Depois de um ano penoso para toda a sociedade,
em que o País deve crescer menos de 1%, 2004
vai começar com grandes esperanças
de tempos melhores. A expectativa é de que
o País volte ao caminho da expansão.
O mercado aposta alto em uma elevação
do Produto Interno Bruto (PIB) entre 3,5% e 4,5%.
Se a projeção se concretizar, será o
maior crescimento desde 2002, quando a elevação
do PIB foi de 4,5%. “A nossa expectativa é de
retomada econômica já no primeiro trimestre
do ano”, revela Edmundo Oliveira, assessor
especial do ministro Antônio Palocci.
Liège
Alves
Brasil: economia deve crescer em 2004

or causa do aumento dos juros para
conter a inflação, iniciada nos últimos meses de 2002 e
seguida até maio, a economia nacional permaneceu praticamente
parada ao longo deste ano. “Foram as exportações que conseguiram
manter certo dinamismo no País, porque o mercado interno passou o ano
completamente estagnado”, relata o economista da Fundação
de Economia e Estatística (FEE), Antônio Carlos Fraquelli.
Essa realidade de estagnação, no entanto, parece fazer parte do
passado. Os juros, que já chegaram a 26,5% este ano, devem encerrar dezembro
em torno de 16% a 17%. Além disso, outros fatores devem favorecer os brasileiros
em 2004. O principal deles é o bom desempenho nas contas externas em 2003,
que poupou o Brasil de novas dívidas substanciais em dólar.
Graças ao megasuperávit comercial de 2003, ou seja, o diferencial
entre a exportação e a importação, o País
fechará as contas externas com facilidade. Será o primeiro superávit
em transações correntes desde 1992. Na prática isso significa
que, neste ano, o Brasil recebeu mais dólares do que enviou ao exterior
para os pagamentos de juros das dívidas, juros e lucros das multinacionais.
Não vai depender de dinheiro emprestado, pois conseguiu os dólares
necessários para o acerto das operações vendendo mercadorias
no mercado internacional. “É um resultado a ser comemorado, no entanto, é preciso
lembrar que esses US$ 23 bilhões de superávit não devem
se repetir em 2004”, afirma o economista da Universidade de São
Paulo (USP), Mário Possas.
Esse cenário ocorre porque parte das mercadorias que o Brasil vendeu para
outros países deveria ter sido comercializada aqui dentro, mas a economia
estava tão fraca que a falta de compradores obrigou os produtores a procurarem
novos mercados para compensar. “Conforme o País volte a crescer,
as compras internas vão se aquecer e os produtos que foram exportados
poderão ser vendidos aqui dentro”, acredita Possas.
Além disso, com o País crescendo, aumentam as importações
de produtos finais, de matéria-prima para a indústria e de máquinas
e equipamentos para a produção. “Vamos fechar este ano com
US$ 70 bilhões em exportações, e importar algo em torno
de US$ 47 bilhões”, projeta o economista da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Ferrari Filho. Para 2004, garante ele,
o esperado é que as importações cresçam um pouco,
para cerca de US$ 50 bilhões a US$ 52 bilhões, e as exportações
caiam para perto de US$ 68 bilhões. “O saldo total cai dos atuais
US$ 23 bilhões para algo em torno de US$ 17 bilhões”, avalia
Ferrari.
Com isso, o País terá que atrair capital externo para fechar as
contas, o que implica mais um ano de juros demasiadamente elevados para os padrões
internacionais. “Não será como 2003, mas a taxa ainda continuará alta
demais para incentivar um boom de investimentos”, explica Possas. Ele lembra
que a estimativa do próprio Banco Central (BC) é de que os juros
reais fiquem em torno de 8% no final de 2004. Como a inflação esperada é próxima
a 6%, isso significa que a Selic deve encerrar 2004 em torno de 14%.
Por incrível que pareça, nenhum dos especialistas se mostra preocupado
com a taxa de câmbio para 2004. “Certamente é o indicador
mais volátil, mas tem se comportado bem no último ano, e deve permanecer
mais ou menos no mesmo patamar atual, girando em torno de R$ 3,00 por dólar”,
projeta João Sayad, ex-ministro da Fazenda que ocupou o cargo durante
o governo Sarney.
Vale lembrar que em 2002 o câmbio chegou próximo a R$ 4,00 por dólar,
o que trouxe de volta o perigo de inflação e foi a razão
da política de altos juros realizada pelo governo federal no primeiro
semestre deste ano.
Expansão acompanhada de investimentos
Se a retomada econômica parece um consenso, as dúvidas pairam sobre
a sustentabilidade desse desempenho. “Não adianta crescer em 2004
e depois passar mais três anos penando, é como dar um passo para
frente e dez para trás”, relata o economista da Universidade de
São Paulo (USP), Mário Possas.
