Ano 8 - nº 74
Agosto 2003



Luis Fernando Verissimo:
O diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro de Tony Blair e é considerado o guru da política externa do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo publicado no Guardian que...



Nei Lisboa:
Estou há dois anos sem televisão em casa. Não, isso não é uma declaração de pobreza ou o início de uma diatribe contra os serviços de assistência técnica. Foi uma opção, que começou quase como uma brincadeira, na época da mudança...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras, aquela música amorosa limpa apimentada e mágica, brotando...





O Rio Grande na tela

Os valores e a sensibilidade no mundo atual são cada vez mais determinados pela produção audiovisual, cujo papel tem sido crescente na comunicação e transmissão de conhecimento. Para um grupo social, a inserção da própria imagem neste contexto traz benefícios econômicos e um inestimável ganho simbólico. E é exatamente no mundo globalizado, saturado de imagens, que as regionalidades têm ocupado um lugar relevante, dentro da esfera do consumo em que a demanda por novidades é uma exigência de mercado. Um pouco por acaso, como no crescente interesse da TV Globo pelo estado, ou de forma articulada na estruturação do mercado de cinema, o Rio Grande do Sul tem aproveitado as oportunidades para contar a própria história através de imagens. Por outro lado, esse súbito interesse por realizar produções por estes pagos está intrinsecamente ligado a fatores econômicos.

Fatimarlei Lunardeli*

m setembro, a TV Globo estréia a novela Chocolate com Pimenta, filmada na serra gaúcha, em um cenário recém-descoberto pela emissora. Isto é, que ela foi “induzida a descobrir”, mediante um convite irrecusável do governo do estado. A minissérie A Casa das Sete Mulheres estava em fase final de produção quando o recém-empossado Secretário de Turismo, Luis Augusto Lara, vislumbrou uma saída para o problema da divulgação turística do Rio Grande do Sul. Foi até a Globo e a convidou para que retornasse ao estado para novas gravações, comprometendo-se em oferecer toda a infra-estrutura necessária, sem qualquer custo para a emissora. Naquele momento iniciou para a secretaria um trabalho de articulação de vários setores da sociedade, comandado pelo secretário.

Desde então, a Globo e outras emissoras de televisão têm dirigido suas atenções para o estado, vindo para cá em busca dos benefícios da estrutura oferecida pela iniciativa privada, convidada a integrar este “grande mutirão pela divulgação da imagem do nosso Estado”, como qualifica Lara, garantindo que não está sendo aplicado nenhum dinheiro público. As gravações têm sido realizadas nas áreas com turismo estruturado, envolvendo entidades representativas do setor privado que se mobilizam para oferecer transporte, hospedagem e alimentação para as equipes de televisão.

Sem desmerecer nossos atrativos turísticos, que são muitos, a súbita atenção da TV Globo para o Rio Grande do Sul deve ser inevitavelmente relacionada à crise econômica do grupo Globo. Embora a TV se mantenha com índices saudáveis de faturamento, não conseguiu ficar isenta dos cortes gerais aplicados em toda a empresa. Assim, tem sido difícil gravar novelas no exterior, cuja última experiência foi na novela O Clone (2002), com cenários no Marrocos. Dentro das opções nacionais, nosso estado apresenta uma novidade temática e de cenário que substitui as locações nordestinas exploradas à exaustão. Nem mesmo o Rio de Janeiro, reduto tradicional da dramaturgia da Globo, tem suportado novas ficções televisivas diante dos índices reais de violência. “Além disso, já não representamos uma ameaça no imaginário nacional”, arrisca o professor de televisão da UFRGS, jornalista Geraldo Canalli, referindo-se ao poder econômico e político do estado em épocas passadas. “Isso está neutralizado. Hoje o Rio Grande do Sul é uma coisa bucólica e isso não atemoriza o resto do País”.

Por conta da nova disposição, a visibilidade do Estado alcança índices inéditos. Na contrapartida negociada, o Governo tem obtido das emissoras programas especiais sobre nossa cultura, costumes, gastronomia e atrações turísticas. Cinco edições da popular Ana Maria Braga, por exemplo, vão incluir o churrasco e os doces de Pelotas. Outras emissoras como a MTV se abrem para competições esportivas e a Rede Vida passa a abordar o turismo religioso numa série de nove documentários produzidos em parceria com as comunidades onde ocorrem.

