
A
espera acabou

ma
tragédia esperando para acontecer. O mesmo pensamento deve
ter passado pela cabeça de todos que pousavam ou decolavam
no aeroporto de Congonhas. A extensão da tragédia dependia
da imaginação de cada um. Um choque contra um daqueles
edifícios cujas coberturas não pareciam estar a mais
de 50 metros da barriga do avião que descia ou subia. Força
insuficiente para decolar sem nenhuma alternativa a não ser
desabar sobre os prédios num extremo ou no outro da pista.
Um pouso imperfeito também sem espaço para ser corrigido
ou compensado antes de o avião sair do aeroporto e invadir
um quarteirão habitado. O cardápio de opções
para previsões tétricas era imenso. Aterrissagens e
partidas seguras eram sempre acompanhadas de suspiros de alívio – ainda
não foi desta vez! – mesmo que inconscientes, dentro
dos aviões. Finalmente, na última terça-feira,
chegou a vez.

O fato de a tragédia prevista ter demorado tanto para acontecer
ao mesmo tempo atenua e agrava a insensatez de manter um aeroporto
no meio de São Paulo. Quando foi construído Congonhas,
não tinha tanta cidade em volta. Foi a cidade que cresceu
insensatamente e cercou o aeroporto. Como a tragédia insistia
em não acontecer, podia-se deduzir que os riscos aparentes
não eram tão grandes assim. Ou não eram tão
excepcionais. Quem chega de avião a Hong Kong, dizem, pode
abanar durante o pouso para pessoas dentro dos apartamentos que ladeiam
o aeroporto, e o aeroporto de Lima, mesmo sem área urbana
em volta, seria um exemplo entre muitos outros mais assustadores
do que Congonhas. A longa falta da grande tragédia autorizava
a permanência de Congonhas, desmentia seus críticos
e confortava os assustados. Quando as companhias aéreas decidiram
centralizar o tráfego nacional em Congonhas e o aeroporto
foi reformado e ampliado, no mesmo lugar, para isso, foi como se
avalizassem a certeza da sua segurança. Afinal, os maiores
interessados em preservar seu equipamento e seus clientes eram elas.
Mas estavam abonando a insensatez.
Mesmo que se prove que o acidente foi uma fatalidade que poderia
acontecer nos melhores aeroportos, em países não tão
brasileiros, a verdade é que a espera acabou. Agora, enquanto
se decide quem são os atuais responsáveis e que cabeças
rolarão, pois cabeças têm que rolar, cabe perguntar
por que a insensatez nunca foi repensada durante todos os anos em
que a tragédia não veio. Em que havia tempo.
