Contradições na Unisinos
Ângelo Dal Cin*
A proposta de reestruturação e “enxugamento” em
curso na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), de São
Leopoldo, nos últimos meses, tem ocasionado insegurança,
angústia e revolta em professores e funcionários.
Alegando que o déficit orçamentário teria
se “agravado” pelo acordo coletivo, assinado pelos
sindicatos, iniciou com a demissão de 120 funcionários
da área de manutenção, mais de 30 no setor
administrativo e propõe uma redução de mais
de 2 mil horas/aula distribuídas nos seis centros. Esta última
decisão da reitoria, se aplicada na integridade em relação
aos professores, significará a demissão de mais de
100 professores com carga horária semanal de 20 horas.
Embora a Unisinos desenvolva projetos de grande importância
na comunidade de São Leopoldo e região, mostrando
um grau significativo de responsabilidade social voltado para fora,
internamente apresenta paradoxos aparentemente inexplicáveis.
O projeto Unicidade, que, em síntese, pretende contribuir
no desenvolvimento regional, num raio de 100 km no entorno do campus
central, por meio de parcerias com a iniciativa privada e setores
públicos, vem desconsiderando a própria iniciativa
privada da região e o alto grau de conhecimento existente
na própria instituição.
A Universidade mantém um curso de especialização,
em nível de pós-graduação, em cooperativismo,
com renome regional, nacional e internacional. No entanto, extinguiu
a cooperativa de estacionamento coordenada por professores e alunos
e entregou o serviço a uma multinacional cujos cartões
de acesso são impressos no exterior, quando os mesmos crachás,
dos professores, funcionários e alunos, poderiam ser usados
para o estacionamento. Desprezou empresas locais, inclusive uma
de São Leopoldo, que confeccionou 5 mil crachás para
acesso de funcionários da Santa Casa de Porto Alegre.
De forma semelhante foi a demissão de 120 funcionários
da manutenção, terceirizando o serviço para
outra multinacional, com promessa de readmissão da maioria
dos mesmos. Segundo informação do SAAE-SL (Sindicato
dos Auxiliares em Administração Escolar), foram readmitidos
apenas 38.
Além do caso de cooperativismo, a Unisinos mantém
e desenvolve um projeto de economia solidária. Por que não
implementar estas iniciativas na própria instituição?
Querer justificar o agravamento do déficit orçamentário
pela defasagem entre o reajuste das mensalidades deste ano, de
14,8% contra um acordo coletivo que determina a reposição
parcelada de 17,66%, também é contraditório,
pois as mensalidades foram reajustadas a partir de janeiro e o
reajuste é repassado em 8% no mês de março,
12% em junho e 14% em dezembro do corrente ano. Somente em março
de 2004 o reajuste dos funcionários e professores atingirá os
14,8% e aí já haverá um reajuste antecipado
para janeiro de 2004. Além disso, nos últimos 5 anos,
a Unisinos reajustou as mensalidades em 35% a mais do que repassou
para os professores e funcionários. Se há justificativas
para o déficit, portanto, devem ser, provavelmente, encontradas
no gerenciamento.
Consciente da problemática, a Adunisinos (Associação
dos Docentes da Unisinos), solicitou audiências com o provincial
dos Jesuítas no Rio Grande do Sul, com a reitoria, com os
diretores de centro e vem discutindo a reestruturação
da empresa, bem como os critérios estabelecidos para o respectivo
enxugamento.
Ampliar o leque de pessoas envolvidas na comunidade universitária,
democratizando as decisões é o único caminho
para a volta da paz interna e a melhoria da qualidade na própria
instituição.
Responsabilidade social também é desenvolver um clima
de participação e conseqüente comprometimento
dos colaboradores em qualquer empreendimento.
* Diretor do Sinpro/RS
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