HANS-ULRICH TREICHEL Modernos, perdidos e sem-pátria
Os textos dele já foram comparados aos de grandes nomes
como Franz Kafka, Peter Weiss, Arno Schmidt, Ernst Jünger,
Etzenberger e Thomas Bernhardt. O judeu tcheco Kafka também
foi uma de suas influências literárias, assim como
Thomas Mann e Philip Roth. Quando jovem, tocou piano e guitarra
elétrica. Mas, quando percebeu que não era bom o
suficiente, acabou desistindo de ser músico. A arte, entretanto,
continuou a ter papel importante em sua vida, com reflexos em sua
literatura. Hans-Ulrich Treichel, 52 anos, considerado um dos mais
destacados autores germânicos contemporâneos, esteve
pela primeira vez no Brasil, durante a 50ª Feira do Livro
de Porto Alegre, para autografar dois títulos, O Perdido
(Der Verlorene) e O Acorde de Tristão (Tristanakkord), ambos
editados pela Companhia das Letras. Nascido na pequena cidade alemã de
Versmond (Vestfália), Treichel é autor de livros
de poesia e de libretos para uma dezena de óperas para o
compositor de vanguarda Hans-Werner Henze, cuja obra o inspirou
a escrever, em 2000, O Acorde de Tristão. É ainda
autor de textos líricos, textos sobre ciência literária
e ensaios. Vivendo atualmente em Berlim, Treichel leciona no Instituto
Alemão de Literatura, na Universidade de Leipzig desde 1995.
Embora já fosse escritor conhecido por vários volumes
de poesia, a consagração mundial aconteceu em 1998,
quando lançou seu romance de estréia, O Perdido,
atraindo a atenção de milhares de leitores ao ser
traduzido para 21 idiomas.
Foto:
Inês Arigoni
“
Meu estilo está estreitamente associado à minha perspectiva
do mundo, e não tenho outra opção”,
explicou Treichel numa concorrida mesa de debates promovida pela
Câmara Rio-Grandense do Livro, o Instituto Goethe e a Sociedade
Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA), durante a Feira do
Livro.
Na tarde deste mesmo dia, num local que não poderia ser
menos sugestivo – a biblioteca do Instituto Goethe, de Porto
Alegre –, Hans-Ulrich Treichel conversou com o Extra Classe.
Em tom agradável e fala pausada, quase confessional, Treichel
falou sobre literatura, a Alemanha pós-queda do Muro de
Berlim (fato que no último dia 9 de novembro completou 15
anos), e o sentimento de estar perdido na sociedade atual.
Keli Lynn Boop Extra Classe – Como o senhor se sente com a afirmação
feita pelo escritor gaúcho, Luiz Antonio de Assis Brasil,
que declarou recentemente que trocaria toda sua obra por poder
ter escrito as duas primeiras páginas de O Perdido?
Hans-Ulrich Treichel – Eu me sinto muito honrado e aceito
humildemente a declaração do Assis Brasil, foi uma
grande generosidade dele.
EC – Seu segundo romance, O Acorde de Tristão (Trista-nakkord,
2000), é uma história em torno de um escritor recém-formado
que vive do seguro social e que acaba sendo contratado para escrever
a autobiografia de um compositor erudito. O senhor compõe
libretos para óperas, toca piano e guitarra elétrica.
Qual a dimensão e a importância da música
em sua vida?
Treichel – A música sempre foi um sonho para mim
e um objetivo a perseguir. Sempre sonhei em poder compor eu mesmo
as músicas. Tive aulas de piano e de guitarra, mas chegou
um momento em que reconheci que meu talento não chegava à qualidade
que eu esperava de mim mesmo. Mais tarde, só fazia imitação
de tocar guitarra. A música sempre foi uma área
de escape/escapismo do pequeno mundo limitado de minha cidade
natal e dos limites estreitos da vida provinciana, mas continua
sendo o meio mais inatingível de expressão. Contudo,
a fascinação pela música continua enorme
porque a música consegue, da melhor forma, exprimir afetos
e emoções. Isso tanto para a música pop,
Beatles e Rolling Stones, que falaram a minha geração,
mas também para ópera lírica, Verdi, até a
opera contemporânea de Hans-Werner Henze. Aos poucos, fui
reconhecendo que o meio de eu me expressar não era a música,
e sim a palavra. Mas também na literatura, na linguagem
e na palavra, a musicalidade tem um papel importante, tanto na
poesia – gênero no qual comecei a escrever – como
na prosa – que também deve ter um fluído
rítmico.
EC – O judeu tcheco Kafka, o alemão de sangue brasileiro
Thomas Mann e o americano Philip Roth foram citados pelo senhor
como autores que o influenciaram. Embora sejam autores com características
literárias distintas, uma das características encontradas
nas obras deles é a ironia. A ironia também está presente
em sua obra?
