O Poder Americano
“O desejo de todo estado e de seus governantes é alcançar
uma condição de paz perpétua, através
da conquista de todo o mundo”
Immanuel Kant, Ensaio Filosófico sobre a Paz Perpétua,
1795
José Luís Fiori*

vitória eleitoral de George
Bush nas eleições presidenciais de 3 de novembro referendou a tendência
unilateral e expansionista
de sua política internacional, frustrando todos os que apostaram numa
mudança de rumo, com a vitória de John Kerry. Essa mudança
era muito pouco provável que acontecesse, mas a reeleição
de Bush, sem dúvida nenhuma, confirmou a opção belicista
do seu primeiro governo, criando a impressão de que o poder americano
não tem mais limites, ao contrário dos que vêm anunciando,
já faz tempo, uma crise terminal da hegemonia mundial dos Estados Unidos.
Do nosso ponto de vista, neste início do século 21, fica difícil
sustentar a tese da crise final, mas tampouco acreditamos que tenha chegado a
hora de um império mundial. Pelo contrário, os Estados Unidos enfrentarão
dificuldades crescentes nas próximas décadas para manter o seu
controle político e econômico global. Mas esses limites não
podem ser deduzidos de macrovisões teleológi-cas da história,
eles têm que se ser identificados a partir de uma análise cuidadosa
das contradições das políticas americanas que poderão
chegar a desestabilizá-las.

Deste ponto de vista, há de se partir da situação presente
e do momento em que os Estados Unidos definiram seu novo inimigo, propondo ao
mundo uma parceria estratégica global, para combater o “terrorismo
internacional”. A principal dificuldade que se anuncia no futuro desta
opção e desta política de combate ao terrorismo está no
fato de se tratar de um inimigo que não se identifica com nenhum estado,
não tem território e não estabelece nenhum tipo de comple-mentaridade
econômica com seu adversário. Ele é universal e ubíquo;
um inimigo tipicamente imperial da humanidade, e não de algum estado em
particular. Aceitá-lo significa entrar numa guerra em que os Estados Unidos
definem, a cada momento, quem é e onde está o adversário,
numa guerra que não terá fim e que será cada vez mais extensa;
uma guerra permanente e “infinitamente elástica”. Basta ver
que no início se tratava de destruir a rede Al-Qaeda e o regime talibã do
Afeganistão, mas hoje as tropas americanas já estão presentes – em
nome da mesma guerra – na Argélia, Somália, Yemen, Afeganistão,
Filipinas, Indonésia e Colômbia. A própria definição
de inimigo já foi modificada várias vezes nos últimos anos:
primeiro foram as “redes terroristas”; depois, o “eixo do mal”,
constituído pelo Iraque, Irã e Coréia do Norte; e, finalmente,
os “estados produtores de armas de destruição em massa”,
categoria que inclui – neste momento – quase todos os aliados americanos
na guerra do Afeganistão e do Iraque. As características deste
novo inimigo bipolar escolhido pelos Estados Unidos não cumprem os requisitos
fundamentais indispensáveis ao funcionamento do sistema mundial e, além
disso, colocam dificuldades e limites imediatos para a execução
desta nova estratégia de contenção global dos Estados Unidos.
Em primeiro lugar – do ponto de vista da segurança interna dos Estados
Unidos – é da natureza do novo inimigo, segundo Donald Rumsfeld,
mover-se no campo “do desconhecido, do incerto, do inesperado”, aproveitando-se
de toda e qualquer “vulnerabilidade americana”. Uma ameaça,
portanto, que pode ser nuclear mas também
pode ser cibernética, biológica, química e pode estar no
ar, na terra, na água, nos alimentos, enfim, em centenas de veículos
ou lugares diferentes. Nesse sentido, nessa guerra escolhida pelos Estados Unidos,
tudo pode se transformar numa arma, em particular as inovações
tecnológicas dos próprios americanos. E tudo pode se transformar
num alvo, em particular as coisas mais prezadas e desprotegidas dos norte-americanos.
Daí a necessidade defendida pelo governo Bush de criar uma “rede
cidadã” de espionagem, constituída por milhões de
homens e mulheres comuns que gastariam parte dos seus dias controlando e vigiando
seus próprios vizinhos. E é isto que explica, também, a
criação pelo governo americano de novas “equipes vermelhas” encarregadas
de planejar ataques contra os Estados Unidos, pensando como terroristas, para
poder identificar as “vulnerabilidades” do país. Deste ponto
de vista, a visão imperial dos Estados Unidos e a ubiqüidade do seu
adversário “interno” exigirão um controle permanente
e cada vez mais rigoroso da própria sociedade americana, visto pelo governo
como um imenso universo de possibilidades agressivas, o que pode avançar
numa direção paranóica e coletiva rigorosamente insustentável.
Em segundo lugar, do ponto de vista da segurança externa dos Estados Unidos,
a nova estratégia cria uma situação de insegurança
coletiva e permanente dentro do sistema mundial. O novo adversário não é,
em princípio, uma religião, uma ideologia, uma nacionalidade, uma
civilização ou um estado, e pode ser redefinido a cada momento
pelos próprios Estados Unidos, sendo, portando, variável e arbitrário.
