O
diplomata inglês Robert Cooper, que já foi conselheiro
de Tony Blair e é considerado o guru da política externa
do primeiro-ministro britânico, escreveu num famoso artigo
publicado no Guardian que o desafio para o mundo pós-moderno
é se acostumar com a idéia de “double standards”,
ou parâmetros duplos, ou dois sistemas de pesos e medidas,
nas relações internacionais. Deu o aval do “establishment”
para o cinismo oficial e foi o primeiro a dizer o que ninguém
- pelo menos não em linguagem professoral, e com a autoridade
de quem participou de decisões de Estado, e por escrito –
ainda tinha dito, que a fraude é um instrumento legítimo
para o novo imperialismo liberal, cuja missão civilizatória
ele também defende. Entre si, os países da Europa
(ou, para usar a expressão do Immanuel Wallerstein, da pan-Europa,
que inclui os Estados Unidos) devem se tratar de acordo com a lei
e a verdade, fora, claro, as desculpáveis mentiras diplomáticas,
mas no trato com o resto do mundo, escreve Cooper, “precisamos
reverter aos métodos mais grosseiros de outra época
– força, ataques preventivos, logro (a palavra em inglês
é “deception”), o que for necessário”.
“Entre nós”, continua Cooper, “respeitamos
a lei, mas quando operamos na selva também temos que usar
as leis da selva”. Blair e Bush recorreram à fraude
para justificar o ataque ao Iraque, onde também recorreram
à selvageria do bombardeio indiscriminado. Estão tendo
que se explicar agora porque nem todo o mundo se acostumou, ainda,
como quer o Cooper, com a idéia de que há uma lei
e uma ética para os membros do clube e outras para os outros.
Mas talvez Mr. Cooper tenha apenas saudade do tempo em que a Inglaterra
ainda não adotara o sistema métrico e confundia isto
com superioridade moral. Aqui nesta nossa selva tivemos um exemplo
menor de parâmetros duplos em dias recentes. Fizeram todo
aquele hipócrita carnaval com o boné do MST na cabeça
do Lula por alguns segundos, mas ninguém se escandalizou
com o espetáculo do presidente do Supremo Tribunal de Justiça
da nação vestindo a camiseta metafórica de
líder corporativo – e fazendo isto nas dependências
do Supremo. Uma ameaça à normalidade institucional
do país muito mais grave do que qualquer invasão de
terra. Aparentemente, o ideal do Mr. Cooper, de resignação
a pesos e medidas variáveis, já existe no Brasil.
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