Na matemática econômica, o tempo de exposição contabilizado em números de inserção publicitária ultrapassam, só no caso da Globo, R$ 55 milhões até o final do ano. “É muito caro estar em rede nacional, praticamente inviável, e esta maneira que nós achamos está dando certo”, declara o secretário Lara. A divulgação massiva, entretanto, não garante a reversão direta e imediata para o turismo, alerta o economista, Doutor em Economia do Turismo, e professor da PUC, Leandro Lemos. “Os benefícios são de outra ordem: o que a televisão pode trazer é uma inserção da nossa cultura na cultura brasileira, de um modo diferente de como historicamente o Rio Grande do Sul é visto. Sempre fomos marginais à produção simbólica principal da identidade brasileira, e a vantagem da divulgação atual é a inserção positiva nos conteúdos editoriais dos programas.”

A visão do cinema


Não apenas na televisão, mas também no cinema se vive um momento de quebra de tabus. O Homem que Copiava, filme de Jorge Furtado, bateu o recorde de 400 mil espectadores nas cinco primeiras semanas de exibição nas principais capitais do país, rompendo a linha da resistência cultural ao cinema feito no Rio Grande do Sul. É claro, trata-se de obra urbana, de um diretor famoso por seu trabalho na televisão, mas o sucesso deve ser compreendido também a partir de outros fatores. Diz respeito a um aprendizado.

Desde 1981, com o emblemático Deu Pra Ti Anos 70, longa-metragem na bitola amadora do Super-8, uma geração de realizadores vem construindo com disciplina e persistência o campo profissional cinematográfico no Estado. Antes disso, quem queria fazer filmes ia para o Rio de Janeiro ou São Paulo. “Por estar longe do eixo, o Rio Grande do Sul tem uma economia mais modesta, mesmo assim é saudável”, avalia o produtor e distribuidor de cinema Beto Rodrigues. Segundo ele, com apoio do poder público e da iniciativa privada, o cinema está se consolidando no Sul.

O Homem que Copiava foi um dos três vencedores na segunda edição do Prêmio RGE – Governo do Estado, em 2001, que destina R$ 1 milhão e 300 mil para projetos de longa-metragem. No caso deste filme produzido pela Casa de Cinema, o custo final chegou a R$ 3 milhões. Além de movimentar a economia e gerar empregos, a realização de filmes com este porte sinaliza a maturidade da produção audiovisual gaúcha, com benefícios culturais que ultrapassam as cifras matemáticas.

Nos filmes urbanos, especialmente da Casa de Cinema, Porto Alegre é o cenário privilegiado de enredos envolventes com elementos de drama, romance e suspense. Tolerância, de 2000, e Houve uma Vez Dois Verões, de 2002, apresentam a visualidade regional que busca espaço no mundo globalizado, onde os lugares mais distantes do planeta tornam-se próximos pelas imagens que deles são oferecidas. Em termos estratégicos, ser o produtor da própria imagem é fundamental para estabelecer a identidade cultural.

A diferença entre exibir para o círculo de conhecidos e familiares ou atravessar os mares para encontrar novas platéias está diretamente vinculado à associação com um distribuidor. “Se a gente quiser ter um filme que faça mais de 50 mil espectadores e seja lançado com mais de 40 cópias, que cubra uma parcela do país, tem que ter distribuidor”, afirma Nora Goulart, produtora executiva de O Homem que Copiava. E não se trata de qualquer distribuidor, o bom é que seja uma majors, que significa maior ou principal, em inglês. Assim são chamadas as empresas americanas cujos escritórios no Brasil, através do artigo terceiro da Lei do Audiovisual, revertem impostos federais para a produção e distribuição de filmes. Como o lançamento em larga escala pode chegar a R$ 1 milhão, as propostas devem se inserir na lógica da indústria audiovisual.

Uma majors entra no processo antes da filmagem. O roteiro (que é o filme escrito) é enviado para Los Angeles, dando início às negociações para o ajuste aos padrões de mercado, tanto econômicos, como narrativos. “Esta relação é uma novidade para nós, mas isso faz parte da indústria do cinema e isso não é só aqui”, afirma Nora ao falar sobre a parceria da Casa de Cinema com a Columbia Pictures, a empresa americana que mais investe no cinema nacional. É dela a distribuição de Carandiru, que já ultrapassou 4 milhões de espectadores, convertendo-se no maior sucesso brasileiro dos últimos tempos.

Para que um produto audiovisual seja diferenciado e, ao mesmo tempo, agrade ao grande público, se faz necessário um equilíbrio bem dosado entre demandas padronizadas e peculiaridades regionais. Um elenco com atores conhecidos para atrair o público é uma exigência das majors, que em O Homem que Copiava foi contemplada nas participações de Luana Piovani e Pedro Cardoso. No caso, foram eles que se adaptaram à nossa maneira de tratamento na segunda pessoa do singular, considerada uma “excentricidade” gaúcha que soa estranha aos ouvidos do resto do Brasil.

