“Estamos diante de mais um processo de privatização
de lucros e socialização dos custos am-bientais.
Quem irá repor os sais minerais que estão na seiva
bruta das árvores que serão exportadas? O que restará da
fertilidade do solo do nosso Pampa depois da colheita da madeira?”,
questiona o professor Ludwig Buckup, do Departamento de Zoologia
do Instituto de Biociências da Ufrgs e integrante da entidade
ecológica Igre – Amigos da Água, formada por
professores e pesquisadores.
“Eu não sou contra as plantações de árvores
comerciais, a questão é como e onde estes plantios
estão sendo implantados. Os municípios só deveriam
receber estes novos investimentos depois de adotar uma Agenda 21
Local. Mudas de espécies nativas para recomposição
das matas nas margens dos rios também deveriam ser distribuídas,
assim como recursos para exercer um rígido controle contra
a invasão de árvores exóticas em ambientes
nativos”, defende o professor Ludwig Buckup.
O pesquisador e militante da ONG Amigos da Água chama a
atenção para o impacto que o eucalipto poderá ter
em uma região onde já há problemas de acesso
de água, principalmente para as lavouras de arroz. Ludwig
lembra que estas árvores foram utilizadas para secar os
antigos banhados às margens do rio Pinheiros, o que possibilitou
o surgimento dos bairros Jardim Europa e Jardim América
em São Paulo. Pela evaporação, cada eucalipto
eliminaria 36,5 mil litros de água por ano.
O cálculo – retirado de um estudo de Zoraido Ceroni
publicado em 1972 na revista Iheringia, do Museu de Ciências
Naturais – foi usado para estimar qual seria o possível
impacto de 70 mil hectares, com uma produtividade de 500 pés/ha.
Seriam 35 milhões de árvores, com uma evaporação
anual de 1,23 quatrilhão de litros de água retirados
do solo por ano. Na mesma área, onde o índice pluviométrico é de
1500 mm em anos sem estiagem, chove 1,05 quatrilhão de litros
de água. “O volume da chuva ainda é 20% menor
do que vai evaporar de água dos eucaliptos”, estima
Ludwig Buckup.
O professor de Zoobotânica da Ufrgs não está preocupado
apenas com os eucaliptos, mas também com o pínus,
considerada uma árvore exótica invasora. Segundo
Buckup, as plantações existentes no Estado não
têm sub-bosques, não têm luz e não há formação
de húmus na terra. “A fauna e a flora do solo são
praticamente estéreis”, descreve. Existem atualmente
plantações desta árvore dentro dos pinhais
de araucárias, como nas proximidades do Parque Nacional
Aparados da Serra, e também em margens de rios.
Há um pequeno lagarto (Cnemidophorus vacarienses), descrito
em 2000 por Thales De Lema e Aline Feltrin, da PUCRS, que só vive
nos campos gaúchos. Ele habita exclusivamente os afloramentos
de basalto que existem no Planalto, nas lajes nos topos das coxilhas,
onde estão plantando pínus. “Logo esta espécie
estará extinta. E qual a importância deste pequeno
lagarto diante dos vultosos investimentos anunciados? É uma
questão ética. Toda a forma de vida é única
e merece o nosso respeito independente do valor que ela possa ter
para nós”, reflete Buckup.
Problemas em áreas já plantadas em Guaíba
Os impactos das plantações de eucalipto, denunciados
pelo professor Ludwig Buckup, são contestados pelo professor
Solon Longui, do Departamento de Ciências Florestais da Universidade
Federal de Santa Maria. Segundo ele, já existem vastas áreas
plantadas com esta árvore num raio de 180 quilômetros
da cidade de Guaíba e até hoje não foram observados
problemas de escassez de água. Talvez porque o regime hídrico
seja mais intenso do que na Metade Sul, zona tradicionalmente mais
seca.
De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira
dos Produtores de Florestas Plantadas, “o consumo de água
por plantações de eucalipto situa-se dentro da faixa
de variação do consumo apresentado por outras espécies
florestais. Isso ocorre em razão de um mecanismo bem desenvolvido
de controle da transpiração pelas folhas”.
A Abraflor garante que o regime da água no solo e da água
subterrânea sob plantações de eucalipto não
difere marcadamente daquele observado em plantações
de outras espécies florestais.
Em relação ao déficit anual da água
no solo e à dinâmica da água subterrânea,
ou seja, da flutuação e da recarga do lençol
freático, o eucalipto também se comporta, segundo
dados da Abraflor, como qualquer outra espécie florestal.
