PAMPA pode virar deserto verde
O Rio Grande do Sul entrou com toda a força na rota
dos megainvestimentos da indústria da celulose. O custo
poderá ser a descaracterização definitiva
do Pampa gaúcho. O maior temor dos ambientalistas é a
possibilidade de ocorrer no Rio Grande do Sul o que aconteceu no
Espírito Santo, Uruguai e também no Sul do Chile.
Nestes lugares, os chamados “desertos verdes” reduziram
a água disponível, extinguiram espécies e
também empregos, pois as atividades foram todas mecanizadas.
Os investimentos de três grandes indústrias de celulose
no Rio Grande do Sul estão tirando o sono da maioria dos
ecologistas gaúchos. Empresas estão comprando grandes
quantidades de terra na Metade Sul para a monocultura de árvores
exóticas. Vários órgãos ligados ao
governo do Estado possuem informações diferentes
sobre a quantidade de área que será utilizada. Nos
próximos dez anos pode chegar a 1 milhão de hectares
o total de áreas utilizadas para essa finalidade.
Roberto Villar Belmonte

ex-professora
de Educação Física Ana Camila
Caringi, de 57 anos, costuma passar os fins de semana em seu sítio de
oito hectares em Piratini (RS), na zona Sul do Estado.
Como a família tem terras na região desde o século XIX,
a ligação com o local é intensa. Desde a meninice em Pelotas
ela adora a paisagem dos campos, as árvores dos capões, os arbustos
e as múltiplas pastagens. O gado solto, os pássaros e os animais,
como a coruja, que há tempos já não é mais vista
por aquelas bandas.
A rica diversidade biológica do Pampa faz dele uma espécie de Amazônia
do Rio Grande. Um convívio mais freqüente com esta paisagem pampiana
que forjou a cultura do gaúcho está nos planos de aposentadoria
de Ana, que há 30 anos trabalha em Porto Alegre na Fundação
de Atendimento Socio-educativo (Fase), a ex-Febem, como técnica de recreação.
Mas de maneira inesperada, o sonho bucólico da gaúcha foi embaçado
por uma imagem exótica: a plantação, em filas, de 256 hectares
de eucalipto.
O plantio uniforme, de uma grande indústria de celulose, apareceu ao lado
da chácara da funcionária da Fase. As fileiras de mudas chegam
bem perto da cerca do Sítio do Chico Pitangueira, tanto que a aplicação
de dessecante químico intoxicou a família do capataz. “Eu
não sou contra o progresso, mas estas monoculturas precisam ser controladas”,
suplica. Ana Carolina procurou o movimento ecológico para tentar mobilizar
a imprensa, que, segundo ela, só tem mostrado o lado positivo das novas
plantações industriais.
Investimentos pesados na Região Sul
Os investimentos de três grandes indústrias de celulose no Rio Grande
do Sul estão tirando o sono da maioria dos ecologistas gaúchos.
Enquanto as empresas compram terras na Metade Sul e o órgão ambiental
do Estado trabalha na elaboração do Zoneamento Ambiental da Silvicultura
para disciplinar os plantios de pínus, eucalipto e acácia, ambientalis-tas
alertam que as monoculturas de árvores, ao invés de desenvolvimento,
podem aumentar a pobreza na Metade Sul e transformar a cultura do Pampa.
O clima e o solo do Rio Grande do Sul são os principais atrativos para
as grandes empresas de celulose. O tempo de rotação chega a ser
até 10 vezes menor do que em países nórdicos. Em sete anos
a árvore pode ser “colhida”. Além disso, há facilidade
de acesso marítimo devido à proximidade do Porto de Rio Grande,
domínio tec-nológico para o manejo dos plantios e terras disponíveis.
Calcula-se que entre 3% e 6% dos 15 milhões de hectares da Metade Sul
poderiam ser ocupados pelas árvores exóticas.
O principal temor dos ecologistas é com a possibilidade de ocorrer no
Rio Grande do Sul o que aconteceu no Espírito Santo, Uruguai e também
no Sul do Chile. Nestes lugares, segundo os ambientalistas, os chamados “desertos
verdes” reduziram a água disponível, extinguiram espécies
e também empregos, pois as atividades foram todas mecanizadas. O governo
do Estado garante que as empresas só irão se instalar se cumprirem
todas as normas ambientais, que ainda não foram definidas.
A ecologista Kátia Vascon-cellos Monteiro, do Núcleo Amigos da
Terra Brasil, vê o incentivo às monoculturas de árvores como
um retrocesso para o Rio Grande do Sul. “O governo do Estado tinha que
incentivar a pecuária no Pampa. Um grupo de pecuaristas inclusive já criou
um selo para diferenciar a produção da região. De todas
as atividades econômicas, ela é a que menos impacta e foi a que
manteve os campos até hoje. O José Lutzenberger já defendia
isso”, defende a ambientalista gaúcha.
Movimentos de ecologistas
contra a monocultura
Preocupados, os ecologistas gaúchos estão em contato direto com
o chamado Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, uma rede internacional
com sede em Montevidéu, no Uruguai, e escritório na Inglaterra,
que desde 1998 promove campanhas contra as monoculturas de árvores na
América do Sul, África e Ásia. “Estas plantações
nunca levam em conta a realidade local e sempre são instaladas com forte
apoio dos governos”, avalia Ana Filippini, militante uruguaia da rede.
