Ano 8 - nº 74
Agosto 2003



Luis Fernando Verissimo:
O diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro de Tony Blair e é considerado o guru da política externa do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo publicado no Guardian que...



Nei Lisboa:
Estou há dois anos sem televisão em casa. Não, isso não é uma declaração de pobreza ou o início de uma diatribe contra os serviços de assistência técnica. Foi uma opção, que começou quase como uma brincadeira, na época da mudança...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival. Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada. Aqueles versos, aquelas redes, aqueles cardumes de liras, aquela música amorosa limpa apimentada e mágica, brotando...





Brasil: inserção mundial e desenvolvimento

José Luis Fiori*

epois da Independência, o Brasil e os demais países latino-americanos se transformaram, no século XIX, nos primeiros estados nacionais nascidos fora da Europa. Uma exceção notável, no momento em que alguns países europeus começavam sua segunda e veloz expansão colonial, na África e na Ásia. Naquele momento, entretanto, esses estados eram centros de poder muito frágeis e não tinham capacidade de exercer suas soberanias, dentro e fora dos seus territórios. Além disso, eram estados que não dispunham de economias ou mercados nacionais. Por isso, a América Latina ficou marginalizada dentro do sistema interestatal de competição entre as Grandes Potências e pôde ser transformada num laboratório de experimentação do “imperialismo de livre-comércio”, defendido por Adam Smith, e praticado pela Inglaterra, na primeira metade do século XIX. Os novos estados latino-americanos não eram domínios anglo-saxões, como o Canadá ou a Austrália, mas, apesar de sua independência política, nasceram como apêndices ou periferia do sistema econômico hegemonizado pela Inglaterra.

No Brasil, mesmo depois da proclamação da República, o estado seguiu sendo uma organização nacional frágil, com baixa capacidade de incorporação social e mobilização política interna, e sem vontade, nem pretensões expansivas. Do ponto de vista estritamente econômico, foi uma economia “primário-exportadora”, até a crise mundial de 1930, seguindo uma trajetória de crescimento e modernização restrita a suas atividades ligadas à exportação e submetendo-se, quase inteiramente, às regras e políticas liberais impostas pelo padrão-ouro.

Essa forma de inserção econômica internacional permitiu que o Brasil crescesse até os anos 30, graças à complementaridade entre a sua economia e a economia mundial e graças, sobretudo, à integração do país com as finanças inglesas que permitiram que o país obtivesse, nas fases recessivas do ciclo, o financiamento externo indispensável para evitar crises mais agudas no balanço de pagamentos, como a que levou o país à moratória em 1897. Mesmo assim, esta primeira experiência liberal de desenvolvimento demonstrou ter um limite crônico de ‘restrição externa’, posto pelos seus problemas de balanço de pagamentos e pela fragilidade da sua moeda.

Entre a crise econômica mundial de 1930 e o fim da II Guerra, no espaço aberto pela luta entre as Grandes Potências, o Brasil adotou políticas que acabaram fortalecendo o estado central e a sua economia nacional. Sua margem de autonomia, entretanto, foi pequena e curta, e, em 1938, o Brasil já havia se alinhado ao lado da nova liderança mundial norte-americana. Do ponto de vista econômico, contudo, a resposta à crise dos anos 30, obrigou o Brasil a um protecionismo pragmático, para enfrentar o problema da escassez de divisas, estimulando um processo quase espontâneo de ‘substituição de importações’. Um processo embrionário que deu impulso à industrialização, mas que acabou enfrentando limites claros e imediatos que só foram superados quando a restrição externa deu origem, a partir de 1937/38, a um projeto de industrialização liderado pelo Estado e voltado para o mercado interno.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil não teve posição relevante na geopolítica da Guerra Fria, mas foi colocado na condição de principal sócio econômico dos Estados Unidos, dentro da periferia sul-americana. Não houve Plano Marshall para a América Latina, nem o Brasil foi incluído na categoria dos países cujo “desenvolvimento a convite”, (como ocorreu com um “pedaço” da Ásia) foi estimulado, fortemente, pelo acesso privilegiado aos mercados norte-americanos. Mesmo assim, o Brasil se transformou numa experiência original de desenvolvimento acelerado e “excludente”, com o apoio dos organismos multilaterais e sob a liderança dos investimentos estatais e do capital privado estrangeiro, proveniente de quase todos os países do núcleo central do sistema capitalista. Durante todo o “período desenvolvimentista”, o Brasil manteve uma das mais elevadas taxas médias de crescimento mundial, ao lado de taxas crescentes de desigualdade social.

