Ano 8 - nº 74
Agosto 2003



Luis Fernando Verissimo:
O diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro de Tony Blair e é considerado o guru da política externa do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo publicado no Guardian que...



Nei Lisboa:
Estou há dois anos sem televisão em casa. Não, isso não é uma declaração de pobreza ou o início de uma diatribe contra os serviços de assistência técnica. Foi uma opção, que começou quase como uma brincadeira, na época da mudança...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras, aquela música amorosa limpa apimentada e mágica, brotando...





São 7 milhões de famílias de agricultores sem acesso à terra no Brasil. Parte delas compõe um exército de pobres abandonados à própria sorte. Outra vive embaixo de lonas à beira de rodovias, gastando a sola dos chinelos em marchas de centenas de quilômetros. Os cânticos e palavras de ordem expõem a tragédia social no campo, que salta aos olhos nos dados do censo agropecuário do IBGE 2002/2003, segundo o qual 5% de proprietários rurais são donos de metade dos 360 milhões de hectares de áreas agricultáveis.

Paulo César Teixeira


A reforma que o Brasil não viu

e acordo com o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), existem hoje no país 130 mil famílias (2,5 mil no RS) acampadas, à espera da desapropriação de imóveis rurais. Em toda a História do Brasil, foram assentadas, num cálculo otimista, apenas 700 mil famílias, 10% do percentual necessário. Algumas indagações continuam sem resposta: qual é o destino da massa de deserdados do campo? Por que a reforma agrária é necessária? E por qual razão ela não sai do papel?

A desapropriação da Fazenda Sotal, de 13 mil hectares, em São Gabriel (RS), para fins de reforma agrária – uma das primeira medidas adotadas pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva para implantar a reforma –, acendeu o pavio de uma acalorada discussão. A forte reação dos ruralistas e o conflito gerado pela marcha dos sem-terra de Pantano Grande a São Gabriel (leia entrevistas com representantes do MST e da Farsul à página 18) recolocou o tema na ordem do dia.

Capitanias: a origem do latifúndio

A concentração da propriedade no campo tem raízes históricas. Ao iniciar a colonização do imenso e desconhecido território descoberto além-mar, a Coroa Portuguesa fundou a semente do latifúndio – por definição, grande quantidade de terras improdutivas. No século XVI, as Capitanias Hereditárias repartiram o solo brasileiro entre poucos indivíduos. De lá para cá, a estrutura fundiária sobreviveu cinco séculos, na contramão do que ocorreu na maioria dos países capitalistas, especialmente os mais desenvolvidos, cuja base da agricultura é a pequena ou a média propriedade. “O latifúndio representa, hoje, o uso da terra para fins especulativos até por setores industriais urbanos, atraídos por menor carga de impostos do investimento”, diz Virgínia Etges, professora do PPG em Desenvolvimento Rural da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).

Se a razão humanitária para a implantação da reforma é a melhoria da qualidade de vida no meio rural, não faltam motivos econômicos que a justifiquem. O censo do IBGE mostrou que metade das 100 milhões de toneladas de grãos da safra 2002/2003 foi plantada em pequenas e médias propriedades. Cerca de 70% do leite consumido no país vem do trabalho do colono. No caso da soja, 40%; feijão, 70%; arroz, 60%; cebola, 99%; mandioca, 90%. “A reforma agrária é fundamental para o aumento da oferta alimentar”, conclui Bernardo Mançano Fernandes, presidente da Associação de Geógrafos do Brasil e professor da Unesp (Universidade Estadual de SP), em Presidente Prudente, região do Paranapanema.

Para cada família assentada, outras duas perdem a terra

Conforme o presidente do Sindicato de Produtores Rurais de São Gabriel, José Francisco Costa, as lideranças do MST objetivam “implantar no Brasil a reforma agrária adotada pela antiga União Soviética no regime comunista, que quase levou o país à falência.” A crítica ao desempenho dos assentamentos é rebatida por Bernardo Fernandes, autor da A formação do MST no Brasil (Editora Vozes, 2000). “O índice de desistência é de apenas 15% a 20%, por falta de crédito, assistência técnica e infra-estrutura.” Conforme o geógrafo, a expressão da força dos assentamentos é a criação de vários municípios a partir de núcleos de assentados, como Dourados (MS) e Pontão (RS), que nasceu no início dos anos 80 com o acampamento de Encruzilhada Natalino, na estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta.

