HERMANO VIANNA
Marco
Antonio
Rezende
Folha Imagem |
Antropólogo, pesquisador musical, roteirista,
Hermano Vianna nasceu em João Pessoa (PB) em 1960. Morou
por longo tempo em Brasília e erradicou-se no Rio de Janeiro
em 1978. Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional/ UFRJ é autor
de O mundo funk carioca (Jorge Zahar, 1998), que lhe valeu o Troféu
Amigo do Funk de 1994, e O mistério do samba (Jorge Zahar,
1995), resultado da tese de doutoramento que defendeu em janeiro
do ano anterior. Também trabalha para o cinema e para a
televisão, tendo participado da realização
de programas como African pop, Baila Caribe, Programa legal, Na
geral, Brasil legal, Além-mar e Música do Brasil.
Fez pesquisa musical para inúmeros outros projetos, tendo
participado no filme Eu, tu, eles, de Andrucha Wadginton, além
de escrever artigos para as principais publicações
brasileiras. Atualmente, coordena e é um dos criadores do
projeto Brasil Total, na Rede Globo. Vianna também é conselheiro
informal do ministro da Cultura Gilberto Gil e participa de debates
decisivos para a vida cultural brasileira. Apesar da relevância
de sua produção como autor, o antropólogo
ficou conhecido nacionalmente por conta da tragédia familiar
protagonizada pelo irmão, o músico Herbert Vianna,
há alguns anos, quando assumiu a condição
de porta-voz da família junto à imprensa. Ele é um
crítico fervoroso da forma como o conhecimento é difundido
e filtrado pela grandes e tradicionais universidades primeiromundistas
e distribuído para o resto do mundo. Leia a seguir entrevista
exclusiva concedida ao EC.
Ciência com filtro
César Fraga*
Extra Classe – Em um recente artigo o senhor afirma que a
bibliografia dos principais textos antiimperialistas acaba refletindo
e sendo em si uma aula de imperialismo. Os autores básicos
seriam sempre os mesmos: Karl Marx, Theodor, Adorno, Eric Hobsbawm,
Stuart Hall e por aí afora. Inclusive, o que se publica
de autores terceiro mundistas passaria pelo crivo destas instituições.
Como isso se dá?
Hermano Vianna – Tudo isso é resultado de um longo
processo histórico que tem suas raízes na “descoberta
do mundo” e colonização desse “novo mundo” pelos
europeus. Na época das grandes navegações,
eles já tinham começado a construir a estrutura universitária
e de produção de conhecimento que conhecemos hoje.
Essa rede de universidades, rica e poderosa como se tornou, não
inventou apenas a defesa dos valores que a civilização
ocidental tentava impor para o mundo, mas também possibilitou
e financiou a crítica – por vezes a crítica
mais radical – desses mesmos valores, tentando exportar essa
visão crítica, também bem européia,
para o resto do mundo. Como as universidades européias e
norte-americanas são cada vez mais importantes na economia
das idéias planetárias, com estudantes de todo mundo
recebendo suas formações nos seus campi, elas passaram
a ser a grande referência de qualidade nos mais diversos
campos do saber, passando a exercer o papel de mediadores entre
as produções intelectuais dos vários continentes.
Não existem fortes canais de comunicação científica
direta entre,por exemplo, o Brasil e os países africanos,
ou mesmo latino-americanos, sem passar pelas universidades do “Primeiro
Mundo”. É o tal Primeiro Mundo que nos apresenta os
talentos dos nossos países vizinhos.
EC – Esse aval das grandes universidades do Primeiro Mundo
faz justiça à produção de conhecimento
existente ou essas universidades realmente só divulgam o
que lhes é de interesse? Isso lhe parece intencional ou
um fenômeno espontâneo a ser corrigido?
Vianna – Não devemos encarar esta situação
como um complô malévolo. É claro que existem
muitas pessoas preocupadas com esse tipo de problema que eu aponto
lecionando ou ocupando cargos importantes nas universidades norte-americanas
e européias, gente muito atenta ao que acontece de interessante
no mundo das idéias planetárias. Outras instituições,
como a que mantém o Prêmio Nobel, sempre exerceram
um papel político no sentido de dar espaço para literaturas
e pensamentos do mundo inteiro. O que eu reclamo é que esses
sejam nossos únicos canais de comunicação
com o resto do mundo. Deveríamos ser capazes de fazer nossas
próprias descobertas e estabelecer nossos próprios
contatos transcontinentais sem depender da Europa ou dos Estados
Unidos.
EC – Quem estaria na galeria dos injustiçados? Cite
alguns exemplos e sua área de atuação?