Durante um ano, o consumo do eucalipto varia entre 800 e 1200 litros
por metro quadrado. Para produzir um quilo de madeira, esta árvore
necessita de 350 litros de água, sendo considerado um consumo
eficiente para a produção de biomassa.
Aves precisam
da mata nativa para sobreviver no inverno
Um
grupo de pesquisadores da Unisinos comparou, de agosto
de 2002 a julho de 2003, a riqueza, abundância
e diversidade de aves existentes em uma área
de floresta nativa (Ombrófila Mista) e outra
com árvores plantadas (araucária, pínus
e eucalipto) dentro da Floresta Nacional do Ibama
em São Francisco de Paula (RS).
Os pesquisadores verificaram que, no geral, as aves não fazem distinção
entre as áreas com vegetação nativa e reflorestada com espécies
exóticas nos meses mais quentes do ano. Porém, durante o outono
e inverno, elas precisam recorrer às áreas com vegetação
nativa, onde provavelmente as condições de sobrevivência
são mais favoráveis.
“
Corroboramos com a recomendação de manter áreas
com vegetação nativa junto a monoculturas, a fim
de fornecer recursos para a manutenção da riqueza
e abundância de espécies”, afirmam as pesquisadoras
Gislene Ganade, Vanda Fonseca, Cristiane de Leis e Maria Petrya
no estudo sobre a “Distribuição da avifauna
em áreas de vegetação nativa e reflorestada
em São Francisco de Paula (RS)”.
Nos quatro ambientes estudados, foram registradas 59 espécies de aves,
distribuídas em 24 famílias. A Floresta Ombrófila Mista
concentrou a maior riqueza (42 espécies), abundância (253 indivíduos)
e maior diversidade, seguida, nesta ordem, pelo reflorestamento com araucária,
pínus e eucalipto.
A rica diversidade do Pampa
O Mapa de Biomas do Brasil, do IBGE e do Ministério do Meio
Ambiente, mostra que o Pampa só existe no Rio Grande do
Sul em uma área de 176.496 km2, o que representa 2,07% do
território brasileiro e 63% do território gaúcho. “Existem
nos campos gaúchos mais de 3 mil espécies de plantas
superiores, 450 delas são espécies de gramíneas
forrageiras e 150 de leguminosas também forrageiras, a maioria
com alto potencial produtivo e qualitativo. Esta enorme diversidade é responsável
pela preservação do solo e também por uma
fauna muito rica, incluindo aí mamíferos, pássaros
e répteis, além de uma microfauna também riquíssima”,
explica o professor Carlos Nabinger, da Faculdade de Agronomia
da Ufrgs.
De acordo com o pesquisador, estima-se que atualmente restam preservados
apenas 8 milhões dos 17 milhões de hectares originalmente
ocupados pelos campos gaúchos. A redução da
biodiversidade ocorre em função do avanço
das lavouras e em alguns casos pelo mau uso do solo pela pecuária,
com carga excessiva de animais. Carlos Nabinger garante que já existem
tecnologias disponíveis para elevar de maneira significativa
o desempenho da pecuária gaúcha, o que deveria ser
incentivado ao invés das monoculturas de árvores.
Os estudos realizados em pastagens naturais pelo Departamento de
Plantas Forrageiras e Agrometeorologia da Ufrgs demonstram a possibilidade
de aumentar a produção de carne (em sistemas de recria
e terminação) em pelo menos três vezes a média
estadual. “E isto a custo zero! Ou seja, simplesmente ajustando
corretamente a carga animal e usando práticas simples como
retirar os animais de um potreiro por algum tempo para permitir
a acumulação de forragem para os períodos
de baixa produção de pasto, o florescimento e a sementação
de espécies desejáveis, o que também melhora
as condições físicas do solo aumentando o
vigor das plantas”, informa Nabinger
Para evitar mais danos aos campos gaúchos, o professor Carlos
Nabinger sugere ainda que os plantios de árvores exóticas
para produção de celulose sejam rigidamente disciplinados
para que não ocorra o que aconteceu com o avanço
da sojicultura no Rio Grande do Sul. Os produtores rurais devastaram
milhares de hectares do Estado e depois tiveram que abandonar as
lavouras, pois elas estavam em áreas que não eram
próprias para estes cultivos.
Prioridade
de governo
O
governo do Estado trabalha para transformar o Rio
Grande do Sul em um pólo mundial de produção
de madeira. O primeiro passo foi dado no dia 23 de
abril de 2004, quando a CaixaRS Fomento Econômico
e Social lançou o Programa de Financiamento
Florestal Gaúcho (ProFlora) com o objetivo
de incentivar o plantio das três árvores
exóticas exploradas comercialmente: pínus,
eucalipto e acácia negra.
