O Rio Grande tem jeito?
O Rio Grande do Sul está em crise. Essa é uma
das frases mais ouvidas no Estado nos últimos anos. O futuro
governador entrará no Palácio Piratini com um singelo
desafio já no seu primeiro mês: conseguir dinheiro
para pagar a folha salarial do funcionalismo. Além disso,
precisará desenvolver políticas que garantam um mínimo
de investimentos na infra-estrutura do Estado, especialmente no
setor de energia. Nos últimos anos o RS entrou em declínio
econômico, crescendo abaixo da média nacional. Uma
conjunção de fatores contribuiu para isso: seca,
uma política cambial desfavorável que teve impacto
negativo nas exportações, aumento de impostos em
setores estratégicos para a economia e a crise financeira
estrutural do Estado.
Por Marco Aurélio Weissheimer

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candidatos postulam o direito de caminhar pelo tapete vermelho
do Piratini no dia 1° de janeiro de 2007. Três deles
já passaram por essa experiência: Germano Rigotto
(PMDB), Olívio Dutra (PT) e Alceu Collares (PDT). Os outros
sete são: Yeda Crusius (PSDB), Francisco Turra (PP), Beto
Grill (PSB), Edison de Souza (PV), Pedro Couto (PSDC), Roberto
Robaina (PSOL) e Guilherme Giordano (PCO). As primeiras pesquisas
apontam quatro deles com maiores chances na disputa: Rigotto, Olívio,
Yeda e Collares. Como a maioria deles já teve experiência
de governo, em nível estadual e federal, sabem muito bem
que não há nenhuma solução mágica
para resolver o problema da crise financeira do Estado. Entre as
coordenações das campanhas, comenta-se inclusive,
em tom anedótico, que ninguém quer estar na pele
do futuro governador. Mas todos querem o cargo. Há uma razoável
unanimidade de que qualquer solução passa por uma
rediscussão com a União sobre o pagamento da dívida. É o
famoso tema de um novo pacto federativo que envolveria uma redefinição
da relação tributária entre os entes federados
(União, Estados e Municípios). Mas esse é um
debate que vem se arrastando há anos e, no momento, não
tem perspectiva de solução no curto prazo. Um dos
desafios do futuro governador será justamente o de tentar
alterar este cenário.
A produção industrial do RS fechou 2005 com o pior
resultado entre os 14 locais pesquisados pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). O indicador acumulado
de janeiro a dezembro teve resultado negativo de -3,5%, bem abaixo
da média nacional no período, que foi 3,1%. No ano,
11 dos 14 ramos pesquisados no RS tiveram recuo na produção.
Os maiores impactos negativos vieram de máquinas e equipamentos
(-19,1%), calçados e artigos de couro (-5,2%) e produtos
químicos (-5,8%). Os índices negativos não
param por aí. O Índice de Desempenho Industrial do
RS (IDI-RS) teve, em 2005, seu pior resultado desde que começou
a ser medido, em 1992. Na comparação com 2004, a
queda foi de 5%.
Todas as variáveis que compõem o índice apresentaram
percentuais negativos. Segundo a assessoria econômica da
Federação das Indústrias do Rio Grande Sul
(Fiergs), responsável pela elaboração do índice,
os números são conseqüência de “variáveis
macroeconômicas e problemas regionais”. Entre as primeiras
estão a valorização do real e as altas taxas
de juros. Entre os problemas regionais, a Fiergs destaca a restrição
imposta pelo governo estadual ao uso dos créditos do Imposto
sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) e os problemas
causados pela seca. A crise também afetou a geração
de empregos no Estado. Em 2005, foi registrada uma redução
de 17.060 postos de trabalho. Somente na indústria calçadista,
16.160 trabalhadores foram demitidos em 2005.
O presidente da Fiergs, Paulo Tigre, acredita que o desempenho
industrial em 2006 será melhor, até porque a base
de comparação será baixa, considerando o péssimo
resultado de 2005. Esse desempenho teve reflexos imediatos na saúde
econômica do Estado. Em 2001, o RS chegou a atingir a posição
de segundo Estado exportador do país. Em 2005, chegou próximo
da quarta posição. A participação do
Estado nas exportações brasileiras, que era de 10,5%
em 2000, caiu para 9,0% em 2005. No ano passado, enquanto as exportações
brasileiras cresceram 23,4%, até setembro, a média
gaúcha foi de apenas 4,5%.
