fazer para compatibilizar os interesses de centenas de sindicatos que formam a base da CUT e que certamente também serão atingidos pelas mudanças?
Marinho
– O que significa “cortar na própria carne”? Significa, por exemplo, diminuir o número de sindicatos, em favor de sindicatos mais fortes e atuantes? Se for neste sentido, a CUT defende a necessidade de “cortar na própria carne”. Se for para conquistar liberdade e autonomia sindical, não há nenhum problema em mudar a forma de financiamento dos sindicatos. Aliás, muitos dos nossos sindicatos, hoje, já não vivem mais do imposto sindical.

EC – O senhor propôs ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a negociação de um grande acordo para a redução da taxa de juros cobrada pelos bancos. Como seria possível viabilizar essa redução?
Marinho
– A idéia é construir um acordo entre sindicatos, bancos e empresas para permitir que empréstimos pessoais sejam pagos através da folha de pagamento das empresas. O sentido da nossa proposta é permitir que os trabalhadores possam transferir estas vantagens para seu próprio benefício, ou seja, que em vez de pagarem juros estratosféricos no crédito pessoal ou no cheque especial, que não custa menos que 10% ao mês, possam negociar com bancos crédito pessoal com desconto em folha com juros menores. Isto significa, no mercado, juros menores que 3% ao mês.



*Colaborou César Fraga






José Luis Fiori

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