
"Stufo",
"annoiato", "stanco"

operação “Mãos
Limpas” da Itália mantém seu prestígio
como
exemplo para outros países ao mesmo tempo que Berlusconi,
seu alvo maior, ou pelo menos símbolo maior do que combatia,
mantém seu poder. O continuado sucesso de Berlusconi desmente
o
sucesso da “Mãos Limpas”. A faxina, afinal, não
funcionou. Que
exemplo é esse? Mas mesmo fracassando – ou parcialmente
fracassando,
já que se não pegou o capo deu uma boa espanada na
política
italiana – a “Mãos Limpas” ficou como manifestação
de uma sociedade
finalmente se declarando cansada, “stufa”, “annoiata”, “stanca” de tantos anos de corrupção
e impunidade. Valeu menos pelo que
realizou do que pelo sentimento que representou. E que persiste,
mesmo com toda a frustração com as sobrevidas políticas
do
Berlusconi.
No Brasil o espírito das mãos limpas inspira promotores,
delegados
e juízes em ações esporádicas contra
uma tradição de corrupção
e impunidade decididamente italiana, também movidos por um
engulho
nacional. E a frustração é a mesma. Talvez porque
a gente,
como os italianos, tenha uma outra tradição antiga,
a da resignação
a nós mesmos, à convicção de que não
podemos ser diferentes, que
não temos jeito. E assim, entre indignação insatisfeita
e desânimo
atávico, vamos também fazendo nossa higiene pela metade,
nossos
banhos de assento inconclusivos. E temos uma incorrigível
tendência
a mudar de assunto – tudo para adiar uma limpeza de verdade.
Nos escândalos em curso se pensaria que o foco de toda a investigação
e de toda a indignação fosse aquela cena de mandados
do Daniel
Dantas oferecendo dinheiro a um delegado da Polícia Federal
para
maneirar com o patrão. Por uma dessas mágicas brasileiras
o foco
pulou para o Protógenes, o juiz, o Gilberto Carvalho e a cabeleira
do
Cacciola. Não temos jeito mesmo.
Mas a frustração tem seu lado bom. O sentimento de
estar “stufo”, “annoiato” e “stanco” com tudo isso aumenta enquanto
a resignação
diminui. Pouco a pouco, vamos nos tornando menos italianos.
Inclusive os italianos.
O ator Daniel Dantas pode fazer o que ninguém se lembrou
de
fazer no passado. O ator Richard Burton morreu sem interpretar,
na
tela, o explorador e escritor Richard Burton. Nunca pensaram na
atriz Elizabeth Taylor para o papel da escritora Elizabeth Taylor.
O
ator Daniel Dantas, com uma boa maquiagem, pode muito bem interpretar
o banqueiro Daniel Dantas no cinema. Só precisa esperar
para saber como acaba esta história. Se com o banqueiro
herói ou
vilão, comédia ou drama.
