Reforma agrária em debate
André Onuczak - MST
“Não acreditamos em salvador da pátria”
André Onuczak faz parte da coordenação nacional
do MST. Segundo ele, o proprietário da Fazenda Sotal, de
São Gabriel, deve R$ 32 milhões ao Banco do Brasil.
Lá, caberiam 520 famílias assentadas. Nesta entrevista,
Onuczak explica a posição do MST:
Extra Classe – O MST é socialista?
André Onuczak – Não estamos preocupados com
a palavra. É possível avançar a reforma
agrária no capitalismo, mas a verdadeira mudança
não será feita com este modelo econômico.
A luta é por uma sociedade em que todos possam trabalhar
com dignidade e colocar suas idéias. Dividir não
só a terra ou o alimento, mas também o conhecimento.
Se isso é fechar com o socialismo, então, é por
ele que nós lutamos.
EC – Qual é a expectativa frente ao governo
Lula?
Onuczack – No início, não estávamos
nos entendendo muito bem. Não parecia haver intenção
explícita de realizar uma reforma para acabar com o latifúndio.
Na audiência com o presidente, em julho, Lula disse que
não podia prometer assentar 1 milhão de famílias
em quatro anos, como propusemos. Mas pediu ao ministro Miguel
Rosseto que elaborasse um plano o mais rápido possível.
EC – Entre MST e ruralistas, Lula está de
que lado?
Onuczack – Poucos dias após a audiência,
num churrasco na Granja do Torto, Lula participou de um jogo
de futebol
com os ministros, só que desta vez como juiz. Quem conhece
o presidente sabe que ele mandou um recado. É o juiz tentando
conciliar conflitos. Neste momento, é preciso ter sabedoria
para trazer Lula para o nosso lado. Podemos perdê-lo de
vez. O povo organizado precisa dizer a ele o que deseja. Não
acreditamos em salvador da pátria. Só o povo se
salva.
Fernando Adalto Loureiro de Souza - Farsul
“Uma vela para Deus e outra para o diabo”
Fernando Adalto Loureiro de Souza é vice-presidente da
Farsul (Federação da Agricultura do RS). Dirigiu
antes o Sindicato Rural de Lavras do Sul, na região sul
do Estado. Ele assegura que os ruralistas de São Gabriel
contam com apoio da população para impedir a desapropriação
da Fazenda Sotal.
Extra Classe – O sr. é a favor da reforma agrária?
Fernando Adalto L. de Souza – Sem dúvida, sim.
Nossos sindicatos participam da seleção no Conselho
do Banco da Terra (formado pela Farsul, Famurs, Fetag, Fecoagro,
Universidade Federal de Pelotas e Universidade Federal de Santa
Maria), colocando, inclusive, cursos oferecidos pelo Senar
(Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) à disposição
dos candidatos. Outra coisa é o projeto de reforma agrária
do Incra e do MST.
EC – Como assim?
Adalto – Não podemos confiar no Incra. Sou partidário
da idéia do saudoso ecologista José Lutzemberg,
para quem o órgão não tinha remédio,
exceto ser extinto. Causa perturbação à produção
agrícola e agressão ao meio ambiente. A alta
densidade populacional ameaça o pampa, um ecossistema
tão importante quanto o Pantanal e a Amazônia,
dos quais se fala tanto. O pampa pode virar de pata para cima
e ninguém diz nada.
EC – Quanto ao MST?
Adalto – É um movimento que usa o acesso à terra
como desculpa para a ação política. Recruta
nas periferias das cidades gente excluída sem a menor
aptidão para o campo. Não vou dizer que todo
esse pessoal que é massa de manobra seja ladrão
de gado. Mas é fato que na vizinhança da Fazenda
Ana Paula, em Bagé, foram roubadas 500 cabeças,
com prejuízo de R$ 500 mil. As terras dos vizinhos dos
sem-terra são vendidas a preço de banana. Ninguém
os quer por perto.
EC – O que o sr. está achando do governo
Lula?
Adalto – É igual ao FHC: acende uma vela a Deus
e outra ao diabo.
Fatos marcantes na história do
MST |
1980 – Assentamento
de Encruzilhada Natalino mobiliza agricultores
sem-terra.
1985 – É criado o MST.
1990 – Protesto na Praça da Matriz,
em Porto Alegre, resulta na morte de um soldado
da BM degolado.
1994 – Movimento expande-se para Pontal do
Paranapanema (oeste de SP), onde surge o líder
José Rainha.
1995 – Massacre de sem-terras em Corumbiara
(Rondônia).
1996 – Massacre de agricultores em Eldorado
dos Carajá (Pará) ganha as manchetes
em todo
o mundo.
1997 – Marcha de 100 mil sem-terra a Brasília
força FHC a receber comitiva do MST.
2003 – Com Lula presidente, MST pede assentamento
de um milhão de famílias em quatro
anos. |
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Mais Movimento:
A
reforma que o Brasil não viu
Capitanias:
a origem do latifúndio
Para
cada família assentada, outras duas perdem a terra
O
campo ficou à margem do desenvolvimento capitalista
Diferenças
regionais desconsideradas