Ano 8 - nº 78
Dezembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã.



Nei Lisboa:
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.
– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram...




Elisa Lucinda:

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver.





A Síndrome dos Dez Anos

Francisco Fragoso*

Gostaria de falar hoje, até para fazer jus ao jornal para o qual escrevo, a respeito da opção pela carreira de professor de escola particular em detrimento de outras profissões. Essa, pela tendência atual, está com uma média de vida ativa encurtada. As escolas, que se autoproclamam modernas e progressistas sem deixar de ‘valorizar o humano’, ‘preparar para a vida’ ou ‘formar líderes’, regridem quase à barbárie no trato com o educador com mais de dez anos de casa.

Os administradores acabam esquecendo o que realmente importa numa escola moderna e preparada, que quer receber e manter seus estudantes: um corpo docente de primeira linha, apoiado instrumentalmente e seguro profissionalmente; uma política de RH com competência suficiente para planejar a escola; uma prática pedagógica coerente com o que está escrito nas dezenas de outdoors espalhados pela cidade; uma escola cujos critérios para dispensar um professor sejam claros e nos quais não conste como agravante o maior tempo de serviço. A continuar essa tendência, a dita economia na folha de pagamento começa a tornar concreta a perda acelerada da qualidade de ensino, o desencantamento dos pais, o êxodo dos alunos e o embrutecimento nas relações profissionais. Uma vitória de Pirro.
Se as escolas estão mal financeiramente e/ou fechando as portas, como estamos acompanhando, cada vez com maior freqüência, isso, sem dúvida alguma, pode ser atribuído a sucessivas más gestões. Só assim pode-se achar explicações para escolas centenárias, ou quase centenárias, fecharem suas portas.

Aí, quando essas escolas resolvem encerrar suas atividades, as mantenedoras arrendam ou vendem os prédios e demais ativos, negociam o passivo trabalhista e tocam suas vidas normalmente. Os pais que se virem à procura de outro lugar para seus filhos estudarem. E os professores? Esses são simplesmente dispensados. Toda sua dignidade se desfaz pela incompetência alheia. Ao ser dispensado abruptamente, transforma-se num fantasma com um currículo na mão. Quem dará emprego a um professor com mais de 45 anos?

Ao atingir o patamar dos dez anos, após ter ensinado várias gerações, o educador começa a ficar inseguro e, por vezes, depressivo com a chegada do final do ano, época em que, invariavelmente, seus préstimos serão avaliados pelo salário e vantagens (!) e não mais pela competência.

Ele vê-se frente a uma triste realidade e um tremendo paradoxo: tornou-se ‘caro’ mesmo recebendo um salário muitas vezes não condizente com a sua qualificação e preparo.

É uma lógica perversa e utilitarista, própria das economias excludentes, em que o lucro é o axioma maior. É o resultado da migração de escola para empresa, de pais para clientes e de alunos para consumidores. É, as escolas estão desaprendendo a ensinar. Haverá volta?


*Contabilista, escritor, ex-diretor da Federapars
(facempresa@cpovo.net)


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