
Antipatriotas
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável
de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo
e em que só vão ganhar os empresários amigos
do governo presenteados com contratos milionários para tentar
recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro
do Vietnã. Quem diz isto não sou eu, um perigoso
bolchevique, nem qualquer outro previsível antiamericano,
mas os candidatos do Partido Democrata à Presidência
dos Estados Unidos, sob aplausos entusiasmados da platéia,
nos sucessivos debates que têm feito. Muitos dos candidatos
apoiaram a guerra no começo, mas hoje todos caem em cima
de Bush, Cheney, Rumsfeld e os falcões conservadores que
levaram o país a este desastre.
Como a economia americana dá sinais de estar melhorando e a maioria do
público eleitor, dizem as pesquisas, ainda apóia Bush e a sua guerra,
nenhum dos democratas que se apresentaram parece ter muita chance nas eleições
que vêm aí. O que pintou como o mais elegível, Wesley Clarke
(herói de guerra, boa-pinta), não tem se saído bem nos debates
e tem um olhar paradão meio assustador. Mas a campanha presidencial esquenta
a controvérsia sobre a guerra que divide democratas e republicanos, conservadores
e “liberais” e a imprensa, onde analistas e colunistas de um lado
e de outro se xingam mutuamente como não faziam desde - bom, desde a guerra
do Vietnã.
A resposta dos republicanos às críticas dos candidatos democratas é sugerir
que quem é contra Bush é a favor do terror e quem questiona o que
foi feito no Iraque é antipatriota. Reação indignada dos
democratas. Golpe baixo. Os republicanos batem mais. Seria divertido ver de fora
se não estivesse em jogo, na paróquia americana, a saúde
do planeta todo.
Trazendo o assunto para o quintal: a acusação de uma espécie
de antipatriotismo também espera quem apoiou e agora questiona o governo
esquizofrênico do Lula. Até que ponto a crítica decepcionada
ao governo é cúmplice involuntária de quem não quer
o sucesso da esquerda no Brasil, mesmo de uma esquerda que diz que nunca foi?
Mas enfim, já é folclórico que a esquerda brasileira sempre
se divide e por isso perde todas. E, se enquanto lá em cima decidem as
nossas vidas, o que nos resta aqui na periferia é o folclore, só estamos
cumprindo nosso papel histórico.