Vianna – Acho que basta citar alguns grandes nomes da literatura
brasileira que ainda são grandes desconhecidos no panorama
internacional. Por exemplo: João Cabral. Sabemos que ele é um
dos maiores poetas que o mundo já teve. Mas poucos estrangeiros
sabem disso. Foram poucas as traduções de João
Cabral para outras línguas. Imagino que devem ter vários
casos como João Cabral em outros países, que não
são conhecidos entre nós porque não foram
descobertos pelas universidades e editoras da Europa e dos Estados
Unidos.
EC – Como o acadêmico incauto pode driblar
essa realidade e ter acesso a esse conhecimento?
Vianna – Tem que estabelecer uma rede de comunicação
paralela, que não dependa dos grandes centros mundiais.
Tem que trabalhar para que sua universidade estabeleça parcerias
com centros acadêmicos de outros países do mundo.
Tem que cultivar independência de interesses. Tem que fazer
amizades em outros países, fora os óbvios. Tem que
ser curioso, e usar todos os meios para estabelecer contato com
o mundo.
EC – E no Brasil, que pensamentos e pensadores deveriam freqüentar
esse meio, restrito aos “escolhidos”?
Vianna – Para ficar com o perto: há uma produção
cultural enorme e muito variada nos nossos países vizinhos
da América do Sul. Mas muitas vezes assumimos como nossos
os preconceitos de gente colonialista que acha que só há coisa
interessante acontecendo no “Primeiro Mundo”. Estamos
assim desvalorizando nossa própria vida intelectual, achando
que tudo que produzimos aqui vale menos do que nos chega com o
aval da Europa ou dos Estados Unidos.
EC – A internet e os grupos de debate, de certa forma, ajudam
a furar esse tipo de bloqueio ou a democratização
provocada pela web é só um mito?
Vianna – A internet é um excelente caminho para estabelecer
novas parecerias intelectuais com gente de todos os lugares. Mas é preciso
saber procurar os parceiros. A maioria dos brasileiros vive em
sites brasileiros e em sites europeus e norte-americanos. O que é uma
pena.
EC – Qual a responsabilidade das editoras na cristalização
dos nomes dos autores chancelados pelas grandes universidades como
sendo legítimos representantes do que há de melhor
produzido pela humanidade?
Vianna – As editoras brasileiras geralmente escolhem seus
lançamentos internacionais nas grandes feiras do livro européias,
entre os livros publicados pelas grandes editoras européias
ou norte-americanas, ou nos livros elogiados nas revistas do “Primeiro
Mundo”. O que também é uma grande pena. Poderíamos
sim ter uma política editorial mais independente. Mas para
isso precisamos de mais coragem, inquietação e curiosidade. É fácil
seguir as receitas de bom-gosto dos países ricos. É muito
cômodo! Não se corre nenhum risco...
EC – Essa preleção parece não se restringir
apenas aos pensadores, mas também aos objetos de estudo.
Quais os temas preteridos pelo debate acadêmico, que se considera
alta cultura, e como deveriam ser contemplados?
Vianna – Quase nada conhecemos sobre novos estudos africanos,
ou asiáticos. Mas não acho que o privilégio
da “alta cultura” seja um grande problema. Os pensamentos
europeu e norte-americano já fizeram a crítica desse
privilégio. Hoje eles até incentivam mais o estudo
sobre temas de fora da alta cultura, com uma grande quantidade
de publicações que não acompanhamos profundamente
no Brasil.
EC – O senhor tem um trabalho bem focado em fenômenos
da cultura popular de massa, o rap e o funk carioca. A academia,
a sociedade e as mídias têm visto esses fenômenos
com a atenção merecida?
Vianna – A atenção é variada. O rap
sempre mereceu o respeito acadêmico. Há muitos estudos
publicados sobre o assunto. Já o funk carioca demorou mais
a ser levado a sério. Mas isso começa a mudar. O
que mais sinto falta é de uma reflexão mais sistemática
sobre a televisão brasileira. Estudar TV ainda é considerado
uma coisa ”menor”, que dá menos status acadêmico
do que estudar teatro ou cinema por exemplo. Isso para mim é quase
uma tragédia cultural, diante da importância que a
TV tem no Brasil.
EC – Historicamente buscamos referenciais de alta cultura
fora do Brasil. Na sua visão, existe essa diferenciação
entre alta e demais graduações culturais? Como e
o que valorizar do que é produzido no Brasil?
Vianna – Também buscamos os referenciais pop, de cultura
de massa fora do Brasil. Acho que são dois problemas diferentes,
de níveis diferentes. Não estou advogando que viremos
as costas para a produção intelectual européia
ou norte-americana. Respeito muitíssimo essa produção,
e não seria quem sou nem pensaria o que penso sem ela. Apenas
acho importante variar um pouco de dieta intelectual, abrir o leque...
