
Um
laboratório de novas
formas
de viver
Aquecimento global, poluição de águas,
terra e
ar, desmatamentos e outras ameaças ao planeta
exigem novos tempos baseados em
sustentabilidade ambiental. A ecovila que começou
a receber seus primeiros habitantes em
2004, em uma das últimas áreas rurais da capital
gaúcha, é um laboratório de novas formas de
viver e morar em harmonia com a natureza
Por José Antônio Silva*
um
primeiro olhar, a impressão é de apenas
mais um condomínio de classe média
na Vila Nova, uma das poucas áreas rurais
preservadas no perímetro de Porto Alegre.
Quem prestar mais atenção, porém, logo perceberá
que é muito mais que isso – a começar
pelos telhados das casas, cobertos por plantas
“
suculentas” ou por espelhos de água, onde vivem
peixes e tartarugas, em meio a placas de
energia solar. Ou se observar os filtros biológicos,
formados por raízes especiais e areia, que
começam a “transformar o esgoto das habitações
em córregos paisagísticos”, como diz o arquiteto
Otávio Urquiza, idealizador desta
ecovila (ou mais precisamente Ecoovila 1) e
coordenador da Arcoo, cooperativa responsável
por todos os passos do projeto.
Baseado nos princípios da Permacultura – metodologia
criada no final dos anos 70 pelo
ecologista australiano Bill Mollison, que procura
atender as necessidades básicas de uma
comunidade de modo sustentável e eficiente,
com baixo custo e evitando danos à natureza – pode-se
dizer que esta Ecoovila 1 é uma espécie
de laboratório vivo de novas formas de morar
e interagir com o espaço cotidiano.
Do total de 28 casas previstas – com dois ou
três dormitórios, e construídas com paredes
duplas,
trazendo isolamento e conforto térmico, no
inverno e verão –, há 21 que já têm
moradores, e
mais duas famílias mudam-se em breve para lá.
Outras cinco residências ainda serão erguidas.
Localizado numa das encostas da Vila Nova,
a partir da rua João Passuelo, o terreno tem um
dos seus 2,5 hectares tomado por uma mata
nativa preservada (o Bosque do Silêncio) que
se espalha por terrenos vizinhos. Na parte alta,
ficam 16 casas; na parte baixa do terreno, situam-se outras 12,
incluindo o prédio simples do
escritório da Arcoo – bem próximo a um pequeno
açude, hoje tomado por plantas, para tratamento
das águas servidas e que será o
desaguadouro futuro dos “córregos paisagísticos”.
Todas as residências, em tijolo aparente e
com pouco menos de 300 m2 de área construída –
com porão ou não, conforme a inclinação
do
terreno e a vontade do morador – seguem um
padrão. Enquanto a camada de ar entre as paredes
duplas evita o excesso de calor no verão
e o frio extremo no inverno, um fogão-lareira
no meio da sala do andar térreo, por meio das
características da escada e por dutos internos,
aquece todas as peças da casa. Um canteiro de
ervas e temperos, pelo mesmo sistema, deverá espalhar
por toda a casa um suave aroma natural.
TELHADOS VIVOS – A complementação
do chamado “conforto térmico” é realizada
pelos telhados vivos. No caso dos terraços isolados
por água, há desde carpas até tartarugas e
lambaris, entre outros peixinhos e plantas aquáticas.
Palavras como “complementar” e “integrado” surgem
com freqüência nas explicações
técnicas do arquiteto, e remetem de certo modo
ao conceito de ciclos existentes na natureza.
Assim, a captação de energia solar pelas placas
e a reutilização e uso racional da água podem
resultar em até 50% de economia financeira e
de desperdício, e para os dois ou três meses do
ano com céu encoberto e menor ensolação é utilizado – de
forma complementar – um pequeno
aquecedor a gás (“o menor do mercado”,
reforça Otávio Urquiza).
Escorado num tripé formado por conceitos
como “paisagismo produtivo”, “infra-estrutura
integrativa” e “edificação solidária” – o
projeto
desta ecovila urbana enfrenta ainda alguns
entraves com órgãos públicos, como a estranheza
de funcionários com as soluções propostas,
legislações
rígidas e antiquadas – e burocracia. “Nosso
poço artesiano com 120 metros de profundidade,
por exemplo, está sendo aprofundado
mais ainda. Acredito que sua utilização ficará para o futuro”, diz o arquiteto.
Já o Bosque do Silêncio, por cuja trilha na mata
se faz a ligação entre as casas das partes alta e
baixa do terreno, conta com um singelo
minhocário, em um tonel cortado ao meio. Singelo
mas eficiente – e integrado: as minhocas são
alimentadas por resíduos crus de alimentos. E terminam
servindo de chamariz para os pássaros. “Por
aqui avistamos sempre aracuãs, pica-paus, sabiás,
bem-te-vis e muitos outros”, informa o coordenador
da Ecoovila. Lagartos, gambás, ouriços
vivem ou circulam pela mata – e até as pegadas
de um gato do mato já foram identificadas.
Agindo
com critérios
O projeto não é fechado às iniciativas
de seus moradores, claro.
O engenheiro civil Carlos Eugênio
Neves, 46 anos, cuja casa está quase concluída, já projeta: “Pretendo
ter minha própria horta orgânica,
fazer o tratamento residual
de lixo e usar composteiras”.
Casado, vai experimentar a nova
vida com a mulher e a filha menor,
de 9 anos. De olho no meio
ambiente e no bolso, Carlos acredita
que apenas com a economia
com ar-condicionado, aliado ao
uso da energia solar, a conta de
luz deve baixar no mínimo 30%.
