TANIA ZAGURY
O professor contra a parede
O modelo de educação
brasileiro está longe de encontrar
a fórmula para democratizar
o acesso ao saber. Ao contrário,
nada vai bem nesse setor, em que os
profissionais foram colocados contra
a parede pela indisciplina dos alunos,
pela omissão da família,
pelas políticas públicas
equivocadas e sem lastro na realidade,
pela má remuneração
e excesso de tarefas. Na outra ponta,
os alunos concluem o Ensino Médio
sem dominar a leitura nem os fundamentos
da Matemática, e o país
figura nos últimos lugares das
avaliações nacionais
e internacionais dos sistemas educativos.
Para entender essa realidade e propor
saídas como a prática
de uma “Ciência-Educação”,
a filósofa, Mestre em Educação
e professora adjunta da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora
e escritora, Tania Zagury, empreendeu
uma pesquisa com professores do Ensino
Fundamental e Médio de escolas
públicas e privadas em 42 cidades
brasileiras. Com bases científicas,
o estudo mostra o que pensam os cerca
de 2 milhões de docentes do
país. O resultado está no
livro O professor refém – Para
pais e professores entenderem por que
fracassa a educação no
Brasil (Editora Record, 301 páginas).
Autora de 13 livros, entre os quais
Limites sem trauma (traduzido para
Itália, França, EUA,
Argentina, Espanha, Uruguai e México)
e O adolescente por ele mesmo, a autora
afirma nesta entrevista que a prática
docente tem sido subestimada nas análises
sobre educação.
Por Gilson Camargo
Extra Classe – Por que o professor é refém?
Tania Zagury – Foi um processo que começou há anos
e não tem apenas uma causa. Na verdade, houve uma conjunção
de fatores, parte dos quais originários de mudanças
tecnológicas e sociais; outra parte é decorrente
de mudanças e desestruturação na família;
e a terceira tem a ver com decisões educacionais equivocadas.
Somadas, elas propiciaram uma queda gradual e contínua na
qualidade do sistema educacional brasileiro como um todo e da Educação
Básica em particular, além de terem contribuído
para tornar o trabalho docente extremamente difícil.
EC – Quem e que fatores o mantêm nessa condição?
Zagury – O professor é refém, em primeiro
lugar, da sua própria formação, que também é deficiente;
do aumento absurdo de tarefas e objetivos que se tem colocado
para a escola; da sociedade que pouco ou nada valoriza o saber
e a ética, e sim o “ter”, especialmente em
se tratando de bens materiais, a fama, a riqueza monetária,
o poder, além de estimular fortemente o consumismo e o
imediatismo. É refém ainda da família, que
tem se oposto à escola e às regras que ela estabelece
criando um abismo entre as duas instituições; de
medidas político-educacionais equivocadas; e, por fim, é refém
da própria consciência, na medida em que percebe
que não está conseguindo alcançar os objetivos
educacionais a que se propõe.
EC – Por que fracassa a educação
no Brasil?
Zagury – Uma das causas é a falta de continuidade
e de avaliação de resultados dos projetos e reformas
que são colocados em prática – e depois retirados.
Aos professores cabe executar o que se decide em educação.
Sem dúvida, se os professores fossem ouvidos antes da
implementação de uma mudança, dariam grandes
contribuições no sentido de, por exemplo, alertar
para as necessidades, para a execução bem-sucedida,
mas teriam que ser ouvidos antes de se começar a operacio-nalização.
Outro problema grave é que, de fato, não há seriedade
na maioria das propostas que são implantadas. Parece que
há apenas o desejo de cada novo gestor de “provar” que
fez mais e melhor do que seu antecessor. Por isso, uma outra
proposta minha é a desvinculação entre educação
e política partidária. Não que a educação
seja apolítica, mas precisa estar acima de disputas pessoais.
A falta de continuidade é fruto da vinculação
com a política partidária. Sem considerar o mal
que causa aos nossos estudantes e docentes, há também
o custo financeiro altíssimo de se colocar em prática
decisões que visam apenas “tornar muito visível” que
alguém está fazendo “alguma coisa” pela
educação. Em geral, essas medidas são onerosas
e raramente seus resultados são qualitativamente avaliados.
EC – Esse cenário
inclui o ensino privado?
