O alien e o MSTV

Estou
há dois anos sem televisão em casa. Não, isso
não é uma declaração de pobreza ou o
início de uma diatribe contra os serviços de assistência
técnica. Foi uma opção, que começou
quase como uma brincadeira, na época da mudança para
a casa onde moro hoje. Já não tinha o hábito
de locar vídeos, o aparelho ficava meio às moscas.
Andava, sim, viciado na NET, mas ansiando por um tratamento que
me livrasse daquele zap-zap por quarenta canais de grandes porcarias,
na maior parte do tempo. Quando a operadora anunciou que levaria
quarenta e cinco dias para transferir o sinal, achei que era hora
de economizar no tempo, no bolso e na saúde. E aí,
pensei, TV aberta também não dá: eu é
que não vou passar o domingo vendo o Sílvio Santos.
Assim foi então, que simplesmente dei de presente a minha
telinha e retornei à Era do rádio. Pensei que não
iria aguentar muito, mas lá se vão esses dois anos.
Bacana, né? Você também pode, acredite, junte-se
a mim e vamos fundar um MSTV.
Bom, talvez a coisa não seja tão simples assim. Andei
tendo umas recaídas, sabe. Aqui e ali numa festa em casa
de amigos, em algum boteco em dia de jogo do Inter, passando em
frente a alguma vitrine de loja, a gente sempre dá uma filada.
Com televisão não tem jeito, a gente assiste mesmo
sem querer. Depois começou a febre do DVD. E a pressão
já vai se acumulando, dependendo da roda o sujeito fica
caladinho, sem assunto, enquanto os outros não encerram
o desfile e a baba sobre as maravilhas do showbusiness digital
caseiro. Tela plana de duzentas polegadas, som sorround que dá duas
voltas completas na sala, o último lançamento com
a turnê dos Stones na Ilha de Java. É fogo. Se chegam
a perguntar, e eu respondo que não, não tenho DVD,
aliás, nem tenho TV, fica aquele silêncio. Uns olhares
piedosos, outros perplexos. Como se um alien tivesse baixado na
mesa. Que espécie de ser animal não tem televisão?
A minha, respondo, orgulhoso. Claro que também serve como
um álibi, pior seria se, tendo apenas a TV, eu estivesse
obrigado a comentar o Silvio Santos do último domingo. Mas
isso não conto pra ninguém. Não tenho TV e
ponto final. Coisa inimaginável, comoção geral,
tem um ao celular que já se apressa a contar a novidade
para o mundo, fulano não tem televisão. Aí acrescento – cofiando
a barba pra gerar um pouquinho de suspense –, aliás,
também não tenho celular. Pronto. Consegui gerar
pânico, criar polêmica, incontinência urinária
coletiva, tudo ao mesmo tempo. Todo o bar já me olha desconfiado.
Como alguém pode viver sem celular nos dias de hoje? Eu
posso. E muito bem, por sinal. Qual é mesmo a vantagem de
levar trabalho e incomodação no bolso pra onde quer
que se vá? Pra mim parece tão absurdo quanto andar
com um aparelho de fax embaixo do braço.
Sei que o tempo joga contra mim, que não vou resistir um
ano inteiro mais, sequer, antes de sucumbir a uma porrinhola falante
dessas ou de uma recaída definitiva no cabo, DVD, ou o que
for. Sob pena de ficar não apenas sem assunto mas também
solitário, personagem caricato de quem se espera que cheire
rapé e use polainas, de impossível comunicação
por defasagem nas coordenadas espaço-tempo. Mas enquanto
isso me divirto, vendo que a outros não lhes resta assunto
que não seja esse, se lhes retirarem os atributos e parâmetros
dos equipamentos que vestem, não têm mais nada a comentar.
Vai um saindo de fininho com a sua injeção eletrônica
e direção hidráulica, outro com o seu dolby,
zoom e closed caption, até que o último pede licença – está muito
frio, vai pra casa fazer uma pipoca no microondas. Ao que eu respondo,
aliás, também não tenho...
