Ano 10 - nº 88
Dezembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
O proverbial marciano que chega na Terra sem saber de nada a nosso respeito tem sido muito usado para destacar nossos absurdos. O homenzinho verde é um eterno perplexo. Quando viu um mapa do Brasil e lhe disseram que um dos problemas do país é o de agricultores sem terra, ele quase teve um...




Nei Lisboa:
Um minuto para a meia-noite. Todos na festa têm os relógios sincronizados, as champanhes estão de prontidão e o CD da Ivete Sangalo no pause, aguardando a contagem regressiva. Súbito, ouve-se o toque da campainha. Alguém grita “agora não dá, volta o ano que vem!” , mas um outro resolve arriscar e corre para...



Elisa Lucinda:

Era sempre de noite. Noite absoluta. Eu já pressentia a hora. Raimundo chegava sempre no meio de uma alta escuridão a me trazer o seu amor especial. Chegava chacoalhando as chaves como a um caxixi e já vinha gritando “Luzia, Luzia! Adivinha quem chegou?”. E eu respondia do quarto onde era sempre hora de...





Neutralidade não existe

Adélia Franceschini , presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisas de Mercado, concedeu com exclusividade a entrevista que segue ao Extra Classe em seu escritório na capital paulista no último dia 19 de novembro.

Extra Classe – O que uma pesquisa precisa para ser considerada correta?
Adélia Franceschini
– A pesquisa é baseada em conceitos matemáticos e estatísticos, principalmente a pesquisa quantitativa. Para ela ter valor, precisa ter uma amostra bem delineada, ou seja, bem representativa do universo. As amostras necessitam de cálculos trabalhosos para serem corretas em uma pesquisa eleitoral. Essas técnicas já estão bastante disseminadas na indústria da pesquisa, entre políticos e jornalistas. É muito importante em qualquer pesquisa que qualquer pessoas tenha a chance de ser entrevistada, para que se possa pegar o comportamento de todos e as diferenças que possam existir naquele universo.

EC – Por que ocorrem discrepâncias de resultado entre diferentes institutos sobre um mesmo universo e período de pesquisa?
Franceschini
– Podem ser várias as causas. Podem ser metodologias diferentes, mas também pode ser a amostra. Tudo vai depender da relação custo-benefício que se quer daquela amostra. Uma amostra utilizada com rigor científico é muito grande. As pesquisas de mercado e de opinião trabalham com amostras menores. As pesquisas eleitorais trabalham da segunda forma, o que obviamente possui uma precisão de resultado menor, mas que dá 95,5% de cobertura daquele universo. As amostras não são elaboradas por percentuais da população. Depois que ultrapassam 100 mil habitantes, são tratadas como universos infinitos. A cada mil amostras, terei 45 erradas, mesmo que sejam cumpridos todos os procedimentos técnicos. Uma pesquisa realizada com rigor científico terá 99,9% de controle sobre o resultado, mas implica em amostras de 10 a 20 vezes maiores. Uma pesquisa eleitoral com esse rigor é inviável do ponto de vista financeiro e também de operacional.

EC – Qualquer pesquisa de opinião já começa com 4,5% de possibilidade de erro?
Franceschini
– Não de erro em si, mas com esse percentual de amostra equivocada.

EC – É possível direcionar o resultado de uma pesquisa a partir da escolha das amostras?
Franceschini
– É muito difícil. Numa cidade como São Paulo ou Porto Alegre, poderia se dizer que se tornaria muito trabalhoso. Mas possível é. Qualquer instrumental e qualquer empresa de pesquisa pode ter mau uso da técnica, mesmo na ciência. Agora, os institutos vivem disso. É uma indústria que trabalha durante todo o ano fora das eleições, fazendo pesquisa de mercado. Quando ocorre desconfiança sobre um instituto, cria-se uma mácula terrivelmente péssima para a empresa de pesquisa. Agora, existem muitos institutos de ocasião, que aparecem somente na hora das eleições e que não têm compromisso com longevidade. Aí realmente fica mais complicado.

" A cada mil
amostras, terei 45
erradas, mesmo que
sejam cumpridos
todos os procedimentos
técnicos"

EC – O quanto representa hoje a pesquisa de opinião na receita dos institutos?
Franceschini
– Representa não mais de 11% da receita global em pesquisa, mas é essa que aparece e é publicada na imprensa. Se o instituto erra na pesquisa política, isso abre um rombo no telhado, e os outros trabalhos, como pesquisa de mercado e outros estudos, sofrerão uma baixa nos outros negócios.

EC – Se mistifica muito a pesquisa eleitoral? Hoje se dá um valor editorial que ela não merece?
Franceschini
– Hoje a pesquisa está colocada como se fosse o oráculo da eleição. E não é. Se dá um valor exagerado e acho que, em parte, pelo uso que se dá às pesquisas nas redações. Pesquisa é importante, mas não se quer mais analisar a política, pensá-la. Se quer muito a coisa pronta como se política fosse um cálculo matemático exato. Se fosse comparada a um tratamento médico, a pesquisa é o termômetro, simplesmente mede a temperatura de um determinado momento, mas não é o centro de tudo. Não pode ocupar o lugar dos médicos e dos pacientes. É só uma das ferramentas para se fazer um diagnóstico. O fato de um candidato estar na UTI ou ladeira acima não é culpa do termômetro. É preciso que se discuta o(s) porquê(s) e não o(s) o quê.

