O Rio Grande
na tela
Os valores e a sensibilidade no mundo atual são cada
vez mais determinados pela produção audiovisual,
cujo papel tem sido crescente na comunicação e transmissão
de conhecimento. Para um grupo social, a inserção
da própria imagem neste contexto traz benefícios
econômicos e um inestimável ganho simbólico.
E é exatamente no mundo globalizado, saturado de imagens,
que as regionalidades têm ocupado um lugar relevante, dentro
da esfera do consumo em que a demanda por novidades é uma
exigência de mercado. Um pouco por acaso, como no crescente
interesse da TV Globo pelo estado, ou de forma articulada na estruturação
do mercado de cinema, o Rio Grande do Sul tem aproveitado as oportunidades
para contar a própria história através de
imagens. Por outro lado, esse súbito interesse por realizar
produções por estes pagos está intrinsecamente
ligado a fatores econômicos.
Fatimarlei Lunardeli*

m setembro, a TV Globo estréia a novela Chocolate com Pimenta,
filmada na serra gaúcha, em um cenário recém-descoberto
pela emissora. Isto é, que ela foi “induzida a descobrir”,
mediante um convite irrecusável do governo do estado. A minissérie
A Casa das Sete Mulheres estava em fase final de produção quando
o recém-empossado Secretário de Turismo, Luis Augusto Lara, vislumbrou
uma saída para o problema da divulgação turística
do Rio Grande do Sul. Foi até a Globo e a convidou para que retornasse
ao estado para novas gravações, comprometendo-se em oferecer toda
a infra-estrutura necessária, sem qualquer custo para a emissora. Naquele
momento iniciou para a secretaria um trabalho de articulação de
vários setores da sociedade, comandado pelo secretário.
Desde então, a Globo e outras emissoras de televisão têm
dirigido suas atenções para o estado, vindo para cá em busca
dos benefícios da estrutura oferecida pela iniciativa privada, convidada
a integrar este “grande mutirão pela divulgação da
imagem do nosso Estado”, como qualifica Lara, garantindo que não
está sendo aplicado nenhum dinheiro público. As gravações
têm sido realizadas nas áreas com turismo estruturado, envolvendo
entidades representativas do setor privado que se mobilizam para oferecer transporte,
hospedagem e alimentação para as equipes de televisão.
Sem desmerecer nossos atrativos turísticos, que são muitos, a súbita
atenção da TV Globo para o Rio Grande do Sul deve ser inevitavelmente
relacionada à crise econômica do grupo Globo. Embora a TV se mantenha
com índices saudáveis de faturamento, não conseguiu ficar
isenta dos cortes gerais aplicados em toda a empresa. Assim, tem sido difícil
gravar novelas no exterior, cuja última experiência foi na novela
O Clone (2002), com cenários no Marrocos. Dentro das opções
nacionais, nosso estado apresenta uma novidade temática e de cenário
que substitui as locações nordestinas exploradas à exaustão.
Nem mesmo o Rio de Janeiro, reduto tradicional da dramaturgia da Globo, tem suportado
novas ficções televisivas diante dos índices reais de violência. “Além
disso, já não representamos uma ameaça no imaginário
nacional”, arrisca o professor de televisão da UFRGS, jornalista
Geraldo Canalli, referindo-se ao poder econômico e político do estado
em épocas passadas. “Isso está neutralizado. Hoje o Rio Grande
do Sul é uma coisa bucólica e isso não atemoriza o resto
do País”.
Por conta da nova disposição, a visibilidade do Estado alcança índices
inéditos. Na contrapartida negociada, o Governo tem obtido das emissoras
programas especiais sobre nossa cultura, costumes, gastronomia e atrações
turísticas. Cinco edições da popular Ana Maria Braga, por
exemplo, vão incluir o churrasco e os doces de Pelotas. Outras emissoras
como a MTV se abrem para competições esportivas e a Rede Vida passa
a abordar o turismo religioso numa série de nove documentários
produzidos em parceria com as comunidades onde ocorrem.
Na matemática econômica, o tempo de exposição contabilizado
em números de inserção publicitária ultrapassam,
só no caso da Globo, R$ 55 milhões até o final do ano. “É muito
caro estar em rede nacional, praticamente inviável, e esta maneira que
nós achamos está dando certo”, declara o secretário
Lara. A divulgação massiva, entretanto, não garante a reversão
direta e imediata para o turismo, alerta o economista, Doutor em Economia do
Turismo, e professor da PUC, Leandro Lemos. “Os benefícios são
de outra ordem: o que a televisão pode trazer é uma inserção
da nossa cultura na cultura brasileira, de um modo diferente de como historicamente
o Rio Grande do Sul é visto. Sempre fomos marginais à produção
simbólica principal da identidade brasileira, e a vantagem da divulgação
atual é a inserção positiva nos conteúdos editoriais
dos programas.”