Zagury – Em alguns aspectos a rede pública e a particular
se diferenciam, em outros são muito semelhantes. Na rede
particular há melhores condições
de trabalho, em geral; mas os grandes problemas são basicamente
os mesmos nas duas realidades. Às vezes, a mesma dificuldade
se apresenta com outra roupagem em cada sistema de ensino, mas
em essência é o mesmo problema. Por exemplo, a falta
de limites na escola privada traduz-se em uma espécie
de prepotência e falta de respeito à autoridade
do professor, identificada pela idéia de que como é uma
escola “paga”, o professor, de certa forma, “deve” ao
aluno e à sua família o emprego; já na escola
pública, o mesmo problema pode aparecer sob a forma de
ameaças, mais ou menos claras, à integridade física
do docente – o que não significa que esse tipo de
conduta não possa surgir também na escola privada.
De qualquer forma, uns usam a força do dinheiro e do status
social; outros a força física. A dificuldade de
avaliar qualitativamente também é apontada como
problema pelos docentes nas duas realidades. Mas é preciso
ressaltar que tanto a escola privada quanto a pública
vêm apresentando queda na qualidade do ensino. As seguidas
avaliações feitas pelo próprio MEC através
do INEP mostram que tanto alunos da rede pública quanto
da privada podem ter bons resultados, assim como péssimos
resultados. Portanto, o problema é geral.
EC – Essas constatações de O professor
refém são fundamentadas a partir de uma pesquisa
inédita em que foram ouvidos 1.172 professores do Ensino
Fundamental e Médio. Qual a importância de se
pensar a educação a partir de dados científicos
e não apenas com base em “achismos”?
Zagury – Realmente, a minha proposta é essa. Está mais
do que na hora de começarmos a “Ciência-Educação”:
só se colocaria em campo inovações metodológicas
ou mudanças estruturais testadas cientificamente a priori
em algumas escolas-piloto, cujo andamento e resultados fossem
acompanhados e analisados constantemente por especialistas.
Como se faz hoje, por exemplo, no campo de pesquisas médicas.
Em educação trabalha-se segundo a ultrapassada
fórmula “ensaio-e-erro”, quer dizer, vai-se
tentando uma coisa, outra e mais outra, ao sabor de preferências
e gosto pessoal daqueles que, num determinado momento, ocupam
o poder decisório. A meu juízo, essa é uma
das causas preponderantes do fracasso da Educação
Básica brasileiro. E foi também uma das razões
para escrever O professor refém – eu queria um
livro que traduzisse de forma fiel a situação
concreta de sala de aula, o pensamento e as dificuldades dos
docentes que trabalham na Educação Básica
brasileira.
EC – E como a senhora obteve as informações
necessárias?
Zagury – Para tanto, fiz uma vasta pesquisa de campo,
com todos os cuidados técnicos que ela exige, tais como
determinar uma amostra significativa em relação
ao universo (no caso, foram necessárias mil entrevistas,
mas cheguei a 1.172). O questionário, aplicado aos docentes
e construído por mim, foi validado e aperfeiçoado
por especialistas com nível de doutorado. Foram seis
versões até chegar à forma final utilizada.
Além disso, só participaram do estudo aqueles
professores que, de fato e espontaneamente, optaram por isso,
os quais tiveram total garantia de anonimato. Os dados foram
colhidos entre docentes do Ensino Fundamental e Médio,
no ensino público e privado, em 42 cidades de grande,
médio e pequeno porte, em 22 estados brasileiros. Os
questionários foram depois trabalhados estatisticamente,
e os resultados, analisados e interpretados por mim, que nessa
fase do estudo busquei também aliar à minha própria
experiência docente na rede pública municipal
e na Educação Superior. E assim, após
três anos de trabalho, temos este livro que, creio, traduz
de forma inédita os sentimentos, dificuldades, problemas
e acertos dos nossos professores, especialmente porque é fruto
de um trabalho científico e não do que cada um “acha” que é a
causa da situação. Uma das minhas maiores bandeiras é fazer
com que decisões político-educacionais baseiem-se
em fatos concretos, levantados a partir de estudos de largo
espectro sobre a realidade de sala de aula e não nos “achismos” e
opiniões ou simpatias pessoais.
EC – A senhora afirma em seu livro que a experiência
prática dos professores tem sido subestimada nas análises
sobre educação e na formulação
de políticas para o setor. Trazer o professor para o
centro da discussão seria uma saída para os problemas
enfrentados pela educação?
Zagury – Com certeza. Quem executa precisa estar muito
bem preparado para fazê-lo, mas, acima de tudo, precisa
acreditar que o que vai fazer tem chance de dar certo. Como
disse anteriormente, as causas do fracasso em educação,
na pesquisa é a não-continuidade e ausência
de avaliação de resultados dos projetos. Se os
professores fossem ouvidos antes da implementação
de mudanças, poderiam alertar para as verdadeiras necessidades.