EC – Mas isso não se dá pelo fato de a política estar muito impregnada de marketing e as coisas acabarem se confundindo para a imprensa, para o eleitor e para os próprios políticos?
Franceschini
– Acho que o espaço exagerado dado aos números de pesquisa política na imprensa é uma maneira que a imprensa encontrou para tirar o seu da reta. É meio para justificar um discurso que se quer ter ou um posicionamento, mas que acaba sendo construída a partir de pesquisas; e a responsabilidade desses dados é do instituto. Sempre há uma tentativa da imprensa que a pesquisa dê o que eles querem. O Estadão queria que desse o Serra. Se a pesquisa diz que deu empate técnico, o jornal vai lá e diz: “Serra está na frente”. É esse tipo de coisa. Então, além das restrições normais que as pesquisas eleitorais têm no que se refere à precisão, há o problema de como elas são divulgadas. Em cada título existe uma interpretação afirmativa e posicionada. Quan-to a isso não temos controle.

Foto: César Fraga
EC – A imprensa tenta eleger seus candidatos com manchetes?
Franceschini
– Sim. Tivemos o caso clássico de Fernando Hen-rique Cardoso na prefeitura de São Paulo, que já chegou a ser fotografado na cadeira de prefeito e perdeu para Jânio Quadros, quando a imprensa já dava como certa sua vitória. Isso não é novidade. A imprensa no Brasil é posicionada, mas não quer ser. Em outros países, os jornais assumem suas candidaturas e preferências; aqui fica uma coisa meio na subliminaridade. A filosofia discute a possibilidade da neutralidade no juízo de valor. Sabemos que isso não existe. Somos conseqüência do ambiente em que vivemos.


EC – Como se dá a editorializa-ção dos resultados das pesquisas?
Franceschini
– Olha, aqui no Brasil, esse anseio pela neutralidade, que sabemos que não existe, aparece no discurso dos editores, como se fossem imparciais totalmente. Apesar de eles estarem ali torcendo loucamente por um candidato, nenhum deles assume. Daí fica aquele puxa-puxa dos dados. É empate técnico, mas fulano está na frente. Se o candidato do Estadão, por exemplo, está em terceiro lugar, quando aquele candidato se move é a grande manchete. O público, o leitor, nem digo toda a sociedade, mas o leitor de jornal percebe isso. Existem estudos que apontam os veículos de comunicação como altamente manipuladores, e existe uma tendência do público a rejeitar isso. A própria Zero Hora, em Porto Alegre, tem uma linha editorial posicionada, em termos de candidato, mas que não assume. E vejo isso como leitora de longe. Para os veículos é uma pena, pois perdem a credi-bilidade. Quando um determinado veículo é taxado como altamente ma-nipulador, a tendência do público é continuar consumindo aquela informação, mas colocando-a em segundo plano e, com o tempo, substituí-la. Essa desconfiança com as informações contribui para um número maior de indecisos no final da eleição.

EC – Há excesso de simplificação do debate político?
Franceschini
– Temos uma visão de classe e de mundo e nos posicionamos a partir disso. E isso acontece com todo mundo: jornalistas, políticos, marketeiros, pesquisadores e com o eleitor. Obviamente nossa instrução nos leva a ter um maior traquejo com essas nossas limitações e leituras pessoais. Hoje estamos treinados para entender que não somos amostras de nada isoladamente. Precisamos tomar cuidado com isso, pois certamente o mundo é mais complexo do que podemos ver. Dito isso, nas últimas décadas tivemos uma tentativa de simplificação das leituras. Não se discute mais ideologia, posturas políticas. Inclusive discutir passou quase feio. Basta ver um debate entre candidatos. O debate político passou por uma assepsia. Os candidatos entram no estúdio de TV e deixam o fígado do lado de fora. Isso deixa a política mais pobre. É como se desde a queda do muro de Berlim se queria que exista um pensamento uniforme e de consenso.

EC – Pesquisa define eleição?
Franceschini
– Não. Se definisse, o Maluf estava sempre ganhando. Agora é um direito que a população tem de saber o que se passa na intenção de votos e até de se reposicionar.

EC – Mas influencia então?
Franceschini
– Influencia, mas como todos os aspectos conjun-turais. Tem estudos que indicam que a divulgação de pesquisas eleitorais influenciam a escolha do eleitor, mas nunca em um única direção. Os debates influenciam também, assim com o a mídia. Agora mais do que tudo isso é a situação estrutural, que são as questões políticas.



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Pesquisa eleitoral em debate




 
José Luis Fiori

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