A visão do cinema
Não apenas na televisão, mas também no cinema
se vive um momento de quebra de tabus. O Homem que Copiava, filme
de Jorge Furtado, bateu o recorde de 400 mil espectadores nas cinco
primeiras semanas de exibição nas principais capitais
do país, rompendo a linha da resistência cultural
ao cinema feito no Rio Grande do Sul. É claro, trata-se
de obra urbana, de um diretor famoso por seu trabalho na televisão,
mas o sucesso deve ser compreendido também a partir de outros
fatores. Diz respeito a um aprendizado.
Desde 1981, com o emblemático Deu Pra Ti Anos 70, longa-metragem
na bitola amadora do Super-8, uma geração de realizadores
vem construindo com disciplina e persistência o campo profissional
cinematográfico no Estado. Antes disso, quem queria fazer
filmes ia para o Rio de Janeiro ou São Paulo. “Por
estar longe do eixo, o Rio Grande do Sul tem uma economia mais
modesta, mesmo assim é saudável”, avalia o
produtor e distribuidor de cinema Beto Rodrigues. Segundo ele,
com apoio do poder público e da iniciativa privada, o cinema
está se consolidando no Sul.
O Homem que Copiava foi um dos três vencedores na segunda
edição do Prêmio RGE – Governo do Estado,
em 2001, que destina R$ 1 milhão e 300 mil para projetos
de longa-metragem. No caso deste filme produzido pela Casa de Cinema,
o custo final chegou a R$ 3 milhões. Além de movimentar
a economia e gerar empregos, a realização de filmes
com este porte sinaliza a maturidade da produção
audiovisual gaúcha, com benefícios culturais que
ultrapassam as cifras matemáticas.
Nos filmes urbanos, especialmente da Casa de Cinema, Porto Alegre é o
cenário privilegiado de enredos envolventes com elementos
de drama, romance e suspense. Tolerância, de 2000, e Houve
uma Vez Dois Verões, de 2002, apresentam a visualidade regional
que busca espaço no mundo globalizado, onde os lugares mais
distantes do planeta tornam-se próximos pelas imagens que
deles são oferecidas. Em termos estratégicos, ser
o produtor da própria imagem é fundamental para estabelecer
a identidade cultural.
A diferença entre exibir para o círculo de conhecidos
e familiares ou atravessar os mares para encontrar novas platéias
está diretamente vinculado à associação
com um distribuidor. “Se a gente quiser ter um filme que
faça mais de 50 mil espectadores e seja lançado com
mais de 40 cópias, que cubra uma parcela do país,
tem que ter distribuidor”, afirma Nora Goulart, produtora
executiva de O Homem que Copiava. E não se trata de qualquer
distribuidor, o bom é que seja uma majors, que significa
maior ou principal, em inglês. Assim são chamadas
as empresas americanas cujos escritórios no Brasil, através
do artigo terceiro da Lei do Audiovisual, revertem impostos federais
para a produção e distribuição de filmes.
Como o lançamento em larga escala pode chegar a R$ 1 milhão,
as propostas devem se inserir na lógica da indústria
audiovisual.
Uma majors entra no processo antes da filmagem. O roteiro (que é o
filme escrito) é enviado para Los Angeles, dando início às
negociações para o ajuste aos padrões de mercado,
tanto econômicos, como narrativos. “Esta relação é uma
novidade para nós, mas isso faz parte da indústria
do cinema e isso não é só aqui”, afirma
Nora ao falar sobre a parceria da Casa de Cinema com a Columbia
Pictures, a empresa americana que mais investe no cinema nacional. É dela
a distribuição de Carandiru, que já ultrapassou
4 milhões de espectadores, convertendo-se no maior sucesso
brasileiro dos últimos tempos.
Para que um produto audiovisual seja diferenciado e, ao mesmo tempo,
agrade ao grande público, se faz necessário um equilíbrio
bem dosado entre demandas padronizadas e peculiaridades regionais.
Um elenco com atores conhecidos para atrair o público é uma
exigência das majors, que em O Homem que Copiava foi contemplada
nas participações de Luana Piovani e Pedro Cardoso.
No caso, foram eles que se adaptaram à nossa maneira de
tratamento na segunda pessoa do singular, considerada uma “excentricidade” gaúcha
que soa estranha aos ouvidos do resto do Brasil.