O dramático problema da dívida
Se os índices da economia são negativos, a situação
da dívida pública é ainda pior. A dívida
consolidada do Estado, que era de pouco mais de R$ 26 bilhões
em 2003, em abril de 2006 chegou a mais de R$ 32 bilhões,
apesar de o Estado pagar mais de R$ 1 bilhão este ano em
juros. Somente em 2004, o serviço da dívida comprometeu
14,6% da receita corrente líquida do Estado. As previsões
indicam que esse comprometimento chegará a cerca de 19%
ao final deste ano. Esse quadro de endividamento está acima
do que é permitido pela Resolução n° 40
do Senado Federal, que prevê que a dívida líquida
dos estados não pode superar o equivalente a duas vezes
sua receita corrente líquida. Segundo o secretário
estadual da Coordenação e Planejamento, João
Carlos Brum Torres, o debate sobre a crise financeira do Estado
deve partir do reconhecimento de que o dese-quilíbrio das
finanças públicas gaúchas tem um caráter
histórico e estrutural. Trata-se, argumenta Brum Torres,
de uma situação que não foi construída
do dia para a noite, nem em uma única gestão ou governo.
O acordo de renegociação da dívida, assinado
em 1998 pelo ex-governador Antônio Britto e pelo ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, não ajudou a melhorar esse quadro,
representando uma despesa de cerca de R$ 1,8 bilhão por
ano. Esse valor acabou se tornando mais um fator de estrangulamento
para o Estado. Desde 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal proibiu
a renegociação direta entre entes federados de contratos
de dívidas. Pensando numa forma de superar essa limitação,
o ex-secretário da Fazenda do Estado, Arno Augustin, juntamente
com o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto,
apresentaram, em julho, uma proposta de operação
de renegociação para o pagamento da dívida
do Estado com a União envolvendo o Banco Mundial. O Bird
tem programa específico para reestruturação
de dívidas do setor público e não há vedação
da Lei de Responsabilidade Fiscal para este tipo de transação.
Essa proposta, segundo eles, poderia reduzir de 13% para 9% o comprometimento
do Estado, significando uma economia de R$ 600 milhões para
os cofres públicos.
Os termos do "Pacto pelo Rio Grande"
Uma outra iniciativa para tentar apresentar uma solução
partiu do parlamento estadual. Ao aprovar um projeto de lei que
trata da Lei de Diretrizes Orçamentárias e dita princípios
para a elaboração do Orçamento relativo ao
exercício de 2007, a Assembléia Legislativa tentou
desenhar um novo cenário na busca do equilíbrio das
contas públicas, com a eliminação do déficit
financeiro estrutural de R$ 1,2 bilhão nos próximos
quatro anos e sua transformação em saldo positivo,
findo esse período. O chamado “Pacto pelo Rio Grande” pretende
oferecer uma solução de caráter estrutural
para os problemas financeiros do Estado. Mas ele não vai
facilitar a vida do futuro governador no curto prazo. Os deputados
deliberaram que não serão prorrogadas as alíquotas
do ICMS para combustíveis, telefonia e energia elétrica
em vigor desde 2004. Ou seja, o futuro governador assumirá com
menos dinheiro em caixa.
Ainda segundo os termos do acordo do pacto, que vai até o
final de 2010, em lugar do congelamento das despesas, os poderes
terão a faculdade de aumentar em até 3% as despesas
de pessoal para garantir o crescimento vegetativo da folha salarial.
E mais: cada poder implementará um teto salarial; será implementado
de imediato um Fundo de Previdência para os novos servidores;
ficam proibidas anistias fiscais decorrentes de programas como
o Refaz; também a prorrogação ou renovação
de contratos de incentivo do Fundopem e do Integrar/RS; e o Orçamento
será uma peça calcada na realidade, sem recursos
artificiais. A reação aos termos desse acordo, que
exige novos sacrifícios por parte dos servidores públicos,
não demorou. Juízes, professores e outros setores
do funcionalismo condenaram o acordo e anunciaram a intenção
de propor ações na Justiça.
"Situação catastrófica"
Em um artigo publicado no jornal O Globo (14/07/2006), Miriam Leitão
escreveu sobre a situação crítica das economias
dos estados da região Sul, especialmente o RS. Falando sobre
a situação da região de Santa Rosa, um dos
principais pólos do agronegócio no Estado, o deputado
federal Omar Terra (PMDB-RS) reconheceu: “Há dois
anos estamos em crise, mas nos últimos 60 dias a situação é catastrófica”. “Não é conversa
de político e não é apenas Santa Rosa, ou
Horizontina, ou Santo Ângelo, cidades próximas. As
estatísticas confirmam que todo o Sul está em crise,
e o RS está em recessão há dois anos”,
registrou a jornalista. Com um agravante. A consultoria MB Associados
alertou que o crescimento no Brasil está assimétrico: “O
país cresce muito no Norte, tem bom crescimento no Nordeste
e no Sudeste, e despenca no Sul. Em 2005, o PIB gaúcho caiu
4,8%”.