Na década de 70, este quadro sofre uma modificação importante graças à “crise da hegemonia norte-americana” e à grande disponibilidade de liquidez internacional, que permitiu o afrouxamento da restrição externa. O fim do padrão dólar se somou à derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, abrindo espaço para uma nova tentativa brasileira de autonomização de sua política externa, com o projeto frustrado do governo Geisel, de promoção do Brasil à condição de “potência intermediária” dentro Sistema Mundial. Por outro lado, a abundância de crédito privado para os países em desenvolvimento permitiu uma aceleração das taxas de crescimento e, no caso do Brasil, permitiu que ele avançasse no processo de industrialização iniciado nos anos 50/60, complementando sua matriz industrial com a produção de bens de capital e dos insumos necessários ao funcionamento da economia nacional. A contrapartida deste processo foi um endividamento externo que foi além das possibilidades do balanço de pagamentos, sendo responsável em grande medida pelo estrangulamento do crescimento, no momento em que a economia brasileira foi submetida – no final dos anos setenta e início dos oitenta – a quatro choques fatais: elevação das taxas de juros internacionais; recessão na economia mundial; deterioração dos termos de troca e interrupção do financiamento externo depois da moratória mexicana. Foram estes os principais fatores que submeteram a economia brasileira a uma severa crise do balanço de pagamentos e que obrigaram os governos da década de 80 a fazer uma política de promoção ativa das exportações e de controle das importações, para dar conta do serviço da dívida externa. Como conseqüência, o país viveu uma recessão seguida de uma redução de sua taxa média de crescimento, a que se somaram várias desvalorizações cambiais e uma aceleração da inflação.

No início dos anos 90, a vitória americana na Guerra Fria, a nova utopia da globalização e mais uma onda de liquidez internacional criaram as bases materiais e ideológicas da nova virada liberal das elites e do estado brasileiro. Do ponto de vista geopolítico, em particular no período FHC – o governo brasileiro apostou num sólido alinhamento com os Estados Unidos e seu projeto de globalização liberal, aceitando a internacionalização dos centros de decisão brasileiros e a fragilização do Estado, em troca de um projeto de governança global rigorosamente utópico. Do ponto de vista econômico, a disponibilidade de capitais internacionais financiou o abandono da estratégia desenvolvimentista, a volta às políticas econômicas ortodoxas e ao livre-cambismo do século XIX. Hoje está absolutamente claro que a onda expansiva dos investimentos externos, na década de 90, não teve o mesmo efeito dinamizador do período desenvolvimentista. Como conseqüência, no início de 2000, a economia brasileira já havia sido devolvida a sua velha e permanente “restrição externa”, uma espécie de sinal indelével do lugar periférico do Brasil, dentro dos Impérios Britânico e Norte-Americano.

Olhando para trás, destacam-se, nesta história, algumas “recorrências” importantes para o futuro:

1 – todas as grandes mudanças de rumo estratégico do país ocorreram em momentos de crises ou transformações mundiais;
2 – a posição e o apoio dos capitais e governos anglo-americanos teve papel decisivo nas escolhas brasileiras;
3 – em todos os casos, a “restrição externa” econômica e a fragilidade monetária pesaram contra a autonomia brasileira e a favor de um estado fraco;
4 – as elites brasileiras nunca precisaram da incorporação popular para garantir a reprodução e acumulação de sua riqueza patrimonial ou mercantil, feito através dos circuitos financeiros internacionais.

Em 2003, pode-se ver nitidamente que o mito da globalização já foi para o balaio, e a guerra voltou ao epicentro do sistema mundial, onde os Estados Unidos acumulam um poder financeiro e militar inquestionável. O eixo geopolítico do sistema se mantém longe da América Latina, e a economia mundial balança na beira do precipício da deflação, que, se ocorrer, poderá globalizar a paralisia japonesa. A moeda brasileira segue fraca como sempre foi, e a restrição externa voltou a bater com força na porta da frente. Depois de oito anos de reformas liberais, o Estado aparece, uma vez mais, fraco, desarticulado e com baixa capacidade de iniciativa estratégica.

Foi neste contexto que foi eleita uma nova coalizão de forças políticas e sociais lideradas por um partido de esquerda com um projeto popular e nacional de democratização do desenvolvimento. Um projeto cujo sucesso dependerá da capacidade governamental de mobilizar o povo e construir uma vontade nacional, obrigando as elites a se voltarem para sua própria terra e sua gente. Mas isto não ocorrerá sem que o Brasil redefina sua inserção internacional, na hora em que as Grandes Potências divergem pesadamente entre si sobre a reorganização geopolítica e econômica do Sistema Mundial. Neste momento, uma parte da elite brasileira e da coalizão governamental vem apostando claramente numa relação privilegiada com os Estados Unidos, numa nova versão do velho “desenvolvimento a convite” do pós II Guerra Mundial em que o país abdica do seu projeto nacional e de qualquer pretensão hegemônica, em troca do acesso privilegiado ao mercado interno americano (como foi o caso clássico do Japão, da Alemanha, de Taiwan e da Coréia). Mas parece que, uma vez mais, esses setores da sociedade brasileira estão esquecendo, como ocorreu no início dos anos 50, que os candidatos são muitos, as vagas são pouquíssimas e a prioridade norte-americana é a luta contra o terrorismo, tão distante do Brasil quando a Guerra Fria.


*Cientista Político






José Luis Fiori

Brasil: inserção mundial e desenvolvimento
epois da Independência, o Brasil e os demais países latino-americanos se transformaram, no século XIX, nos primeiros estados nacionais nascidos fora da Europa. Uma exceção notável, no momento em que alguns países europeus começavam sua...





As cores nada banais de Nelson Diniz
Nelson Diniz, ator de teatro cinema e televisão, portoalegrense da safra de 1963, ganhou o Prêmio Açorianos de melhor ator em 2000 e Prêmio APTC de melhor profissional do Cinema Gaúcho, em 1999. Atuou em mais de vinte espetáculos teatrais e em filmes como...

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