Neutralidade não existe
Adélia Franceschini , presidente da Sociedade Brasileira
de Pesquisas de Mercado, concedeu com exclusividade a entrevista
que segue ao Extra Classe em seu escritório na capital paulista
no último dia 19 de novembro.
Extra Classe – O que
uma pesquisa precisa para ser considerada correta?
Adélia Franceschini – A pesquisa é baseada
em conceitos matemáticos e estatísticos, principalmente
a pesquisa quantitativa. Para ela ter valor, precisa ter uma
amostra bem delineada, ou seja, bem representativa do universo.
As amostras necessitam de cálculos trabalhosos para serem
corretas em uma pesquisa eleitoral. Essas técnicas já estão
bastante disseminadas na indústria da pesquisa, entre
políticos e jornalistas. É muito importante em
qualquer pesquisa que qualquer pessoas tenha a chance de ser
entrevistada, para que se possa pegar o comportamento de todos
e as diferenças que possam existir naquele universo.
EC – Por que ocorrem discrepâncias de resultado entre
diferentes institutos sobre um mesmo universo e período
de pesquisa?
Franceschini – Podem ser várias as causas.
Podem ser metodologias diferentes, mas também pode ser
a amostra. Tudo vai depender da relação custo-benefício
que se quer daquela amostra. Uma amostra utilizada com rigor
científico é muito grande. As pesquisas de mercado
e de opinião trabalham com amostras menores. As pesquisas
eleitorais trabalham da segunda forma, o que obviamente possui
uma precisão de resultado menor, mas que dá 95,5%
de cobertura daquele universo. As amostras não são
elaboradas por percentuais da população. Depois
que ultrapassam 100 mil habitantes, são tratadas como
universos infinitos. A cada mil amostras, terei 45 erradas, mesmo
que sejam cumpridos todos os procedimentos técnicos. Uma
pesquisa realizada com rigor científico terá 99,9%
de controle sobre o resultado, mas implica em amostras de 10
a 20 vezes maiores. Uma pesquisa eleitoral com esse rigor é inviável
do ponto de vista financeiro e também de operacional.
EC – Qualquer pesquisa de opinião já começa
com 4,5% de possibilidade de erro?
Franceschini – Não de erro em si, mas com esse percentual
de amostra equivocada.
EC – É possível direcionar o resultado
de uma pesquisa a partir da escolha das amostras?
Franceschini – É muito difícil. Numa cidade
como São Paulo ou Porto Alegre, poderia se dizer que se
tornaria muito trabalhoso. Mas possível é. Qualquer
instrumental e qualquer empresa de pesquisa pode ter mau uso
da técnica, mesmo na ciência. Agora, os institutos
vivem disso. É uma indústria que trabalha durante
todo o ano fora das eleições, fazendo pesquisa
de mercado. Quando ocorre desconfiança sobre um instituto,
cria-se uma mácula terrivelmente péssima para a
empresa de pesquisa. Agora, existem muitos institutos de ocasião,
que aparecem somente na hora das eleições e que
não têm compromisso com longevidade. Aí realmente
fica mais complicado.
" A
cada mil
amostras, terei 45
erradas, mesmo que
sejam cumpridos
todos os procedimentos
técnicos" |
|
EC – O quanto representa hoje a pesquisa de opinião
na receita dos institutos?
Franceschini – Representa não mais de 11% da receita
global em pesquisa, mas é essa que aparece e é publicada
na imprensa. Se o instituto erra na pesquisa política,
isso abre um rombo no telhado, e os outros trabalhos, como pesquisa
de mercado e outros estudos, sofrerão uma baixa nos outros
negócios.
EC – Se mistifica muito a pesquisa eleitoral? Hoje se dá um
valor editorial que ela não merece?
Franceschini – Hoje a pesquisa está colocada como
se fosse o oráculo da eleição. E não é.
Se dá um valor exagerado e acho que, em parte, pelo uso
que se dá às pesquisas nas redações.
Pesquisa é importante, mas não se quer mais analisar
a política, pensá-la. Se quer muito a coisa pronta
como se política fosse um cálculo matemático
exato. Se fosse comparada a um tratamento médico, a pesquisa é o
termômetro, simplesmente mede a temperatura de um determinado
momento, mas não é o centro de tudo. Não
pode ocupar o lugar dos médicos e dos pacientes. É só uma
das ferramentas para se fazer um diagnóstico. O fato de
um candidato estar na UTI ou ladeira acima não é culpa
do termômetro. É preciso que se discuta o(s) porquê(s)
e não o(s) o quê.