Treichel – Concordo com a pergunta e confirmo que a ironia
tem um papel importante na minha obra. Sempre gosto de frisar
que a ironia e a melancolia correm juntas, paralelas. Acho que
a melancolia talvez tenha mais força na minha poesia,
e outras vezes a ironia na prosa, isso é alternado. A
ironia seria um meio de lutar contra a melancolia, de se contrapor.
EC – O senhor já declarou que é preciso
uma certa obsessão e condição neurótica
para escrever. Soube que o senhor escreve dia-riamente, mesmo
em viagens. Quantas horas escreveu hoje?
Treichel – Hoje escrevi bem pouco. Tento escrever alguma
coisa todos os dias e, quando estou escrevendo um romance, escrevo às
vezes o dia inteiro. Como sou professor, não é sempre
que consigo escrever todos os dias. É muito importante
para mim ter sempre um texto já começado no computador,
aí procuro me manter sempre em contato com este texto
que já comecei.
"Acho
que em uma
determinada idade,
principalmente na
puberdade e
adolescência, a
violência acaba
fazendo parte do
desenvolvimento da
personalidade dos
jovens."
EC – Como o senhor leciona no Instituto Alemão
de Literatura, deve ter uma relação direta com
a educação. No Brasil, assim como nos Estados Unidos,
temos o problema da questão da violência em sala
de aula. Isto ocorre em seu país?
Treichel – Recentemente houve uma avaliação
dos cursos de ensino médio na Europa, e a Alemanha recebeu
uma nota muito baixa em Educação. Não dá para
comparar com os Estados Unidos. Há uns dois anos, mais
ou menos, houve um caso de um aluno que atirou nos colegas e
matou professores. Foi uma exceção à regra
total. Um caso isoladíssimo. Acho que em uma determinada
idade, principalmente na puberdade e adolescência, a violência
acaba fazendo parte do desenvolvimento da personalidade dos jovens.
EC – Como é o
sistema educacional na Alemanha?
Treichel – O sistema de educação alemão é totalmente
público e democrático. Não existe nenhuma
universidade particular e há muitas bolsas para alunos
de pouca renda. Quando o aluno chega no período do vestibular,
ele tem que ter uma nota específica para entrar em alguns
cursos, podendo, então, escolher o curso e a universidade
que quer freqüentar, mas tudo vai depender da nota do aluno.
EC – O senhor vive em Berlim e trabalha em Leipzig. Como é a
ex-capital do Reich alemão 15 anos após a queda
do Muro? Há algum resquício daquele que já foi
considerado uma das maiores esquizofrenias geopolíticas
que o mundo já teve?
Treichel – Falei sobre isso dias atrás em uma das
palestras que proferi aqui no Brasil. Ainda se sente muito, mas
está recrudescendo agora. É difícil comprovar
concretamente, mas há um sentimento e continua havendo
a oposição entre o leste e o oeste. Os salários
são diferentes. No Oeste é tudo problemático,
o desemprego é maior do que no leste. Uma inovação é que
atualmente o centro de Berlim, que era do lado oriental, pertence
a todos os alemães. Todos os teatros importantes do lado
oriental se tornaram importantíssimos. Em função
disso, o lado ocidental ganhou muito com novas experiências
com a nova energia do lado oriental.
Foto:
Inês Arigoni
EC – Seu mais recente romance Der Irdiche Amor é uma
sátira. Fala de um estudante de história da arte
sem talento que prepara uma tese sobre Caravaggio, O Acorde de
Tristão fala sobre um escritor recém-formado que é contratado
para escrever a autobiografia de um músico, e O Perdido é baseado
numa experiência biográfica de seu irmão
mais velho que se perdeu durante a fuga das tropas russas. Como
surgem os personagens de seus romances e o que o inspira a criá-los?
Treichel – Todos os meus personagens são meus parentes
e aparentados comigo. Não são totalmente idênticos,
porém dividem as minhas experiências. São
parentes de mim mesmo, mas não são iguais a mim
[risos].
EC – É possível as pessoas encontrarem suas
identidades através da arte e da literatura?
Treichel – Acho muito difícil o encontro
do ser humano com ele mesmo. Não acredito. A literatura
pode ajudar a estabelecer de novo a proximidade entre as pessoas.
Escrevi O Perdido como uma história bem pessoal, quase
autobiográfica, um destino bem particular de uma família.
O livro foi traduzido para várias línguas, até para
o tailandês. Consegui, com este livro, que a minha pequena
história fosse compreendida mundo afora. Aí, sim, é que
há um contato, uma proximidade entre a minha experiência
de vida com pessoas completamente estranhas, e isso me deixou
uma sensação muito boa. Concordo que as pessoas
estão relativamente perdidas na sociedade moderna. Metafisicamente
seriam pessoas sem pátria, sem terra natal.
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