Como ocorreu com os que participaram do estudo de O professor
refém. Eles mostraram claramente que não se sentem
aptos, por exemplo, a trabalhar “Prevenção
ao Uso e Abuso de Drogas” (53% consideram-se não
preparados para trabalhar o tema). Mas o fracasso da Educação
Básica não se reduz, evidentemente, a apenas
esse aspecto. A questão é muito mais ampla e
complexa. No entanto, essa seria uma boa providência
para se começar a melhorar a escola brasileira.
EC – Se os brasileiros concluem os oito anos do Fundamental
e os três do Ensino Médio sem dominar a leitura
nem a matemática básica, que sentido têm
programas como o sistema de cotas para afro-descendentes nas
universidades e o ProUni?
Zagury – Quando se constrói um prédio começa-se
pela estrutura, pelas “fundações”.
Em educação a estrutura é o Ensino Básico.
Querer corrigir problemas originários de uma Educação
Básica deficiente na Educação Superior é risível. É claro
que existem pessoas muito bem-intencionadas lutando por esse
tipo de proposta, mas pessoalmente são totalmente contrárias à idéia
de “compensação social” na Universidade.
Só conseguiremos com isto fazer com que esses jovens – que
já estão defasados – ganhem seu diploma
de nível superior como ganharam o da Educação
Básica: com deficiências sérias. Aparentemente
se terá “pago” a eles a dívida social,
mas não realmente. Eles acordarão do sonho quando
forem preteridos pelo mercado de trabalho, por não terem
as competências mínimas para assumir suas funções.
Não se consegue qualidade assim.
EC – A pesquisa aponta a indisciplina dos alunos como
uma das maiores dificuldades dos professores. Qual é o
papel do professor, afinal?
Zagury – Algumas pessoas – me parece – consideram
que desenvolver competências sociais e de relacionamento
são incompatíveis com desenvolver competências
cognitivas e profissionais ao mesmo tempo. Não há incompatibilidade
entre os dois grupos de objetivos. O que há é falta
de tempo. Aumentar tarefas e objetivos e permanecer com a mesma
carga horária anual acabam levando o docente a, obrigatoriamente,
optar entre objetivos que nunca poderiam ser descartados. Mas
já está muito antiga a premissa de que “dois
corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço”.
EC – Qual a solução?
Zagury – Ter mais espaço, mais tempo em sala de
aula. E professores preparados para executar tarefas que até há pouco
tempo não faziam parte de sua formação.
EC – Qual é a relação entre falta
de motivação e indisciplina dos alunos?
Zagury – As escolas são hoje menos atraentes
e menos equipadas do que aquilo que os alunos têm em
casa ou à disposição na sociedade (jogos
eletrônicos,
computadores, TV, ipods, etc.). Mas esse é apenas um
dos fatores. O desemprego alto é outro. Pessoas com
boa formação nem sempre conseguem emprego, o
que é também fator de desestímulo. A supervalorização
de bens materiais em detrimento do saber e dos valores éticos
seria um outro; todos querem “vencer na vida”,
mas, em tempos de consumismo, imediatismo
e hedonismo como os atuais, o querem de forma fácil,
fazendo só o que gostam e, de preferência, sem
ter que “suar” muito a camisa. Daí por que
tantos jovens de classe abastada têm se envolvido em
atos anti-sociais como o envolvimento com drogas. Dinheiro
fácil, sucesso, fama e poder são elementos que
seduzem as novas gerações muito mais do que estudar
Matemática ou ler Machado de Assis. Junte-se a esse
quadro a falta de limites e a insegurança que são
a tônica dos pais hoje, e pode-se compreender por que
os alunos chegam à escola desmotivados e indisciplinados.
EC – A substituição do modelo tradicional
pela escola ativa, comprometida com a consciência política,
ocorrida a partir dos anos 70, foi assimilada pelo conjunto
dos professores?
Zagury – A educação moderna, mais democrática
e, sem dúvida, menos impositiva do que a tradicional,
dá, sim, mais liberdade aos alunos, mas isso de forma
alguma significa falta de respeito ou incivilidade. Pelo
contrário, o objetivo da escola moderna é promover
maior interesse e um ensino mais lúdico e atraente.
Além disso, objetiva a independência e o desenvolvimento
de habilidades e competências sociais e afetivas. A
escola moderna de qualidade, isto é, operacionalizada
corretamente em seus princípios, jamais levaria à situação
que os professores vivem hoje. No entanto, quando ocorrem
distorções práticas, má compreensão
de um determinado método, se o professor não
está bem preparado para utilizá-lo, ou sem
condições de infra-estrutura, aí sim,
acontecem interferências negativas. E pelo que o estudo
mostrou, estas duas últimas – falta de treinamento
e de infra-estrutura – são as causas mais prováveis
para explicar o quadro atual.