Pesquisa eleitoral em debate
Espera-se muito das pesquisas devido a uma mistificação
da atividade pela mídia. O marketing está substituindo
a política nas eleições. Os meios de comunicação
divulgam mal e de forma distorcida os resultados das pesquisas
eleitorais. Os pesquisadores querem criar um conselho de auto-regulamentação
da atividade para que, somado à legislação,
contribua para a transparência da atuação dos
institutos de pesquisa durante o processo eleitoral. Essas foram
algumas das conclusões do debate, nem sempre de consenso,
realizado entre representantes dos principais institutos de pesquisas
brasileiros em encontro promovido pela Sociedade Brasileira de
Pesquisa de Mercado (SBPM) e pela Associação Brasileira
de Empresas de Pesquisa (Abep), no dia 18 de novembro, em São
Paulo. Durante o encontro, as discussões giraram em torno
de três questões básicas: resultados (pesquisa
x pleito); pesquisa eleitoral e divulgação; legislação
e regulamentação.
O Extra Classe participou do debate.
César Fraga

ara
a presidente da SBPM,
Adélia Franceschini, que dirigiu a mesa do debate, ao mesmo tempo em que
são vilanizadas, as pesquisas
são excessivamente valorizadas e mitificadas durante os processos eleitorais.
Em outras palavras, “pesquisas influenciam o voto, mas não vencem
nem decidem eleições, e, antes de mais nada, podem errar”.
Por outro lado, quando uma pesquisa com o aval, a grife ou a chancela de um instituto
de renome, como Ibope, Vox Populi ou Datafolha, chega às redações
dos jornais, passa a ter um status de verdade para a imprensa; após publicada,
terá o status de verdade para a opinião pública. Se houver
erro em algum ponto do processo ou na interpretação editorial dos
números, já será tarde demais”, pondera.
Para Gustavo Venturi (ex-Datafolha), diretor da Criterium Assessoria em Pesquisa,
o eleitorado é o lado mais desprotegido. Ele ao mesmo tempo é fonte
de informação e alvo do marketing político. “Ou seja,
ele vai colaborar com informações para uma pesquisa que está sendo
feita e não conta com o conjunto de informações de quem
preparou aquilo e que será divulgado para influenciá-lo de alguma
maneira.”
A forma como os veículos divulgam os resultados também é bastante
criticada. Raquel Moreno, presidente do conselho da SBPM, diz o seguinte: “É preocupante
o uso propagandístico que se faz da pesquisa na produção
da notícia – inclusive como houve em São Paulo – ,
elevando ao nível de manchete uma informação que, se não é errada,
pelo menos não deveria ter a importância que acaba tendo. Em muitas
outras cidades o ‘despenca e dispara’ (termos usados pela imprensa
nas manchetes) também apareceu bastante”.
Imprensa é acusada de distorção
De forma geral, os institutos acusam a imprensa de desinformação
sobre o universo das pesquisas e de má divulgação dos resultados,
principalmente quando indicam empate técnico. Mauro Paulino, diretor do
Datafolha, relatou que a própria Folha de São Paulo, empresa da
qual o Datafolha faz parte, optou por editorializar resultados de pesquisas apresentadas
pelo Instituto contra a sua vontade. “Em alguns momentos, a posição
do Datafolha foi voto vencido”, afirma citando uma situação
em que foram omitidos os votos válidos, o que, segundo ele, aproximaria
mais do resultado real apurado.
Paulino diz que o Jornal Nacional inovou ao mostrar o intervalo das intenções
de voto junto com a taxa, embora se trate de um recurso discutível, pois
dependendo do valor do percentual há uma margem de erro diferente. Mesmo
assim, em seu entendimento, o recurso representa um avanço, pois mostrou
de uma forma didática e para uma audiência muito grande que o número
que é apresentado nas pesquisas não é um número exato,
mas um intervalo. O pesquisador critica o malabarismo que Wiliam Bonner fez,
por exemplo, às vésperas do pleito de São Paulo, para dizer
que as pesquisas apontavam empate no intuito de dizer que cada instituto apresentava
um resultado diferente. “Mas na verdade não era empate. No dia seguinte,
dia da eleição, o jornal O Estado de São Paulo apresentava
um malabarismo maior ainda em sua manchete: “Marta e Serra se alternam
em primeiro lugar”, complementada pelo seguinte: “Marta lidera uma
pesquisa, e Serra outra, mas ambas apontam empate técnico”. Nas
página internas “Serra lidera no datafolha, e Marta no Ibope”.
Em tese, ninguém poderia estar liderando um empate técnico e todas
as manchetes estariam erradas”, observa Paulino. “Em resumo, foi
uma forma de buscar uma notícia que não existia”, completa.
Para o diretor da Toledo & Associados, Francisco Toledo, os jornalistas não
têm ainda o conhecimento suficiente e nem se interessam em ter para resolver
essa questão. “Publica-se resultados e se faz comentários
absurdos sobre resultados de pesquisa.”
“
Há três eleições, o Ibope tem feito seminários
dirigidos a jornalistas para explicar como ler as pesquisas. Não adianta.
Não dá para dizer que, de uma pesquisa para outra, o candidato
cresceu tantos por cento, se há um cálculo mais complexo que envolve
margens de erro, etc. Em uma determinada pesquisa do Ibope que indicava 34% para
candidato X e 30% para Y, todos os jornais de uma determinada capital, de uma
forma ou de outra, diziam: ‘Candidato X lidera’ nas manchetes e quando
a situação foi invertida nenhum jornal escreveu nas manchetes: ‘Candidato
Y lidera’. Apenas se restringiram a divulgar: ‘Candidato Y 34%, e
candidato X 30%’ . Isso mostra também quanto os jornais são
tendenciosos’’, desabafa Márcia Cavallari, do Ibope. Para
a diretora do instituto, uma discussão que deve ser feita é até que
ponto as pesquisas divulgadas com alguma antecedência da eleição
conseguem capturar a intenção dos eleitores”. A imprensa
e o público em geral consideram os números divulgados com antecedência
fazendo uma projeção para o final. Como não batem, fica
a “instituição pesquisa” abalada em sua credibilidade.
Regulamentação para os pesquisadores
Ano após ano, as pesquisas são acusadas de imprecisão, de
influenciar eleitores, de serem manipuladas. Tudo isso tem abalado a credibilidade
dos institutos diante da opinião pública e motivado debates infindáveis
na mídia, no meio político e entre os próprios institutos.
Em 2002, por conta das discrepâncias nos resultados das pesquisas, o então
senador José Eduardo Dutra (PT) chegou a apresentar à Comissão
de Constituição e Justiça um projeto de Lei que cassaria
os institutos que divulgassem pesquisas nos dez dias anteriores ao pleito com
discrepâncias além da margem de erro. Não vingou. Para a
pesquisadora Raquel Moreno, presidente do conselho da SBPM, a intenção
era boa, mas tratava-se de uma Lei inaplicável na prática. Para
ela, o mais importante é regulamentar a profissão de pesquisador
para moralizar o setor. “Esse tipo de controle é inadequado e não
daria certo”. Atualmente tramita no Congresso um projeto de Lei de autoria
do deputado federal Orlando Fantazzini (PT-SP) que prevê não apenas
a regulamentação da profissão como também a criação
de um órgão regulador, o Conselho Federal de Pesquisadores de Mercado,
Opinião e Mídia (CFP-MOM), que funcionará, caso aprovado,
como uma autarquia de personalidade jurídica, vinculada ao Ministério
do Trabalho e terá condições de julgar os abusos cometidos
e questões de ordem ética.

