Ano 8 - nº 78
Dezembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã.



Nei Lisboa:
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.
– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram...




Elisa Lucinda:

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver.





Depois de um ano penoso para toda a sociedade, em que o País deve crescer menos de 1%, 2004 vai começar com grandes esperanças de tempos melhores. A expectativa é de que o País volte ao caminho da expansão. O mercado aposta alto em uma elevação do Produto Interno Bruto (PIB) entre 3,5% e 4,5%. Se a projeção se concretizar, será o maior crescimento desde 2002, quando a elevação do PIB foi de 4,5%. “A nossa expectativa é de retomada econômica já no primeiro trimestre do ano”, revela Edmundo Oliveira, assessor especial do ministro Antônio Palocci.

Liège Alves

Brasil: economia deve crescer em 2004


or causa do aumento dos juros para conter a inflação, iniciada nos últimos meses de 2002 e seguida até maio, a economia nacional permaneceu praticamente parada ao longo deste ano. “Foram as exportações que conseguiram manter certo dinamismo no País, porque o mercado interno passou o ano completamente estagnado”, relata o economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Antônio Carlos Fraquelli.

Essa realidade de estagnação, no entanto, parece fazer parte do passado. Os juros, que já chegaram a 26,5% este ano, devem encerrar dezembro em torno de 16% a 17%. Além disso, outros fatores devem favorecer os brasileiros em 2004. O principal deles é o bom desempenho nas contas externas em 2003, que poupou o Brasil de novas dívidas substanciais em dólar.

Graças ao megasuperávit comercial de 2003, ou seja, o diferencial entre a exportação e a importação, o País fechará as contas externas com facilidade. Será o primeiro superávit em transações correntes desde 1992. Na prática isso significa que, neste ano, o Brasil recebeu mais dólares do que enviou ao exterior para os pagamentos de juros das dívidas, juros e lucros das multinacionais. Não vai depender de dinheiro emprestado, pois conseguiu os dólares necessários para o acerto das operações vendendo mercadorias no mercado internacional. “É um resultado a ser comemorado, no entanto, é preciso lembrar que esses US$ 23 bilhões de superávit não devem se repetir em 2004”, afirma o economista da Universidade de São Paulo (USP), Mário Possas.

Esse cenário ocorre porque parte das mercadorias que o Brasil vendeu para outros países deveria ter sido comercializada aqui dentro, mas a economia estava tão fraca que a falta de compradores obrigou os produtores a procurarem novos mercados para compensar. “Conforme o País volte a crescer, as compras internas vão se aquecer e os produtos que foram exportados poderão ser vendidos aqui dentro”, acredita Possas.

Além disso, com o País crescendo, aumentam as importações de produtos finais, de matéria-prima para a indústria e de máquinas e equipamentos para a produção. “Vamos fechar este ano com US$ 70 bilhões em exportações, e importar algo em torno de US$ 47 bilhões”, projeta o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Ferrari Filho. Para 2004, garante ele, o esperado é que as importações cresçam um pouco, para cerca de US$ 50 bilhões a US$ 52 bilhões, e as exportações caiam para perto de US$ 68 bilhões. “O saldo total cai dos atuais US$ 23 bilhões para algo em torno de US$ 17 bilhões”, avalia Ferrari.

Com isso, o País terá que atrair capital externo para fechar as contas, o que implica mais um ano de juros demasiadamente elevados para os padrões internacionais. “Não será como 2003, mas a taxa ainda continuará alta demais para incentivar um boom de investimentos”, explica Possas. Ele lembra que a estimativa do próprio Banco Central (BC) é de que os juros reais fiquem em torno de 8% no final de 2004. Como a inflação esperada é próxima a 6%, isso significa que a Selic deve encerrar 2004 em torno de 14%.

Por incrível que pareça, nenhum dos especialistas se mostra preocupado com a taxa de câmbio para 2004. “Certamente é o indicador mais volátil, mas tem se comportado bem no último ano, e deve permanecer mais ou menos no mesmo patamar atual, girando em torno de R$ 3,00 por dólar”, projeta João Sayad, ex-ministro da Fazenda que ocupou o cargo durante o governo Sarney.

Vale lembrar que em 2002 o câmbio chegou próximo a R$ 4,00 por dólar, o que trouxe de volta o perigo de inflação e foi a razão da política de altos juros realizada pelo governo federal no primeiro semestre deste ano.

Expansão acompanhada de investimentos

Se a retomada econômica parece um consenso, as dúvidas pairam sobre a sustentabilidade desse desempenho. “Não adianta crescer em 2004 e depois passar mais três anos penando, é como dar um passo para frente e dez para trás”, relata o economista da Universidade de São Paulo (USP), Mário Possas.

Ele lembra que, em 2000, quando o Brasil cresceu 4,5%, vieram os problemas. “O apagão mostrou que não há infra-estrutura para sustentar uma economia dinâmica, portanto, eu realmente espero que o crescimento seja acompanhado de um plano de investimentos nesta área”, argumenta o economista.