Água?
Por sua conta, já mandou
instalar dois diferentes botões
nos vasos sanitários da residência,
para três ou seis litros, dependendo do dejeto a ser excluído.
E aí sua iniciativa soma-se ao projeto
geral do condomínio, com a canalização
e filtragem geral das águas
servidas de modo natural, para o
futuro “córrego paisagístico”, que
formará um leito e receberá também
a água das chuvas.
Carlos representa bem a média
dos moradores da ecovila – professores,
funcionários públicos, bancários
e muitos profissionais liberais.
A escolha deste local e destas
características inovadoras de
moradia, para este engenheiro, é coerente com
o que acredita: “Busco
qualidade de vida, mas com
uma visão responsável do meio
ambiente, agindo com critérios”,
define.
Nascendo
com uma nova consciência
Depois de cinco anos morando em
Brasília, a administradora de empresas Patrícia
Duarte, 34 anos, e o marido, o bancário
Edson Schneider, ambos gaúchos, descobriram
na proposta da Ecoovila em Porto
Alegre, através da internet, a chance de
levarem uma vida melhor e fazerem sua parte
na preservação do planeta. Contou muito
para isso, também, o projeto de terem um
filho o quanto antes. “Acho que ele já vai
nascer com uma consciência ecológica”,
projeta Patrícia.
Hoje secretária da Arcoo, ela e o marido
moram há quase três anos no condomínio
da Vila Nova. “Para mim, no dia-a-dia,
o diferencial é que aqui não tem a barulheira
do trânsito, a gente consegue dormir
em paz e o ar é puro”, diz. Mas as características
específicas da ecovila lhe deram alguns
encargos a mais: “Quase sempre eu é que
cuido do telhado vivo. Eu me amarro
ao telhado, tiro o inço, planto, podo as suculentas”...
O marido cultiva uma horta
perto da casa, com pimentão, tomate-cereja,
rabanete, aipim, milho – e muitas flores.
Eles aprenderam a lidar com as
tecnologias alternativas da proposta. As placas
de captação solar garantem o aquecimento
do chuveiro e de quase todas as torneiras da casa.
A chamada “água cinza” (usada dos banheiros) é
encaminhada ao filtro natural que
fica próximo à morada de Patrícia. “Serão
instalados
mais dois ou três filtros naturais para atender
a todas as casas”, explica a secretária da
Arcoo. “Assim, esta água servida vai para a rede
de esgotos já despoluída”. Um dos próximos
passos será a utilização da água das
chuvas.
Olhando para as casas da ecovila, ela reflete: “Nós
somos privilegiados por estarmos vivendo assim, e quanto mais este
tipo de modo
de vida se espalhar, melhor será para a cidade,
para o país e para o planeta”. Que assim seja.
| Operários
também são sócios |
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De acordo com os princípios
cooperativistas da Ecoovila, os 13
operários que erguem as residências
também são cooperativados. “Somos
associados, pois é uma
cooperativa de moradia e de trabalho”,
explica o mestre-deobras
Everaldo Batista da Silva,
50 anos, morador do vizinho
bairro de Belém Velho.
Remuneração melhor, um serviço
certo, seguro em caso de
acidente e um fundo que arca
com o valor do INSS, são algumas
das vantagens trabalhistas
que ele enumera.
“Mas posso te dizer que estou
aprendendo muito aqui.
Logo que eu cheguei,
mentalizei as
primeiras regras:
não se
corta uma árvore,
não se
mata um passarinho. Hoje os
lagartos andam por aí sem
medo da gente, parece que
entendem que aqui não tem
perigo”, relata Everaldo.
Fora das cercas do condomínio,
as lições ambientalistas
também geram resultados. “Lá em casa já botei
uma calha no telhado para recolher a água
da chuva, que cai num tonel.
Ao invés de usar água tratada,
que a gente paga, agora só lavo a calçada
e o carro com essa água da chuva”,
exemplifica. “Enfrentei dois
desafios aqui: um profissional,
por causa das diferenças no
tipo de construção. E outro no
jeito de defender a natureza.
E tento ir passando essas lições
para os meus três filhos. Às vezes,
trago eles aqui para mostrar
como é”.
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Um modelo
em expansão
O conceito criado nos anos 70 pelos cientistas
e ambientalistas Bill Mollison e David
Holmgren, na Austrália, a partir das palavras
permanent agriculture, traduz uma ciência
transdisciplinar. A idéia original – a auto suficiência
doméstica e comunitária, em integração
com a natureza conservada – hoje engloba e combina
arquitetura com biologia, e agricultura com
estudos de floresta e zootecnia.
Há milhares de ecovilas rurais e urbanas em
mais de cem países, inspiradas pela
Permacultura, que atualmente ainda abrange
estratégias financeiras (como o cooperativismo)
para garantir acesso à terra e autofinanciamento.
Alguns dos países em que este conceito mais se
difundiu são a própria Austrália, Alemanha,
Portugal, Inglaterra, Nova Zelândia, entre outros.
Há dezenas de ecovilas e outras entidades
de Permacultura por todo o Brasil, organizadas
em oito institutos de Permacultura, incluindo o
Ipers, no Rio Grande do Sul (fundado em 1998).
Nosso estado tem ainda uma ecovila em Bagé e
outra na região dos Aparados da Serra, em formação.
E a Arcoo já trabalha na implantação de uma
ecovila rural, para 56 famílias de agricultores
familiares, no vizinho bairro de Belém Velho,
também em Porto Alegre, com ênfase na produção
de uvas e vinhos, utilizando uma centenária
tradição da região.