“Em Porto Alegre, fizemos um balanço dos resultados das pesquisas
que vão de 27 de julho até o dia da eleição do primeiro
turno. Nós temos aqui um caso de comparativo entre as performances de
determinado candidato (Mendes Ribeiro – PMDB) medida por vários
institutos. Nesse caso, a discrepância é gritante. Enquanto os demais
apontavam entre 2 e 8% para o candidato, o DataBrain, que faz pesquisas para
a revista Isto É, apontava 17%, colocando-o muito próximo ao segundo
colocado, que era José Fogaça – PPS. Claro que não
podemos afirmar que, se houve erro, foi inten-cional, mas se eu estou orientando
um cliente, sou obrigado a pedir para ele desconsiderar o levantamento feito
pelo DataBrain em Porto Alegre. Quando estabelecemos uma comparação
entre os institutos, o problema salta aos olhos. A partir desse tipo de análise,
existindo um conselho de ética, podemos chamar nossos colegas e perguntar
o que está acontecendo, pois esse tipo de episódio depõe
contra todos.
Gustavo Venturi – Criterium

“Uma vez eu escrevi um artigo chamado A certeza do erro em pesquisa. O
que quero dizer com isso é que toda vez que vamos fazer uma pesquisa sabemos
que se vai errar. O bom é quando erramos dentro da margem de erro. Mas
uma coisa interessante é procurarmos algumas respostas além daquelas
do acertou ou errou, mas porque acertou ou errou. Fizemos uma pesquisa chamada ‘transtornos
mentais’ que apontou 31% de depressivos em São Paulo, 14% de alcoólatras,
19% de esquizofrênicos. Como votam essas pessoas? Precisamos incorporar
novas variáveis nas amostras.”
“
A política não é uma atividade inocente. Existe muita sujeira.
Já vi candidatos contratarem pesquisas desonestas de institutos desonestos
e não ganharem a eleição. O eleitor não é mais
aquela figura boba, tola e manipulável que se imagina.”
Francisco
Toledo – Toledo & Associados