Dividendos históricos

O orgulho dos gaúchos em relação à sua cultura apareceu em uma pesquisa qualitativa feita pela RBS TV ao implantar o projeto Histórias Curtas. A preferência do público apontou o “documentário histórico” como temática para curtas-metragens exibidos aos sábados, no horário das 12h20min. A jornalista Alice Urbim, gerente de produção da RBS TV, considera surpreendente o resultado e conclui: “Nós damos muito valor ao mostrar a nossa história na TV.” Os números confirmam. Dos 9 pontos indicados pelo Ibope na fase inicial, em 2000, o horário hoje está consolidado com 25 pontos de audiência.

A descoberta deste nicho mercadológico surgiu por acaso, quando a Rede Globo, da qual a RBS é afiliada, liberou um espaço na grade de programação. Com apenas duas semanas para preencher a lacuna, a equipe, da qual Alice faz parte, decidiu colocar curtas gaúchos, que, apesar de famosos e premiados, eram pouco vistos. O sucesso extraordinário alavancou o projeto de novas produções, que estão movimento o setor audiovisual local.

O Prêmio Histórias Curtas já está na terceira edição, oferecendo aos selecionados R$ 25 mil, além de equipamentos de captação e finalização. Os profissionais inscrevem-se através de uma empresa produtora e a média tem sido de 60 concorrentes por edição, dos quais oito são selecionados. Além disso, a própria RBS produz, caso da série A Ferro e Fogo, com consultoria do historiador Mário Maestri sobre episódios da história do Rio Grande do Sul. Gravada em 20 cidades gaúchas e envolvendo 450 profissionais, está sendo lançada em vídeo e DVD, buscando novos espectadores.

Os números confirmam nossa capacidade de produção audiovisual, que em televisão já é feita integralmente no Estado. No caso do cinema, a finalização de imagem e som ainda depende dos laboratórios instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo. De resto temos tudo: “Técnicos qualificados, elenco com talentos que integram o casting nacional, paisagem humana e física diversificada, incluindo deserto, montanhas, cidades e histórias”, afirma Beto Rodrigues, que está produzindo o filme histórico Um Quarto de Légua em Quadro.

O enredo é baseado no primeiro romance do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, sobre a saga dos imigrantes açorianos que colonizaram o Rio Grande do Sul a partir de 1750. Ganhador do Prêmio RGE – Governo do Estado, será realizado em co-produção com Portugal e Argentina, onde Rodrigues buscou parcerias. Com o raciocínio de que “cinema é um negócio muito caro e obriga a uma certa responsabilidade de construir meios de retorno financeiro, inclusive para continuar fazendo novos filmes”, defende a co-produção como abertura para mercados estrangeiros. No caso de Portugal, a co-produtora Costa do Castelo Filmes é também uma grande distribuidora de vídeo, na qual os filmes fazem uma nova carreira depois do circuito das salas.

Apesar dos riscos comerciais do tema histórico serem maiores em relação às temáticas urbanas e contemporâneas, Rodrigues confia no potencial do projeto que divide com o diretor Paulo Nascimento: “Estamos construindo uma história que seja suficientemente universal para interessar a todo tipo de espectador e moderna na linguagem para bater nos códigos narrativos que as pessoas têm hoje internalizados”. A equação envolve a fidelidade à época com licença poética para dialogar com todas as platéias.

A economia e o imaginário

A circulação dos produtos audiovisuais está ligada a fatores econômicos, com predomínio daqueles centros onde há maior concentração de dinheiro. Se Hollywood domina o imaginário do mundo inteiro, não é porque suas histórias são melhores, mas porque estão associadas ao poder econômico para impô-las sobre as demais. Valendo-se de brechas no sistema, utilizando a estrutura instalada, com trabalho e determinação, os gaúchos estão descobrindo meios de contar a própria história. Temos potencial, “somos enredistas”, enfatiza o professor Canalli, citando as guerras e lutas de fronteira do passado.

Desde Anahy de las Misiones, que em 1997 inaugurou a boa fase de longas-metragens tendo como tema a Guerra dos Farrapos, a conquista dos espaços audiovisuais passa pela afirmação de nossa identidade regional. Alguns equívocos exaltatórios sobre figuras e episódios do passado passam a conviver com o questionamento destes mesmos acontecimentos. A discussão decorrente possui o valor inestimável de gerar conhecimento e novas formas de significação da identidade cultural.


* Jornalista e Doutora em Cinema pela USP









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