Mas também não acho muito interessante continuar
tentando dividir o mundo da cultura em altos ou baixos. Tudo sempre
foi bem misturado. E é cada vez mais misturado. Veja como
a música eletrônica das massas de hoje tem contato
fértil com tudo que a música erudita contemporânea
(eletro-acústica, concreta etc) produziu recentemente. A
mesma coisa acontece nas artes plásticas. Como classificar,
por exemplo, o trabalho de Andy Warhol e de todo mundo que tem
influência de Andy Warhol em seu trabalho?
EC – O senhor tem participado, como roteirista, de programas
televisivos, inclusive da rede Globo. Como programas, como foi
a experiência com o Brasil Legal, podem contribuir para a
formação de consciência e identidade do povo
brasileiro? Há algum projeto futuro nesse sentido?
Vianna – Como a TV é o principal meio de distribuição
de informações no Brasil, e praticamente todos os lares brasileiros
têm TV, não dá mais para pensar o Brasil sem pensar a TV,
como o Brasil é visto na TV, um Brasil que é inventado todos os
dias na TV e que se inventa vendo TV. O Brasil Legal era apenas mais um olhar
sobre o Brasil, um olhar que procurava privilegiar a diversidade de modos de
vidas brasileiros. Porém o Brasil Legal era resultado do olhar de uma
equipe carioca viajando pelo Brasil. No Brasil Total, projeto que coordeno no
momento também para TV Globo, a idéia é formar uma rede
de equipes sediadas em todos os lugares do país, que possa produzir programas
colocando seu olhar regional no ar, para todo o Brasil e, se possível,
para todo o mundo.
EC – O senhor esteve bem no centro da polêmica que envolveu a comunidade
da Cidade de Deus e os cineastas que realizaram a película. Esse tão
falado novo cinema brasileiro faz justiça à realidade da periferia
ou ainda está muito preso aos conceitos de cinema do Primeiro Mundo e
seus cacoetes?
Vianna – Qualquer filme sempre vai ser uma das interpretações
possíveis sobre qualquer realidade. Não é possível
captar a realidade como ela é, sobretudo quando estamos tentando retratar
uma sociedade complexa, produto da interação de grupos com diferentes
pontos de vista, estilos de vida e objetivos políticos. O importante é que
haja espaço para os diferentes pontos de vista se expressarem e possamos
ter contato com várias interpretações distintas sobre a
realidade. Gosto de ver novos filmes brasileiros fazendo sucesso e causando polêmicas.
EC – A que distância a TV está disso tudo?
Vianna – A TV, bem ou mal, está no meio de tudo isso. Vide o sucesso
de Cidade dos Homens na TV Globo ou o sucesso do Ratinho.
EC - Como o senhor descreveria a sua atuação junto ao Ministério
da Cultura e do próprio ministro Gilberto Gil?
Vianna – Sou amigo, há bastante tempo, do ministro. Colaboro com
o ministério por amizade e por achar que esse é meu dever como
cidadão brasileiro. Acho que temos uma oportunidade excelente no governo
Lula de colocar em prática muitas das idéia que estamos discutindo
há anos. É hora de arregaçar as mangas, de fazer boas propostas,
de colaborar com as boas propostas. Isso é bem mais difícil do
que ficar reclamando.
EC – O que o senhor considera como políticas culturais necessárias
para o Brasil? O que é o ideal e o que é possível?
Vianna – Para responder a essa pergunta teria que escrever vários
livros. Mas para ser bem breve e pessoal: tenho interesse especial em projetos
que potencializem a diversificada produção cultural das periferias
das grandes cidades brasileiras. Há muita coisa interessante acontecendo,
muitos grupos culturais fazendo trabalhos importantes nesses lugares “marginalizados”.
Vide o Afroreggae em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, ou o Alpendre,
no Poço da Draga, em Fortaleza. Mas até agora são trabalhos
isolados. O governo não precisa levar cultura para esses lugares. Esses
lugares já produzem sua própria cultura, de alta qualidade. O que
o governo pode fazer é tornar possível uma rede nacional de todos
essas grupos para fortalecer o trabalho de cada um deles. Interesso-me também
por todas as iniciativas de inclusão digital através da arte. É preciso
que os jovens das periferias brasileiras tenham logo acesso público a
computadores que se transformem em ferramentas de programação de
música, tv digital, internet, jogos eletrônicos, software livres.
Não vejo futuro para o Brasil sem a formação de uma cultura
digital popular.
EC – Há previsão de lançamento de algum novo livro,
o senhor está envolvido em algum projeto no momento?
Vianna – O Brasil Total e minha colaboração com o MinC já tomam
todo o meu tempo. Mas quero ter mais tempo para escrever mais em jornais. Há muita
coisa interessante acontecendo no mundo passando despercebida na imprensa brasileira.