Ano 10 - nº 88
Dezembro 2004



Luis Fernando Verissimo:
O proverbial marciano que chega na Terra sem saber de nada a nosso respeito tem sido muito usado para destacar nossos absurdos. O homenzinho verde é um eterno perplexo. Quando viu um mapa do Brasil e lhe disseram que um dos problemas do país é o de agricultores sem terra, ele quase teve um...




Nei Lisboa:
Um minuto para a meia-noite. Todos na festa têm os relógios sincronizados, as champanhes estão de prontidão e o CD da Ivete Sangalo no pause, aguardando a contagem regressiva. Súbito, ouve-se o toque da campainha. Alguém grita “agora não dá, volta o ano que vem!” , mas um outro resolve arriscar e corre para...



Elisa Lucinda:

Era sempre de noite. Noite absoluta. Eu já pressentia a hora. Raimundo chegava sempre no meio de uma alta escuridão a me trazer o seu amor especial. Chegava chacoalhando as chaves como a um caxixi e já vinha gritando “Luzia, Luzia! Adivinha quem chegou?”. E eu respondia do quarto onde era sempre hora de...





Vá explicar

O proverbial marciano que chega na Terra sem saber de nada a nosso respeito tem sido muito usado para destacar nossos absurdos. O homenzinho verde é um eterno perplexo. Quando viu um mapa do Brasil e lhe disseram que um dos problemas do país é o de agricultores sem terra, ele quase teve um desmaio. Pediu “Amoníaco, amoníaco”, para se restabelecer. Como é que num país com tanta terra, falta terra? E vá você explicar para o homenzinho verde que não é bem assim, porque os latifundiá-rios, porque a propriedade, porque o produtivo e o improdutivo, porque a política e a bancada ruralista, porque isto e porque aquilo. Ele não se convence. Se há país no planeta em que não deveria haver questão fundiária, o que dirá conflito fundiário, é o Brasil. Mas isso na opinião do marciano, que não sabe de nada a nosso respeito.

Aliás, sabe um pouco. Mesmo o marciano mais verde, quando chega, quer conhecer o Pelé, de quem já ouviu falar. E se interessa pelo nosso futebol. Faz perguntas. Fica sabendo que o Brasil é o país do futebol, que aqui se joga o melhor futebol do mundo. Precisa que lhe esclareçam alguns detalhes (como o que é “mundo”), mas entende que o futebol deve ser um grande negócio no Brasil, que com tantas e tão grandes torcidas os campeonatos de futebol no Brasil devem ser das competições mais espetaculares e rentáveis do..., como é mesmo? Mundo. Esse tal de Flamengo, por exemplo. A maior torcida do Brasil, é isso? Onde o Flamengo joga, enche os estádios, é isso? Só a torcida do Flamengo deve garantir o sucesso financeiro dos campeonatos brasileiros, exclama o homenzinho. Bem, diz você, não é bem assim. E conta que o Flamengo está ameaçado de rebaixamento. Que, se não fizer os pontos necessários, cai da primeira divisão, e sua torcida vai junto.

O marciano pisca os seus três olhos, perplexo de novo. Como é? Mas logo se reanima. Isso quer dizer que os campeonatos de futebol do Brasil são tão espetacularmente rentáveis que podem abrir mão da maior torcida do país, só porque o seu time terminou mal na tabela. É isso? Não, diz você. Os campeonatos são deficitários. Os clubes não têm dinheiro. O futebol brasileiro precisa de renda. Não pode dispensar um único torcedor, quanto mais a torcida do Flamengo. E do Grêmio, e do Atlético Mineiro, e do Botafogo, e do Palmeiras, que também são times de grande torcida que podem cair... Mas o que vai se fazer? É o regulamento.

– Amoníaco, amoníaco! – pede o marciano.



 
José Luis Fiori

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