Com o objetivo de organizar a cadeia produtiva e expandir
o setor de madeiras comerciais, o governador Germano
Rigotto assinou decreto no dia 9 de dezembro de 2004
que criou o Comitê Gestor do Arranjo Produtivo
de Base Florestal do Rio Grande do Sul, coordenado
pela CaixaRS. O grupo é integrado por representantes
do governo, de entidades do setor, das indústrias
e das universidades.
A demanda da indústria de base florestal instalada
no Rio Grande do Sul, calculada em 30 mil hectares/ano, é maior
do que a oferta. Com o ProFlora, o governo quer reverter
esta situação. Os recursos, captados
no BNDES, financiam até R$ 150 mil por projeto
individual anual, com taxas de juros de 8,75% ao ano,
sem correção monetária, prazo
de amortização de até 12 anos
e carência de até 8 anos.
Já foram financiados 267 projetos para o plantio
de cerca de 17 mil hectares, totalizando R$ 23,4 milhões,
parte destes recursos liberados em parceria com a Aracruz
Celulose. A Metade Sul do Rio Grande do Sul recebeu
82% do valor dos projetos aprovados. Segundo o governo
do Estado, a cada 100 hectares de florestas plantadas,
seriam criados sete postos de trabalho diretos.
Há uma expectativa de aumentar os atuais 200
mil empregos diretos e indiretos do setor, com faturamento
atual de R$ 3,5 bilhões, para 400 mil postos
de trabalho. Apenas o setor moveleiro gera atualmente
33 mil empregos diretos, segundo dados da Associação
Gaúcha de Empresas Florestais. Na área
de serrarias, são 15 mil vagas diretas, número
que chega a 10 mil no segmento de marcenarias.
A meta do governo do Estado é induzir até 2006
o plantio de 120 mil hectares, principalmente na Metade
Sul. Há ainda investimentos privados. O Grupo
Votorantim já investiu R$ 310 milhões
em 28,5 mil hectares de terra em 30 municípios
da Metade Sul, que já teriam gerado 900 empregos
diretos. Do total da área adquirida, 65% estão
reservados para o plantio de eucalipto e os 35% restantes
serão, segundo a empresa, transformados em área
de preservação.
NOTAS
- No dia 3
de novembro de 2005, o Diretor-Presidente da Votorantim Celulose
e Papel, José Luciano Penido, anunciou no Palácio
Piratini a decisão de instalar uma fábrica de celulose
na Metade Sul para exportar pelo Porto de Rio Grande 1 milhão
de toneladas anuais de celulose para Europa, Estados Unidos e Ásia.
O investimento de US$ 1,3 bilhão prevê uma base florestal
de 100 mil hectares até 2010, 70% com terras próprias
e o restante de terceiros. O viveiro da empresa, localizado em
Capão do Leão, terá capacidade de 30 milhões
de mudas por ano.
- Outra grande indústria que vem trabalhando para aumentar
a sua base florestal é a Aracruz Celulose. A empresa já investiu
R$ 100 milhões na fábrica de Guaíba e mais
R$ 50 milhões em melhorias e expansão florestal.
Até março de 2006, a empresa quer ampliar a capacidade
instalada das atuais 400 mil toneladas para 430 mil toneladas
anuais de celulose branqueada de eucalipto. E, até 2007,
a fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro (RS), vai aumentar
a capacidade de produção de 10 milhões para
30 milhões de mudas de eucalipto.
- A CaixaRS também firmou uma parceria com a empresa
Stora Enso para financiar projetos de plantio de árvores
exóticas destinados a futuros fornecimentos de madeira.
No dia 10 de outubro de 2005, a multinacional anunciou que está investindo
US$ 50 milhões na compra de 50 mil hectares nos municípios
de Alegrete, Cacequi, Maçambará, Manuel Viana,
Rosário do Sul, Santiago, São Francisco de Assis
e Unistalda.
- A madeira produzida pela Stora Enso, no Rio Grande
do Sul e também no Uruguai, será usada em uma fábrica
de celulose a ser construída no Estado. O investimento
estimado é de US$ 800 milhões. A multinacional é líder
mundial na produção e comercialização
de papel e celulose, com uma capacidade de produção
anual de 16,4 milhões de toneladas de papel e 7,7 milhões
de metros cúbicos de madeira processada.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br