“Houve um caso de uma pesquisa registrada que foi encomendada por um candidato
para o caso de ele querer divulgá-la. Ao ver o resultado, que o apontava
na liderança, optou por não divulgar. A pesquisa foi depositada
no cartório eleitoral. Fiz outras para o mesmo cliente e nenhuma mais
foi registrada ou divulgada. Na última semana da eleição,
eu escuto no rádio: ‘O Ibope confirma que fulano de tal será eleito
no primeiro turno’. Se a última pesquisa que entreguei para ele
não estava registrada e o adversário estava na frente, que resultado é esse?
O Candidato não divulgou a pesquisa na época em que foi feita.
Quando divulgou no horário eleitoral do rádio, não indicou
o período de realização”.
Márcia Cavallari – Ibope

“Temos consciência de que o desempenho dos institutos durante o processo
eleitoral tem uma influência na sociedade, na decisão de voto, na
escolha das candidaturas, na formulação das campanhas, mas também
tem uma influência no mercado de pesquisas, na imagem que a sociedade faz
da pesquisa – não apenas a eleitoral, mas as pesquisas de mercado
feitas para as empresas que as ajudam a tomar decisões estratégicas.
A gente carrega essa responsabilidade de zelar pela boa imagem da instituição
pesquisa”. (...)“O resultado de pesquisa de véspera não
deve ser tratado como prognóstico, mas sim como um diagnóstico
daquele dia. Há muitos movimentos de última hora que influenciam
a escolha do eleitor e que são muito difíceis de serem medidos”.
Mauro Paulino – Datafolha
Sobre
a pesquisa do Sinpro/RS |
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Às vésperas do pleito que decidiu a eleição
municipal de Porto Alegre, o Sinpro/RS divulgou uma pesquisa de opinião
contratada para estabelecer um comparativo com as demais pesquisas,
pois havia uma avaliação de que os resultados apresentados
pelos institutos até então sobre as eleições
no país eram muito diferentes. Para surpresa do Sindicato
e do Extra Classe, que preparava uma reportagem sobre o assunto,
ao ser comparada com o resultado oficial do TRE, essa mesma pesquisa
apresentou um resultado que, se não estava distante da probabilidade
de erro aceitável em pesquisas eleitorais, ficou um ponto
fora da margem de erro a que se propunha – apresentava empate
técnico entre Raul Pont e José Fogaça, com uma
pequena margem favorável a Pont, diferente dos demais institutos.
O Ibope, por exemplo também apontava empate técnico,
porém com vantagem para Fogaça.
Nas semanas que sucederam a eleição, tanto o Sindicato
como a pesquisa realizada pela Studio Pesquisas, que já possui
10 anos de atividades e um bom portfólio de acertos, receberam
críticas de jornalistas políticos de jornais de Porto
Alegre em que foi questionada a lisura da divulgação
e da realização das pesquisas. “Diante da repercussão
negativa do episódio, o Instituto abriu mão dos custos
da pesquisa. Quanto ao debate técnico sobre como ela foi feita,
não temos como entrar neste mérito. No que se refere à exploração
política, que partiu de uns poucos setores da imprensa em
tentar abalar a imagem do Sinpro/RS, foi desproporcional ao fatos.
Não há nada que desabone o Sindicato ou a forma como
divulgamos a pesquisa. Não temos como controlar o uso político
que foi dado a ela por partidos políticos. O resultado era
público, mas infelizmente as críticas foram dirigidas
ao Sindicato.”, declara Marcos Fuhr, membro da diretoria Sinpro/RS.
Para Roberto Garcia, professor de Pesquisa de Opinião do curso
de Ciências Políticas da Ulbra e diretor da Studio Pesquisas,
não se pode considerar uma pesquisa realizada dias antes do
pleito e antes de um debate como prognóstico. “Ou entendemos
que pesquisas não têm influência sobre os eleitores
e erramos, ou entendemos que exercem influência e o quadro
pode ter se modificado”, argumenta.
Pesquisa feita pela Studio nos dias posteriores à eleição,
em Porto Alegre, apontaram que 20% dos eleitores de Fogaça
decidiram seu candidato na última semana do segundo turno.
Além disso, também indicaram que 35% dos eleitores
de Fogaça em algum momento pensaram em votar em Raul Pont.
A conclusão de Roberto Garcia é a seguinte: “se
20% decidiram na última semana e 35% pensaram em votar em
Pont, isso nos faz concluir que 3,5% dos eleitores de Porto Alegre
decidiram o voto em favor de Fogaça, mas em algum momento
pensaram em Pont. E tudo isso na última semana”.
NOTA OFICIAL – A diretoria colegiada do Sinpro/RS divulgou
nota oficial destacando que a que a empresa contratada cumpriu todas
as exigências legais para a realização da pesquisa
de intenção de votos, tendo o Sinpro/RS informado ao
seu quadro social e a todos os órgãos de imprensa a
sua realização e o seu resultado nos prazos estipulados
em Lei. Na nota, a direção do Sindicato também
repudiou qualquer acusação ou insinuação
de que a iniciativa da pesquisa tivesse parceria com qualquer partido
político e reafirmou o caráter plural e apartidário
do Sindicato.
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Continua >>
Neutralidade
não existe