CRUZ ALTA
O drama da Unicruz
Com dívidas que somam cerca de R$ 39
milhões, sem pagar em dia os salários de professores
e parte dos funcionários desde março, e em meio a
uma crise administrativa que ameaça a sua viabilidade, a
Unicruz está sendo alvo de manobras por parte do reitor
afastado pelo Ministério Público, Evandro Kruel.
Depois de ser reempossado por força de um recurso judicial,
o reitor foi pressionado pela mobilização dos trabalhadores
e apresentou seu afastamento em assembléia. A decisão
seria confirmada em audiência convocada pela Justiça
no dia 30 de novembro, mas acabou não acontecendo. Ele ingressou
com novo recurso, dessa vez para suspender as investigações
da Promotoria que apura indícios de “administração
temerária” na sua gestão. “O reitor se
comprometeu com os trabalhadores em se afastar e, para não
fugir à regra que adotou enquanto esteve à frente
da Unicruz, descumpriu mais esse acordo”, assinala Amarildo
Cenci, diretor do Sinpro/RS. Em assembléia realizada na
noite de 30 de novembro, os professores decidiram que entrarão
em greve por tempo indeterminado no caso de uma decisão
judicial favorável ao recurso.
Segundo o dirigente, a crise da instituição vem se
agravando ao longo dos últimos anos. Amarildo destaca que
a mobilização dos trabalhadores e a atuação
do MP têm sido fundamentais para que a realidade da Unicruz
viesse a público. O reitor foi afastado no dia 7 de novembro
pela Justiça por solicitação do MP depois
de um pedido nesse sentido encaminhado pelo Sinpro/RS. A intervenção
ocorreu porque as investigações apontaram indícios
de “gestão temerária”. Por decisão
da 5a Câmara Cível de Porto Alegre, que acatou um
agravo de instrumento impetrado por Kruel, ele foi reconduzido
ao cargo no dia 24, agravando a crise na Unicruz. A resposta dos
professores e funcionários foi imediata. Eles fizeram passeatas,
protestos em frente à Reitoria e bloquearam acessos ao campus,
onde uma vigília com velas reuniu cerca de 2 mil pessoas.
De acordo com o promotor Daniel Cozza Bruno (foto), que conduz
as investigações, a “gestão temerária” se
caracteriza por “colocar em xeque o patrimônio da instituição”.
Extra Classe – O que provocou a intervenção
do MP na Unicruz?
Daniel Cozza Bruno – A finalidade da ação é desvendar
a real situação econômico-financeira da Fundação
e da gestão. O afastamento de seu presidente e funcionários
se deu para assegurar que o objetivo da ação seja
atingido sem interferências. A ação tramita
sob segredo de Justiça, mas pode-se dizer que há provas
que demonstram a existência de uma gestão temerária
da Fundação.
EC – O que é gestão temerária?
Daniel – É sinônimo de gestão ruinosa,
ou seja, que a administração da entidade pode levá-la
a sua inviabilidade por seu patrimônio não ser mais
suficiente para a consecução das finalidades a
que foi criada. É a gestão que põem em xeque
o patrimônio da instituição.
EC – Quando começou
essa crise?
Daniel – Os problemas na Unicruz não são
recentes. Essa é a terceira crise, a mais severa. A comunidade
pode esperar do MP bastante atuação, pois não
nos omitiremos face às irregularidades, que elas já são
objeto de investigação em inquéritos civis
em tramitação na Promotoria.
EC – Qual o papel do MP na fiscalização
das Fundações?
Daniel – As entidades comunitárias devem atuar onde
o Estado não se faz presente e a Lei incumbe o MP de fiscalizar
para garantir que esses serviços atinjam a coletividade.
Cumpre ao MP, além de disposição expressa
de fiscalizar as fundações privadas, garantir a
defesa dos direitos individuais ou sociais indisponíveis,
ou seja, ser um guardião da cidadania.
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