Polêmicas à parte
César Fraga
“Espero
que o polemista que sou e gosto de ser não atrapalhe
minhas novelas. Uma coisa é fazer jornalismo ou
crônica cultural;
outra é fazer ficção. Meus personagens
nada têm a ver com minhas brigas e posturas intelectuais”. É com
este sentimento que Juremir Machado da Silva lança
simultaneamente três novelas reunidas em uma coleção
publicada pela Editora Sulina, chamada Mitomanias. Três
histórias, três livros (Nau frágil,
Ela nem me disse adeus e Adiós, Baby). Sexo, violência
e obsessões são o motor das histórias
vividas por personagens limítrofes, supostamente
protegidos pela aparente normalidade, todos,porém,
desfrutando das mesmas impossibilidades. Juremir também é autor
dos romances Cai a noite sobre Palomas, Viagem
ao extremo sul da solidão e Fronteiras; é colunista
do jornal Correio do Povo, escritor, tradutor e professor da
PUCRS. Veja
abaixo conversa exclusiva que o EC manteve com o autor: |
Foto:
René Cabrales

Para Juremir a novela é
síntese do imaginário
contemporâneo |
Extra
Classe – O que levou o senhor a optar pelo formato
de novela?
Juremir Machado – Sou um apaixonado pelo gênero novela.
Acho que é muito diferente do romance. Não é só uma
questão de número de páginas. É,
antes de tudo, um procedimento narrativo diferente. Para um tempo
e uma cultura como a nossa, de aceleração e de
gosto pela crônica, a novela me parece a própria
síntese de um imaginário.
EC – Qual a motivação inicial para produzir
esses três volumes exercitando vários estilos de
narrativa?
Juremir – Na verdade, eram três novelas para um volume
só. Mas decidimos facilitar a vida dos leitores, separando
cada novela em um pequeno volume, o que permite preços
unitários mais baratos e autonomia para comprar uma e
não as outras. Afora isso, o que me encanta na literatura é a
possibilidade de experimentar tudo, de mudar de estilo, de ser
errante, nômade, volátil. Eu me considero um escritor
pós-moderno, apaixonado pela fluidez, pelo fragmento,
pelo mosaico, pelo ecletismo.
EC – O senhor acredita na existência de uma literatura
especificamente gaúcha? Como situaria o seu trabalho em
relação ao contexto regional?
Juremir – Tenho certeza de que, de algum modo, existe uma
literatura gaúcha, assim como existem literaturas regionais
por toda parte. Mas isso não significa impermeabilidade.
Ninguém está isolado ou livre de influências.
Eu já escrevi um romance, “Fronteiras”, considerado
por alguns como regionalista. Mas, para mim, é outra coisa:
um arranjo cosmopolita, ou pós-moderno, para temáticas
em princípio, exclusivas do regionalismo gaúcho.
EC – Como o senhor definiria a cena cultural gaúcha
atual com relação com à mídia?
Juremir – É uma relação inadequada.
Vivemos de simulacros. A mídia não é capaz
de revisar seus critérios e deixa-se engolir pelos efeitos
perversos. Na Feira do Livro, por exemplo, o mais vendido é colocado
sob a luz total dos holofotes mesmo que seja um livro de receitas,
o que é uma deturpação da idéia de
destaque pela venda. Resultado: ficamos orgulhosos de uma feira
cultural e temos como obras mais comentadas e compradas pequenos
volumes culinários. Ninguém critica isso para não
ficar mal com os outros. Temos uma mídia que só se
interessa por indústria cultural e uma comunidade cultural
que tem medo de criticar a mídia e aceita a simulação
como verdade. Vivemos de ilusões.
EC – Qual o seu próximo projeto em livro?
Juremir – Estou mergulhado num livro sobre Getúlio
Vargas, que se chamará “Getúlio”. Montei
uma biblioteca sobre Vargas e quase só leio sobre isso
nos últimos tempos.