E, nesse sentido, os Estados Unidos se guardam no direito de fazer ataques preventivos
contra todo e qualquer estado no qual eles considerem existir bases ou apoio às
ações terroristas, o que significa a auto-atribuição
de uma soberania imperial. Este problema deverá se agravar, ainda mais, à medida
que outros países, em particular as demais Grandes Potências, se
sentirem ameaçados por forças consideradas terroristas, qualquer
que seja a sua natureza, incluindo nações ou minorias externas
ou internas aos seus territórios. Neste momento, todos os que tiverem
a capacidade militar necessária seguirão o caminho aberto por Israel
e seguido pelos Estados Unidos, optando pelos ataques preventivos. Portanto,
a nova doutrina estratégica americana acabará tendo desdobramentos
contraditórios e perversos, porque, estabelecido e aceito o princípio
geral, não há nenhum acordo possível sobre o que sejam e
quem sejam os terroristas, para cada uma das potências que detém
atualmente os armamentos de destruição em massa. Tudo indica, portanto,
que a estratégia da luta global contra o terrorismo acabará opondo,
em algum momento, as próprias grandes potências. E, neste sentido,
não apenas deverá aumentar as resistências dentro dos Estados
Unidos como deverá acelerar o retorno do conflito entre as grandes potências,
devolvendo a discussão sobre os limites do poder americano para o campo
dos conflitos tradicionais do sistema político mundial. Neste campo, a
verdadeira oposição ou resistência ao poder americano acabará vindo
de onde sempre veio através da história: de dentro do núcleo
central de poder do sistema mundial, das suas Grandes Potências.
A própria necessidade norte-americana de alianças e apoios nas
guerras do Afeganistão e Iraque acabou devolvendo a liberdade de iniciativa
militar ao Japão e à Alemanha, ao mesmo tempo em que permitiu à Rússia
reivindicar de volta o seu direito de “proteção” na
sua “área de influência” ou “zona de segurança” clássica,
onde estão incluídos vários territórios que já foram
ocupados militarmente pelos Estados Unidos, depois de 1991. O fato de a Europa
continental começar a se rebelar contra sua situação de
refém militar da OTAN e dos Estados Unidos prenuncia o retorno da luta
pela hegemonia dentro do continente europeu, mesmo que seja na forma de uma luta
prolongada pelo controle da União Européia. Nesta região,
se a Inglaterra sair da União Européia, não é improvável
que os capitais alemães acabem seguindo o caminho da história e
estabelecendo uma nova e surpreendente aliança com o poder militar “ocioso” da
Rússia. Enquanto isso, do outro lado do mundo, o sistema estatal asiático
se parece cada vez mais com o velho modelo de competição pelo poder
e riqueza que foi a marca originária do “milagre europeu”,
desde o século 16. E não é provável que se repita
na Ásia algo parecido com a União Européia. Pelo contrário,
o que se deve esperar é uma intensificação da competição
econômica e política pela hegemonia regional entre a China, o Japão,
a Coréia, a Rússia e os próprios Estados Unidos.
Desta perspectiva, não há dúvida de que a grande novidade
geopolítica e geoeconômica do sistema mundial, desde os anos 90, é a
nova relação que se estabeleceu entre os Estados Unidos e a China.
Ela reproduz e prolonga o eixo Europa-Ásia que dinamizou o sistema estatal
e capitalista desde sua origem e a relação privilegiada dos Estados
Unidos com o Japão, desde 1949. Mas, ao mesmo tempo, ela contém
algumas novidades notáveis. Em primeiro lugar, o novo motor geoeconômico
do capitalismo mundial deslocou e esvaziou o tripé da “época
de ouro” da economia mundial – Estados Unidos, Alemanha e Japão – que
funcionou de maneira extremamente virtuosa entre 1945 e 1980. Em segundo lugar,
esta nova engenharia econômica mundial e a prolongada estagnação
das economias alemã e japonesa vêm recolocando o problema dos seus
projetos nacionais derrotados ou bloqueados e a necessidade de retomá-los
como forma de sair da crise, sem contar com a ajuda americana. Em terceiro lugar,
esta nova aliança apressou a volta da Rússia às suas posições
clássicas de corte nacionalista e militarista, obrigada por sua posição
eternamente dividida, entre sua presença na Ásia e na Europa. Mas
não há dúvida de que o aspecto mais importante desta nova
relação entre Estados Unidos e China é que ela é complementar
e competitiva a um só tempo, sendo também econômica e militar.
Este foi o grande segredo do sistema mundial criado na Europa, no século
16: a inevitável com-plementaridade entre os principais competidores que
disputam situações hegemônicas e que dinamizam o conjunto
do sistema, durante algum tempo, graças à sua competição.
Esta regra não foi obedecida durante a Guerra Fria, quando os Estados
Unidos mantiveram sua competição militar com um país com
o qual não mantinham relações econômicas importantes
para o dinamismo de sua própria economia nacional (a URSS). Além
disso, mantiveram relações econômicas dinâmicas com
países que não tinham autonomia militar nem possibilidade de expandir
seu poder político nacional (a Alemanha e o Japão). Tudo indica
que agora, com a nova relação que vem se consolidando entre os
Estados Unidos e a China, o sistema mundial deva voltar aos seus trilhos “normais”.
Neste momento, os Estados Unidos não têm mais como se desfazer economicamente
da China, mas chegará a hora em que os Estados Unidos terão que
enfrentar o desafio da expansão chinesa, sobretudo quando ela deixar de
ser apenas econômica e assumir a forma de uma vontade política hegemônica
no sudeste asiático, muito antes, portanto, de se transformar num projeto
de poder global.
*Cientista Político