Entre os danos ambientais denunciados pelo Movimento estão a degradação
do solo, que geralmente fica descoberto nos dois anos após a plantação
e nos dois anos depois da colheita, a erosão e a compactação
gerada pelo uso de máquinas pesadas. Outro grave impacto, apontado por
Ana Filippini, é a escassez dos recursos hídricos em função
do alto consumo de água necessário para as monoculturas. No Sul
do Chile, dois milhões de hectares plantados reduziram a disponibilidade
de água para as comunidades.
“O pior de tudo é que todas estas monoculturas de árvores são
implantadas apenas para satisfazer o consumo insustentável de papel dos
países desenvolvidos. Uma pessoa chega a consumir 320 kg/ano nos Estados
Unidos, contra apenas 28 kg/ano no Brasil. Só que os impactos negativos
ficam com os países do Sul, como no Uruguai, onde foram plantados 700
mil hectares sem o retorno prometido pelas empresas e pelo governo”, reflete
Ana Filippini, do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais.
O termo "reflorestamento" é contestado
No Brasil, também já existe um movimento contra as monoculturas,
trata-se da Rede Alerta contra o Deserto Verde, com sede em Vitória, no
Espírito Santo. “As grandes empresas de celulose estão comprando áreas
brasileiras porque as terras e a mão-de-obra são mais baratas e
as árvores podem ser colhidas rapidamente. Além disso, os governos,
boa parte da academia e a imprensa apóiam”, analisa o holandês
Winfridus Overbeek, um dos militantes da rede que acompanha os danos causados
pelas plantações de pínus e eucalipto.
Overbeek questiona os termos “reflorestamento” e “plantio de
florestas” usados pela indústria da celulose. “Esta é uma
simplificação grosseira. Áreas tomadas por pínus
e eucalipto não são florestas, mas plantios industriais de árvores
exóticas. Na verdade, são imensos desertos verdes”, compara
o ecologista. O termo plantio de florestas foi importado da Europa, onde as florestas
não têm a rica diversidade encontrada no Brasil.
No Espírito Santo, cinco rios foram desviados para abastecer o maior complexo
de produção de madeira para celulose do mundo. Há, segundo
Overbeek, escassez de água em diversas comunidades. Outro problema acompanhado
pela rede é o aumento do desemprego nestas regiões ocupadas pelas
plantações de árvores exóticas. “Muitos desempregados
estão sobrevivendo dos restos dos eucaliptos, que usam para produzir carvão.
Eles são perseguidos pelos seguranças privados e pela polícia”,
relata.
Tecnologia
e omissão dos riscos
A chegada da Stora Enso no Rio Grande do Sul tem espantado o jornalista Júlio
César Prates, do jornal A Hora de Santiago. Ele conta que existe uma euforia
na região em função dos investimentos que a empresa vem
realizando. “Só em Santiago, eles já compraram 9.800 hectares
de fazendas, e estão seduzindo a mídia regional que nada publica
sobre os riscos ambientais destas monoculturas. Também estão comprando
terras em São Francisco de Assis, Manuel Viana, Alegrete e Cacequi”,
relata o jornalista.
Para o presidente da Comissão de Agricultura do Rio Grande do Sul, Elvino
Bohn Gass, as monoculturas de árvores estão sendo vendidas pelo
governo do Estado como uma salvação, da mesma forma que aconteceu
com o capim Anoni e a soja transgênica. “A pobreza da Metade Sul
se deve à baixa diversidade produtiva e à concentração
de terra. A solução não pode ser mais uma monocultura e
a concentração de terras na mão de grandes empresas de celulose”,
questiona o deputado petista.
“O governo do Estado está trabalhando para garantir projetos de florestamento
com sustentabilidade. Estamos exigindo o cumprimento da legislação
ambiental”, garante o agrônomo Floriano Isolan, coordenador do Comitê Executivo
do Arranjo Produtivo de Base Florestal do Rio Grande do Sul, criado em dezembro
de 2004.
“Este é um caminho que estamos encontrando para mudar a capacidade de rentabilidade
da terra na Metade Sul, a região mais pobre do Estado”, justifica
o secretário do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais, Luis Roberto
Ponte.
| Zoneamento disciplinará plantio |
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O diretor
da Divisão de Planejamento e Diagnóstico da Fundação
Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Jackson Muller,
anunciou aos ecologistas gaúchos que em quatro meses será concluído
o levantamento de dados para o Zoneamento Ambiental da Silvicultura.
O estudo vai dizer onde e como podem ser plantadas e manejadas
as árvores exóticas.
De acordo com as estimativas do órgão, a Aracruz, a
Votorantim e a multinacional sueca-finlandesa Stora Enso juntas pretendem
plantar 160.000 hectares de árvores exóticas nos próximos
dez anos. A Fepam determinou à empresa que continue desenvolvendo
projetos para diminuir os impactos negativos da atividade. Os dados
da Fepam são diferentes das informações divulgadas
pelo próprio governo do Estado. De acordo com as notícias
publicadas no site da Caixa RS ( www.caixars.com.br), a área
plantada com árvores exóticas – pínus,
eucalipto e acácia negra – no Rio Grande do Sul deve
subir para um milhão de hectares nos próximos dez anos.
Além das plantações financiadas pelo ProFlora,
também estão previstos plantios próprios das
empresas Votorantim, Aracruz, Stora Enso, Isdra, Satipel, Cambará,
Unidos, Tanac e Seta.
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Continua...
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consumo de água gera polêmica