Ele lembra que, em 2000, quando o Brasil cresceu 4,5%, vieram os problemas. “O
apagão mostrou que não há infra-estrutura para sustentar
uma economia dinâmica, portanto, eu realmente espero que o crescimento
seja acompanhado de um plano de investimentos nesta área”, argumenta
o economista.
Pelo menos no discurso, o governo mostra estar consciente dessa realidade. No
início de 2004 deve começar a ser implementado o Plano Plurianual
de Investimentos, que, de acordo com o projeto da União, prevê incentivos
pesados e investimentos diretos em estradas, portos, armazenagem e energia.
Outra preocupação, revelada pelo ex-ministro da Fazenda João
Sayad, é sobre como ficarão as contas externas, caso o País
volte a crescer de forma sustentável. “As exportações
vão diminuir, as importações aumentar, precisaremos de recursos
de fora para fechar as contas em dólar. Como vamos obtê-los é que
vai determinar nossa trajetória nos próximos anos. Será elevando
ainda mais os juros para atrair capital externo? Sinceramente, espero que não”,
relata o economista.
Para o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando
Ferrari Filho, uma política favorável ao País seria justamente
o contrário dessa. “Acho que em 2004 o governo deveria ser mais
ousado na redução dos juros”, avalia o economista da Ufrgs.
Ele lembra que, se a taxa real de 2004 for mesmo de 8%, esse percentual continuará desleal
para o setor produtivo. “É uma taxa que atrai recursos para o mercado
financeiro, pois é muito difícil que algum segmento do setor produtivo
remunere o investidor nesse patamar”, explica.
Além disso, Ferrari defende controle cambial. “É preciso
buscar um equilíbrio para que se consiga uma taxa que incentive as exportações
e não afete as variáveis internas com grandes oscilações”,
explica. Segundo ele, os países que mostram bons desempenhos nos últimos
anos, como os asiáticos, o Chile e a China, têm ou tiveram controle
cambial. “O Brasil não pode continuar eternamente exposto aos danos
do capital especulativo que entra e sai com grande facilidade”, lembra.
Taxa de emprego e reflexos na economia
Se a tendência de queda dos juros permanecer, as vagas de emprego poderão
se ampliar no próximo ano. Na avaliação do economista da
Fundação de Economia e Estatística (FEE) Raul Assumpção
Bastos, essas previsões favoráveis podem ser uma realidade se as
condições macroeconômicas do País contribuírem. “Este
ano foi desfavorável para o mercado de trabalho. O dado mais recente,
que é da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana
de Porto Alegre (PED-RMPA) de agosto, indica que, em comparação
com o mesmo período de 2002, houve uma elevação da taxa
de desemprego e uma redução do salário médio real
e da massa de rendimentos”, diz Bastos. A boa notícia para quem
está desempregado é que, com a aproximação do final
do ano, tradicionalmente surgem novas vagas. “É uma situação
sazonal”, complementa o economista.
Já o panorama para 2004 deverá ser um reflexo direto da perfomance
econômica do País. “Não acredito que a economia tenha
um desempenho muito expressivo, mas acho que será melhor do que em 2003
e o mercado de trabalho deve acompanhar essa tendência”, enfatiza
Bastos. Ao comparar setembro de 2002 com o mesmo período deste ano, a
pesquisa indica que a taxa de desemprego apresentou um crescimento de 14,8%.
Em relação a outras regiões metropolitanas brasileiras ,
os gaúchos ainda desfrutam de um panorama mais favorável. Em agosto,
a taxa de desemprego (RMPA) era de 17,8%, enquanto Belo Horizonte registrou 21,0%;
Salvador 28,8%; Recife 23,6% e São Paulo 20,0%. Mesmo em vantagem, a mesma
pesquisa demonstra que, comparando setembro deste ano e do ano passado, ocorreu
uma redução de 1,3% no nível de ocupação e
um decréscimo de 11,1% no rendimento médio real dos ocupados na
Região Metropolitana de Porto Alegre.
Como tem
ocorrido nos últimos anos, o Rio Grande do Sul deve apresentar
crescimento acima da média nacional. “A base produtiva
do Estado é focada em dois segmentos que estão
crescendo: o agronegócio e as exportações”,
justifica o economista da FEE, Antônio Carlos Fraquelli.
Graças ao bom desempenho da agricultura, principalmente
da soja, o Estado encerra 2003 na posição de segundo
maior exportador do País, a frente de Minas Gerais e atrás
apenas de São Paulo. “Em um ano de crescimento tão
fraco, temos que comemorar os resultados, pois, graças à exportação,
houve certo dinamismo na economia gaúcha este ano”,
explica Fraquelli.
O Estado será um dos contemplados pelo conjunto de políticas
de incentivo ao crescimento que o governo Lula deve apresentar
nos próximos meses. Entre os setores eleitos como prioritários
para o governo com apoio do Bndes, vários deles têm
forte presença no Estado: móveis, calçados
e mármores.
|
|