Dividendos históricos
O orgulho dos gaúchos em relação à sua cultura apareceu
em uma pesquisa qualitativa feita pela RBS TV ao implantar o projeto Histórias
Curtas. A preferência do público apontou o “documentário
histórico” como temática para curtas-metragens exibidos aos
sábados, no horário das 12h20min. A jornalista Alice Urbim, gerente
de produção da RBS TV, considera surpreendente o resultado e conclui: “Nós
damos muito valor ao mostrar a nossa história na TV.” Os números
confirmam. Dos 9 pontos indicados pelo Ibope na fase inicial, em 2000, o horário
hoje está consolidado com 25 pontos de audiência.
A descoberta deste nicho mercadológico surgiu por acaso, quando a Rede
Globo, da qual a RBS é afiliada, liberou um espaço na grade de
programação. Com apenas duas semanas para preencher a lacuna, a
equipe, da qual Alice faz parte, decidiu colocar curtas gaúchos, que,
apesar de famosos e premiados, eram pouco vistos. O sucesso extraordinário
alavancou o projeto de novas produções, que estão movimento
o setor audiovisual local.
O Prêmio Histórias Curtas já está na terceira edição,
oferecendo aos selecionados R$ 25 mil, além de equipamentos de captação
e finalização. Os profissionais inscrevem-se através de
uma empresa produtora e a média tem sido de 60 concorrentes por edição,
dos quais oito são selecionados. Além disso, a própria RBS
produz, caso da série A Ferro e Fogo, com consultoria do historiador Mário
Maestri sobre episódios da história do Rio Grande do Sul. Gravada
em 20 cidades gaúchas e envolvendo 450 profissionais, está sendo
lançada em vídeo e DVD, buscando novos espectadores.
Os números confirmam nossa capacidade de produção audiovisual,
que em televisão já é feita integralmente no Estado. No
caso do cinema, a finalização de imagem e som ainda depende dos
laboratórios instalados no Rio de Janeiro e em São Paulo. De resto
temos tudo: “Técnicos qualificados, elenco com talentos que integram
o casting nacional, paisagem humana e física diversificada, incluindo
deserto, montanhas, cidades e histórias”, afirma Beto Rodrigues,
que está produzindo o filme histórico Um Quarto de Légua
em Quadro.
O enredo é baseado no primeiro romance do escritor Luiz Antonio de Assis
Brasil, sobre a saga dos imigrantes açorianos que colonizaram o Rio Grande
do Sul a partir de 1750. Ganhador do Prêmio RGE – Governo do Estado,
será realizado em co-produção com Portugal e Argentina,
onde Rodrigues buscou parcerias. Com o raciocínio de que “cinema é um
negócio muito caro e obriga a uma certa responsabilidade de construir
meios de retorno financeiro, inclusive para continuar fazendo novos filmes”,
defende a co-produção como abertura para mercados estrangeiros.
No caso de Portugal, a co-produtora Costa do Castelo Filmes é também
uma grande distribuidora de vídeo, na qual os filmes fazem uma nova carreira
depois do circuito das salas.
Apesar dos riscos comerciais do tema histórico serem maiores em relação às
temáticas urbanas e contemporâneas, Rodrigues confia no potencial
do projeto que divide com o diretor Paulo Nascimento: “Estamos construindo
uma história que seja suficientemente universal para interessar a todo
tipo de espectador e moderna na linguagem para bater nos códigos narrativos
que as pessoas têm hoje internalizados”. A equação
envolve a fidelidade à época com licença poética
para dialogar com todas as platéias.
A economia e o imaginário
A circulação dos produtos audiovisuais está ligada a fatores
econômicos, com predomínio daqueles centros onde há maior
concentração de dinheiro. Se Hollywood domina o imaginário
do mundo inteiro, não é porque suas histórias são
melhores, mas porque estão associadas ao poder econômico para impô-las
sobre as demais. Valendo-se de brechas no sistema, utilizando a estrutura instalada,
com trabalho e determinação, os gaúchos estão descobrindo
meios de contar a própria história. Temos potencial, “somos
enredistas”, enfatiza o professor Canalli, citando as guerras e lutas de
fronteira do passado.
Desde Anahy de las Misiones, que em 1997 inaugurou a boa fase de longas-metragens
tendo como tema a Guerra dos Farrapos, a conquista dos espaços audiovisuais
passa pela afirmação de nossa identidade regional. Alguns equívocos
exaltatórios sobre figuras e episódios do passado passam a conviver
com o questionamento destes mesmos acontecimentos. A discussão decorrente
possui o valor inestimável de gerar conhecimento e novas formas de significação
da identidade cultural.
* Jornalista e Doutora em Cinema pela USP