Hiperatividade maltratada
Identificar uma criança com déficit de atenção
e/ou hiperatividade e encaminhá-la para tratamento pode
evitar anos de sofrimento com repetências e o trauma de ser
tachada de burra e bagunceira. Mas não é um diagnóstico
fácil, reconhece o médico Luis Augusto Rohde, professor
de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Na reportagem “Obediência
em pílulas” publicada no jornal Extra Classe no 103,
de junho de 2006, profissionais da saúde e da educação
discutiram a necessidade de se buscar diagnósticos cada
vez mais precisos e questionaram o uso excessivo de medicamentos
entre os estudantes. O tema é tão importante, que
merece um novo espaço para esclarecimento. “Numa perspectiva
de saúde pública, pode-se dizer que o problema ainda é subdiagnosticado
e subtratado no Brasil”, avalia Rohde.
Por Clarinha Glock

reocupado
com a possibilidade de um mal-entendido na reportagem sobre o que é o
Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade
(TDAH) e a importância de dar alívio a quem sofre
com esse problema, Rohde, que é coordenador do Programa
de Déficit de Atenção e Hiperatividade do
Hospital de Clínicas de Porto Alegre, lembra: diferentemente
de outros diagnósticos – como gravidez, por exemplo,
em que se está ou não grávida e não
há meio termo –, os transtornos desse tipo têm
variáveis dimensionais. Isso quer dizer que há pessoas
com mais dificuldade de concentração, outras com
menos. Essa dificuldade é considerada uma doença
dependendo da intensidade e dos prejuízos que causa à vida
do indivíduo (veja quadro de sintomas). “De nenhuma
forma o TDAH deve ser tratado apenas como resultado de aspectos
culturais e sociológicos da modernidade”, salienta
Rohde.
Existem três tipos de déficit de atenção:
o combinado é o mais facilmente identificável em
sala de aula e em casa porque a criança apresenta também
impulsividade e hiperatividade. Como ela incomoda pais e professores,
eles buscam ajuda. No segundo tipo, quando há o predomínio
do déficit de atenção somente, as crianças
ficam “viajando”, “saem do ar”, e isso
pode passar despercebido. O terceiro tipo é aquele em que
predomina a hiperatividade. “Os professores precisam ter
sensibilidade para identificar um caso em potencial e encaminhar
para a análise de um especialista”, recomenda Rohde.
Essa avaliação deve ser criteriosa, porque não
existe um marcador biológico (um exame bioquímico,
por exemplo) de que se trata de TDAH, apesar de ser uma condição
médica reconhecida na Classificação Internacional
das Doenças da Organização Mundial de Saúde. “Diariamente
somos procurados por famílias que ficam à mercê de
tratamentos sem evidência científica de sua eficácia,
por longos anos a fio, sem quaisquer resultados”, observa
o médico. Por isso, ele recomenda: um tratamento após
um ano ou 18 meses em que não haja nenhum tipo de sinalizador
de resultados merece que os pais ouçam uma segunda opinião,
de preferência de um profissional de uma área diametralmente
oposta – se a criança está consultando com
um psiquiatra, os pais poderão buscar um psicólogo,
um psicoterapeuta, fazer uma avaliação com um neurologista.
Como nem todos os casos são diagnosticados, é possível
que 50% dos pacientes que apresentam TDAH desde a infância
ou a adolescência continuem tendo prejuízos na vida
adulta. Os
portadores de TDAH têm mais riscos de, quando crianças,
sofrerem acidentes domésticos, como fraturar uma perna ou
ingerir medicamentos ao acaso. Nos jovens e adultos, há mais
possibilidade de acidentes de trânsito e de menor satisfação
nas relações conjugais e profissionais.
Entre os jovens, o TDAH pode também estar associado ao uso
de drogas. A médica Claudia Szobot realizou uma pesquisa
sobre a associação entre TDAH e o uso de substâncias
psicoativas (maconha, cocaína, inalantes) entre 968 adolescentes
masculinos com idades entre 15 e 20 anos de quatro vilas na Grande
Porto Alegre, entre 2003 e 2005. Do total, foram selecionados 61
jovens com uso comprovado de substâncias ilícitas
e outros 183 não-usuários. Os dois grupos passaram
por avaliações psiquiátricas e cognitivas.
A prevalência de TDAH foi de 44,26% entre os usuários
e de 7,7% nos demais.
O resultado do projeto, desenvolvido pelo Programa de Déficit
de Atenção/Hiperatividade e pelo Centro de Pesquisas
em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas/Ufrgs,
sugere fortemente que as crianças com TDAH que não
receberam nenhum tratamento estão em maior risco para o
uso regular de drogas ilícitas. “Este achado é importante
para a prevenção ao uso de drogas, porque o TDAH
se inicia antes dos sete anos de idade e apresenta bons tratamentos
disponíveis”, analisa a médica.
Outro fator importante que deve ser considerado, segundo Rohde, é o
transtorno ter uma alta participação genética.
Pais portadores podem transmitir a doença, e um lar desorganizado,
com dificuldades de impor limites, pode ser um sintoma de que eles
também têm o problema.
Como identificar o problema
Se os pais ou professores identificarem seis ou mais sintomas nas
crianças, a orientação é procurar a
ajuda de um especialista:
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Meu filho é hiperativo
Tenho um filho com TDAH que hoje freqüenta uma escola particular normal
e a escola diferencia sua avaliação. Se não contarmos com
isso, essas crianças não chegarão a lugar algum, mesmo com
o melhor médico! Tem de estar junto uma família estruturada. No
caso do meu filho, o tratamento é mais difícil, pois, além
do TDAH, há uma comorbidade: junto vem a ansiedade, a compulsividade e
a impulsividade.
Minha luta é com os professores que desconhecem o transtorno e generalizam
o aluno como relaxado, sem motivação. Eles não interagem
com ele, acham que é assim por malandragem. Mas agora a escola está dando
o suporte. Venho nesta luta há cinco anos. Meu filho está na sétima
série e não repetiu o ano. Tem no turno inverso professores particulares
para ajudar a aumentar sua auto-estima. E a cada dia se sente melhor.
Depoimento de Andréa Quintino, mãe de um adolescente de 13 anos
com TDAH. Os primeiros sintomas começaram aos seis anos de idade.
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Associação Gaúcha
de
Déficit de Atenção e Hiperatividade
www.tdah.org.br
Fone: (51) 3331.6369
E-mail: agdahrs@gmail.com
Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade
Hospital de Clínicas/Ufrgs
www.ufrgs.br/psiq/prodah.html
Associação Brasileira do Déficit
de Atenção (ABDA)
www.tdah.org.br
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