Pelo menos no discurso, o governo mostra estar consciente dessa realidade. No início de 2004 deve começar a ser implementado o Plano Plurianual de Investimentos, que, de acordo com o projeto da União, prevê incentivos pesados e investimentos diretos em estradas, portos, armazenagem e energia.

Outra preocupação, revelada pelo ex-ministro da Fazenda João Sayad, é sobre como ficarão as contas externas, caso o País volte a crescer de forma sustentável. “As exportações vão diminuir, as importações aumentar, precisaremos de recursos de fora para fechar as contas em dólar. Como vamos obtê-los é que vai determinar nossa trajetória nos próximos anos. Será elevando ainda mais os juros para atrair capital externo? Sinceramente, espero que não”, relata o economista.

Para o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Ferrari Filho, uma política favorável ao País seria justamente o contrário dessa. “Acho que em 2004 o governo deveria ser mais ousado na redução dos juros”, avalia o economista da Ufrgs. Ele lembra que, se a taxa real de 2004 for mesmo de 8%, esse percentual continuará desleal para o setor produtivo. “É uma taxa que atrai recursos para o mercado financeiro, pois é muito difícil que algum segmento do setor produtivo remunere o investidor nesse patamar”, explica.

Além disso, Ferrari defende controle cambial. “É preciso buscar um equilíbrio para que se consiga uma taxa que incentive as exportações e não afete as variáveis internas com grandes oscilações”, explica. Segundo ele, os países que mostram bons desempenhos nos últimos anos, como os asiáticos, o Chile e a China, têm ou tiveram controle cambial. “O Brasil não pode continuar eternamente exposto aos danos do capital especulativo que entra e sai com grande facilidade”, lembra.

Taxa de emprego e reflexos na economia

Se a tendência de queda dos juros permanecer, as vagas de emprego poderão se ampliar no próximo ano. Na avaliação do economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Raul Assumpção Bastos, essas previsões favoráveis podem ser uma realidade se as condições macroeconômicas do País contribuírem. “Este ano foi desfavorável para o mercado de trabalho. O dado mais recente, que é da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA) de agosto, indica que, em comparação com o mesmo período de 2002, houve uma elevação da taxa de desemprego e uma redução do salário médio real e da massa de rendimentos”, diz Bastos. A boa notícia para quem está desempregado é que, com a aproximação do final do ano, tradicionalmente surgem novas vagas. “É uma situação sazonal”, complementa o economista.

Já o panorama para 2004 deverá ser um reflexo direto da perfomance econômica do País. “Não acredito que a economia tenha um desempenho muito expressivo, mas acho que será melhor do que em 2003 e o mercado de trabalho deve acompanhar essa tendência”, enfatiza Bastos. Ao comparar setembro de 2002 com o mesmo período deste ano, a pesquisa indica que a taxa de desemprego apresentou um crescimento de 14,8%.

Em relação a outras regiões metropolitanas brasileiras , os gaúchos ainda desfrutam de um panorama mais favorável. Em agosto, a taxa de desemprego (RMPA) era de 17,8%, enquanto Belo Horizonte registrou 21,0%; Salvador 28,8%; Recife 23,6% e São Paulo 20,0%. Mesmo em vantagem, a mesma pesquisa demonstra que, comparando setembro deste ano e do ano passado, ocorreu uma redução de 1,3% no nível de ocupação e um decréscimo de 11,1% no rendimento médio real dos ocupados na Região Metropolitana de Porto Alegre.

  Estado mostra dinamismo
Como tem ocorrido nos últimos anos, o Rio Grande do Sul deve apresentar crescimento acima da média nacional. “A base produtiva do Estado é focada em dois segmentos que estão crescendo: o agronegócio e as exportações”, justifica o economista da FEE, Antônio Carlos Fraquelli.

Graças ao bom desempenho da agricultura, principalmente da soja, o Estado encerra 2003 na posição de segundo maior exportador do País, a frente de Minas Gerais e atrás apenas de São Paulo. “Em um ano de crescimento tão fraco, temos que comemorar os resultados, pois, graças à exportação, houve certo dinamismo na economia gaúcha este ano”, explica Fraquelli.

O Estado será um dos contemplados pelo conjunto de políticas de incentivo ao crescimento que o governo Lula deve apresentar nos próximos meses. Entre os setores eleitos como prioritários para o governo com apoio do Bndes, vários deles têm forte presença no Estado: móveis, calçados e mármores.







 
José Luis Fiori

O Brasil no mundo
Ao lado dos Estados Unidos, o Brasil e os demais países latino-americanos foram os primeiros estados a nascer fora da Europa. Mas na hora da sua independência, nenhum deles dispunha de verdadeiras estruturas políticas e econômicas nacionais. Nem tinham ou estabeleceram relações entre si, que permitissem falar na...





Polêmicas à parte
“Espero que o polemista que sou e gosto de ser não atrapalhe minhas novelas. Uma coisa é fazer jornalismo ou crônica cultural; outra é fazer ficção. Meus personagens nada têm a ver com minhas brigas e posturas intelectuais”. É com este sentimento que Juremir Machado da Silva lança simultaneamente três novelas reunidas em uma...

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