A Síndrome dos Dez Anos
Francisco Fragoso*
Gostaria de falar hoje, até para fazer jus ao jornal para o qual
escrevo, a respeito da opção pela carreira de professor
de escola particular em detrimento de outras profissões. Essa,
pela tendência atual, está com uma média de vida
ativa encurtada. As escolas, que se autoproclamam modernas e progressistas
sem deixar de ‘valorizar o humano’, ‘preparar para
a vida’ ou ‘formar líderes’, regridem quase à barbárie
no trato com o educador com mais de dez anos de casa.
Os administradores acabam esquecendo o que realmente importa numa escola
moderna e preparada, que quer receber e manter seus estudantes: um corpo
docente de primeira linha, apoiado instrumentalmente e seguro profissionalmente;
uma política de RH com competência suficiente para planejar
a escola; uma prática pedagógica coerente com o que está escrito
nas dezenas de outdoors espalhados pela cidade; uma escola cujos critérios
para dispensar um professor sejam claros e nos quais não conste
como agravante o maior tempo de serviço. A continuar essa tendência,
a dita economia na folha de pagamento começa a tornar concreta
a perda acelerada da qualidade de ensino, o desencantamento dos pais,
o êxodo dos alunos e o embrutecimento nas relações
profissionais. Uma vitória de Pirro.
Se as escolas estão mal financeiramente e/ou fechando as portas,
como estamos acompanhando, cada vez com maior freqüência,
isso, sem dúvida alguma, pode ser atribuído a sucessivas
más gestões. Só assim pode-se achar explicações
para escolas centenárias, ou quase centenárias, fecharem
suas portas.
Aí, quando essas escolas resolvem encerrar suas atividades, as
mantenedoras arrendam ou vendem os prédios e demais ativos, negociam
o passivo trabalhista e tocam suas vidas normalmente. Os pais que se
virem à procura de outro lugar para seus filhos estudarem. E os
professores? Esses são simplesmente dispensados. Toda sua dignidade
se desfaz pela incompetência alheia. Ao ser dispensado abruptamente,
transforma-se num fantasma com um currículo na mão. Quem
dará emprego a um professor com mais de 45 anos?
Ao atingir o patamar dos dez anos, após ter ensinado várias
gerações, o educador começa a ficar inseguro e,
por vezes, depressivo com a chegada do final do ano, época em
que, invariavelmente, seus préstimos serão avaliados pelo
salário e vantagens (!) e não mais pela competência.
Ele vê-se frente a uma triste realidade e um tremendo paradoxo:
tornou-se ‘caro’ mesmo recebendo um salário muitas
vezes não condizente com a sua qualificação e preparo.
É
uma lógica perversa e utilitarista, própria das economias
excludentes, em que o lucro é o axioma maior. É o resultado
da migração de escola para empresa, de pais para clientes
e de alunos para consumidores. É, as escolas estão desaprendendo
a ensinar. Haverá volta?
*Contabilista, escritor, ex-diretor da Federapars
(facempresa@cpovo.net)
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