A MB levantou os seguintes dados: “A indústria de
calçados teve queda na produção no Brasil
inteiro, mas as vendas cresceram em São Paulo e no Nordeste.
Já no Sul, estão em queda tanto a produção
quanto a venda. A queda da produção tem a ver com
o aumento das importações de 14% nos 12 meses terminados
em março. A das vendas é reflexo do resto da economia.
Há várias crises na região. Uma delas, por
fatores naturais. O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico)
informa que os reservatórios do Sul estão com água
num nível de apenas 29% (no Sudeste, estão em 80%).
Mas não são apenas flagelos naturais. Numa economia
em crise, o câmbio baixo está piorando tudo. As fábricas
de máquinas agrícolas estão paradas e o país
está importando tratores da China”.
Dívida inviabiliza investimentos
A atual situação financeira do Estado é dramática
e o futuro governador não terá tempo para respirar,
antes que os problemas aterrissem em sua mesa de trabalho. Em abril
de 2005, o atual governo estadual recorreu ao instrumento do aumento
de imposto para enfrentar, no curto prazo, seu déficit de
caixa. O Executivo aumentou de 25% para 29% as tarifas em telecomunicações,
energia e combustíveis, gerando um incremento de 18% na
arrecadação do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).
O problema é que esse aumento tem prazo de validade definido:
o final de 2006. Ou seja, o futuro governador assumirá o
Palácio Piratini com um buraco no orçamento do Estado.
Durante um debate na Assembléia, o secretário João
Carlos Brum Torres reconheceu que a carga tributária deveria
ser mantida ou até mesmo aumentada, considerando que as
despesas do Estado não diminuirão no próximo
ano.
As dívidas de precatórios representam outro problema
crônico que vem sendo arrastado com a barriga, governo após
governo. O RS é o sexto Estado da federação
em valores de dívidas de precatórios, com R$ 2,3
bilhões. Os três primeiros são São Paulo,
com R$ 13,6 bilhões; Espírito Santo, com R$ 6,6 bilhões;
e Minas Gerais, com R$ 5,3 bilhões. A dívida total
com precatórios no país, de estados e municípios,
de acordo com dados da Secretaria Nacional do Tesouro, chega a
R$ 63,3 bilhões. No dia 11 de julho, o governo do Estado
apresentou um projeto de lei de criação de um Fundo
Estadual de Precatórios (FEP/RS). Os recursos serão
compostos por 10% da receita bruta da cobrança judicial
da dívida ativa do Estado, que está em cerca de R$
13 bilhões, 30% de receitas patrimoniais com vendas de imóveis,
rendimentos de aplicações do fundo e uma dotação
orçamentária de R$ 5 milhões ainda em 2006.
Risco de apagão?
No dia 5 de julho, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau,
garantiu que a situação energética da região
Sul é tranqüila, mesmo com a seca que atinge a região.
Segundo ele, o Sistema Interligado Nacional está transferindo,
atualmente, 5 mil megawatts (MW) para a região Sul, havendo
ainda espaço para aumentar o envio de energia (até 7
mil MW). No entanto, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico
já está buscando maneiras de viabilizar elevações
nos limites de transferência de energia da região
Sudeste para o Sul, em função do baixo índice
de chuvas.
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também nega
o risco de um apagão no Sul do país, apesar da ameaça
de uma nova estiagem. No RS, já são 80 municípios
com racionamento de água. No Paraná, são 42
e, em Santa Catarina, já passa de uma dezena. Segundo ela,
os sistemas de transmissão estão operando bem e a
oferta de energia é suficiente para garantir o abastecimento.
No curto prazo, assim, o problema mais grave mesmo parece ser a
saúde financeira do Estado. Neste ponto, o que prevalece é a
lógica da bola de neve descendo montanha e ficando cada
vez mais ameaçadora. A recente tentativa de firmar um pacto
entre as principais forças políticas do Estado é o
sinal mais evidente disso. Diante do tamanho da dívida,
o espaço para promessas e soluções mágicas
está cada vez mais restrito.