Não é coincidência o fato de Encruzilhada Natalino surgir no último governo do ciclo militar. Só com a abertura política, as primeiras desapropriações foram efetivadas pelo general João Baptista Figueiredo (as experiências de décadas anteriores não sobreviveram na paisagem rural e sequer deixaram registros documentados). De Figueiredo a Itamar Franco, num período de 15 anos, apenas 250 mil famílias foram assentadas. Nos oito anos de Fernando Henrique Cardoso, 450 mil saíram beneficiadas. “Em parte, a aceleração da reforma se deu graças à estratégia de permitir o uso de

Títulos da Dívida Agrária (TDAs), chamada moeda podre, na privatização das estatais. Com isso, os fazendeiros eram tentados a oferecer imóveis diante da possibilidade de transformar em dinheiro de imediato o papel que recebiam em troca da propriedade, sem precisar esperar 20 anos para resgatá-lo”, afirma Navarro. No entanto, para cada família assentada no período de FHC, duas outras perderam a terra, informa o geógrafo Bernardo Fernandes.

O campo ficou à margem do desenvolvimento capitalista

Para os especialistas, não causa surpresa constatar que a distribuição de terras é capaz de produzir resultados positivos para a economia capitalista, ampliando oferta e consumo. “Todo o processo de reforma agrária é para instalar o capitalismo no campo.”, diz Virgínia, da Unisc. Segundo ela, os assentamentos enfrentam sérias dificuldades para levar adiante processos coletivos de produção, o que demonstra o caráter capitalista da reforma. “Não há como negar que alguns alcançam resultados, mas são exceções. A regra é a busca da propriedade individual por parte do sem-terra. Nada tem a ver com socialismo ou comunismo.” Para Virgínia, a resistência de elites arcaicas é o principal obstáculo à reestruturação fundiária. “Com expressiva representação no Congresso Nacional e forte influência nos meios de comunicação, os donos de latifúndios inviabilizam a reforma à custa da degradação social.”

Outros teóricos apontam a tática de confrontação dos sem-terra como uma das causas do impasse. O MST – com 1,5 milhão de membros em 23 dos 27 estados – é uma “organização revolucionária de orientação leninista ortodoxa”, segundo o sociólogo Zander Navarro, do PPG em Desenvolvimento Rural da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Na avaliação de Navarro, os equívocos vão desde a invasão de prédios públicos até a promoção de quebra-quebra em postos de pedágio de rodovias paulistas, passando pela ocupação de um navio em Recife (PE), carregado de transgênicos. “O símbolo das patetices do MST foi a invasão da fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que jogou a opinião pública contra o movimento.”

Diferenças regionais desconsideradas

Resta saber o que Lula vai fazer nos próximos quatro anos. O geógrafo da Unesp acredita que é possível assentar pelo menos 500 mil famílias no período. Já Navarro é pessimista: “Para desapropriar, é necessário emitir títulos da dívida pública. Ora, se a estratégia do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, é controlar de todas as maneiras o endividamento público, não se pode esperar avanço de magnitude considerável.” A professora Virgínia, da Unisc, preocupa-se não apenas com a quantidade de famílias assentadas, mas também com o modelo de reforma agrária. “Não pode haver proposta única para as diferentes regiões. Cada área tem especificidades, como a Amazônia, onde a transformação rural precisa levar em conta as populações da floresta, ou a zona da mata do Nordeste, em que agricultores sazonais trabalham em condições miseráveis para os senhores de engenho.”

O coordenador do PPG em Desenvolvimento Rural da Ufrgs, agrônomo Jalcione Almeida, entende que o governo tem prazo até o final do ano para tomar atitudes concretas. “Caso contrário, o MST começará a pressionar fortemente, o que poderá gerar sérios conflitos. Não precisamos de mártires.” Para o presidente da Associação dos Geógrafos do Brasil, crer que o debate sobre a questão agrária poderá um dia eximir-se de paixão ou ideologia é pura ingenuidade “Os ruralistas defendem seus privilégios. E os sem-terra sabem que o capitalismo sempre os massacrou. O teor ideológico de cada uma das partes tem seu sentido histórico”, conclui Fernandes.


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