EC – Mas isso não se dá pelo fato de a política
estar muito impregnada de marketing e as coisas acabarem se confundindo
para a imprensa, para o eleitor e para os próprios políticos?
Franceschini – Acho que o espaço exagerado dado
aos números de pesquisa política na imprensa é uma
maneira que a imprensa encontrou para tirar o seu da reta. É meio
para justificar um discurso que se quer ter ou um posicionamento,
mas que acaba sendo construída a partir de pesquisas;
e a responsabilidade desses dados é do instituto. Sempre
há uma tentativa da imprensa que a pesquisa dê o
que eles querem. O Estadão queria que desse o Serra. Se
a pesquisa diz que deu empate técnico, o jornal vai lá e
diz: “Serra está na frente”. É esse
tipo de coisa. Então, além das restrições
normais que as pesquisas eleitorais têm no que se refere à precisão,
há o problema de como elas são divulgadas. Em cada
título existe uma interpretação afirmativa
e posicionada. Quan-to a isso não temos controle.
EC – A imprensa tenta eleger seus candidatos com
manchetes?
Franceschini – Sim. Tivemos o caso clássico de Fernando
Hen-rique Cardoso na prefeitura de São Paulo, que já chegou
a ser fotografado na cadeira de prefeito e perdeu para Jânio
Quadros, quando a imprensa já dava como certa sua vitória.
Isso não é novidade. A imprensa no Brasil é posicionada,
mas não quer ser. Em outros países, os jornais
assumem suas candidaturas e preferências; aqui fica uma
coisa meio na subliminaridade. A filosofia discute a possibilidade
da neutralidade no juízo de valor. Sabemos que isso não
existe. Somos conseqüência do ambiente em que vivemos.
EC – Como se dá a editorializa-ção
dos resultados das pesquisas?
Franceschini – Olha, aqui no Brasil, esse anseio pela neutralidade,
que sabemos que não existe, aparece no discurso dos editores,
como se fossem imparciais totalmente. Apesar de eles estarem
ali torcendo loucamente por um candidato, nenhum deles assume.
Daí fica aquele puxa-puxa dos dados. É empate técnico,
mas fulano está na frente. Se o candidato do Estadão,
por exemplo, está em terceiro lugar, quando aquele candidato
se move é a grande manchete. O público, o leitor,
nem digo toda a sociedade, mas o leitor de jornal percebe isso.
Existem estudos que apontam os veículos de comunicação
como altamente manipuladores, e existe uma tendência do
público a rejeitar isso. A própria Zero Hora, em
Porto Alegre, tem uma linha editorial posicionada, em termos
de candidato, mas que não assume. E vejo isso como leitora
de longe. Para os veículos é uma pena, pois perdem
a credi-bilidade. Quando um determinado veículo é taxado
como altamente ma-nipulador, a tendência do público é continuar
consumindo aquela informação, mas colocando-a em
segundo plano e, com o tempo, substituí-la. Essa desconfiança
com as informações contribui para um número
maior de indecisos no final da eleição.
EC – Há excesso de simplificação do
debate político?
Franceschini – Temos uma visão de classe e de mundo
e nos posicionamos a partir disso. E isso acontece com todo mundo:
jornalistas, políticos, marketeiros, pesquisadores e com
o eleitor. Obviamente nossa instrução nos leva
a ter um maior traquejo com essas nossas limitações
e leituras pessoais. Hoje estamos treinados para entender que
não somos amostras de nada isoladamente. Precisamos tomar
cuidado com isso, pois certamente o mundo é mais complexo
do que podemos ver. Dito isso, nas últimas décadas
tivemos uma tentativa de simplificação das leituras.
Não se discute mais ideologia, posturas políticas.
Inclusive discutir passou quase feio. Basta ver um debate entre
candidatos. O debate político passou por uma assepsia.
Os candidatos entram no estúdio de TV e deixam o fígado
do lado de fora. Isso deixa a política mais pobre. É como
se desde a queda do muro de Berlim se queria que exista um pensamento
uniforme e de consenso.
EC – Pesquisa define eleição?
Franceschini – Não. Se definisse, o Maluf estava
sempre ganhando. Agora é um direito que a população
tem de saber o que se passa na intenção de votos
e até de se reposicionar.
EC – Mas influencia então?
Franceschini – Influencia, mas como todos os aspectos conjun-turais.
Tem estudos que indicam que a divulgação de pesquisas
eleitorais influenciam a escolha do eleitor, mas nunca em um única
direção. Os debates influenciam também,
assim com o a mídia. Agora mais do que tudo isso é a
situação estrutural, que são as questões
políticas.
<< Retornar
Pesquisa
eleitoral em debate