Ano 10 - nº 98
Dezembro 2005



Luis Fernando Verissimo:
Tínhamos perdido o filme Crash aí e fomos vê-lo aqui. É, entre outras coisas, sobre o racismo no cotidiano americano, tratado com inédita honestidade. No filme, um dos personagens negros expõe a outro sua teoria conspiratória sobre o hip-hop,...




Nei Lisboa:
Pode soar como auto-comiseração ou inconsistência, mas a verdade é que não sou sujeito dos mais criativos. Tudo o que fiz, em letra e música, até hoje, me custou um bocado de tempo, suor, trabalho, muita folha amassada e muita idéia abandonada pela metade.



Elisa Lucinda:

Desde pequena,
a poesia escolheu meu coração.
Através de sua inconfundível mão,
colheu-o e o fez
se certificando da oportunidade
e da profundeza da ocasião.
Como era um coração ainda raso,
de criança que se deixa fácil levar pela mão,
sabia ela que o que era fina superfície clara até então,
seria um dia o fundo misterioso do porão.





Alto consumo de água gera polêmica

“Estamos diante de mais um processo de privatização de lucros e socialização dos custos am-bientais. Quem irá repor os sais minerais que estão na seiva bruta das árvores que serão exportadas? O que restará da fertilidade do solo do nosso Pampa depois da colheita da madeira?”, questiona o professor Ludwig Buckup, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Ufrgs e integrante da entidade ecológica Igre – Amigos da Água, formada por professores e pesquisadores.

“Eu não sou contra as plantações de árvores comerciais, a questão é como e onde estes plantios estão sendo implantados. Os municípios só deveriam receber estes novos investimentos depois de adotar uma Agenda 21 Local. Mudas de espécies nativas para recomposição das matas nas margens dos rios também deveriam ser distribuídas, assim como recursos para exercer um rígido controle contra a invasão de árvores exóticas em ambientes nativos”, defende o professor Ludwig Buckup.

O pesquisador e militante da ONG Amigos da Água chama a atenção para o impacto que o eucalipto poderá ter em uma região onde já há problemas de acesso de água, principalmente para as lavouras de arroz. Ludwig lembra que estas árvores foram utilizadas para secar os antigos banhados às margens do rio Pinheiros, o que possibilitou o surgimento dos bairros Jardim Europa e Jardim América em São Paulo. Pela evaporação, cada eucalipto eliminaria 36,5 mil litros de água por ano.

O cálculo – retirado de um estudo de Zoraido Ceroni publicado em 1972 na revista Iheringia, do Museu de Ciências Naturais – foi usado para estimar qual seria o possível impacto de 70 mil hectares, com uma produtividade de 500 pés/ha. Seriam 35 milhões de árvores, com uma evaporação anual de 1,23 quatrilhão de litros de água retirados do solo por ano. Na mesma área, onde o índice pluviométrico é de 1500 mm em anos sem estiagem, chove 1,05 quatrilhão de litros de água. “O volume da chuva ainda é 20% menor do que vai evaporar de água dos eucaliptos”, estima Ludwig Buckup.

O professor de Zoobotânica da Ufrgs não está preocupado apenas com os eucaliptos, mas também com o pínus, considerada uma árvore exótica invasora. Segundo Buckup, as plantações existentes no Estado não têm sub-bosques, não têm luz e não há formação de húmus na terra. “A fauna e a flora do solo são praticamente estéreis”, descreve. Existem atualmente plantações desta árvore dentro dos pinhais de araucárias, como nas proximidades do Parque Nacional Aparados da Serra, e também em margens de rios.

Há um pequeno lagarto (Cnemidophorus vacarienses), descrito em 2000 por Thales De Lema e Aline Feltrin, da PUCRS, que só vive nos campos gaúchos. Ele habita exclusivamente os afloramentos de basalto que existem no Planalto, nas lajes nos topos das coxilhas, onde estão plantando pínus. “Logo esta espécie estará extinta. E qual a importância deste pequeno lagarto diante dos vultosos investimentos anunciados? É uma questão ética. Toda a forma de vida é única e merece o nosso respeito independente do valor que ela possa ter para nós”, reflete Buckup.

Problemas em áreas já plantadas em Guaíba

Os impactos das plantações de eucalipto, denunciados pelo professor Ludwig Buckup, são contestados pelo professor Solon Longui, do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Santa Maria. Segundo ele, já existem vastas áreas plantadas com esta árvore num raio de 180 quilômetros da cidade de Guaíba e até hoje não foram observados problemas de escassez de água. Talvez porque o regime hídrico seja mais intenso do que na Metade Sul, zona tradicionalmente mais seca.

De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira dos Produtores de Florestas Plantadas, “o consumo de água por plantações de eucalipto situa-se dentro da faixa de variação do consumo apresentado por outras espécies florestais. Isso ocorre em razão de um mecanismo bem desenvolvido de controle da transpiração pelas folhas”. A Abraflor garante que o regime da água no solo e da água subterrânea sob plantações de eucalipto não difere marcadamente daquele observado em plantações de outras espécies florestais.

Em relação ao déficit anual da água no solo e à dinâmica da água subterrânea, ou seja, da flutuação e da recarga do lençol freático, o eucalipto também se comporta, segundo dados da Abraflor, como qualquer outra espécie florestal. Durante um ano, o consumo do eucalipto varia entre 800 e 1200 litros por metro quadrado. Para produzir um quilo de madeira, esta árvore necessita de 350 litros de água, sendo considerado um consumo eficiente para a produção de biomassa.

Aves precisam da mata nativa para sobreviver no inverno
Um grupo de pesquisadores da Unisinos comparou, de agosto de 2002 a julho de 2003, a riqueza, abundância e diversidade de aves existentes em uma área de floresta nativa (Ombrófila Mista) e outra com árvores plantadas (araucária, pínus e eucalipto) dentro da Floresta Nacional do Ibama em São Francisco de Paula (RS).

Os pesquisadores verificaram que, no geral, as aves não fazem distinção entre as áreas com vegetação nativa e reflorestada com espécies exóticas nos meses mais quentes do ano. Porém, durante o outono e inverno, elas precisam recorrer às áreas com vegetação nativa, onde provavelmente as condições de sobrevivência são mais favoráveis.

“ Corroboramos com a recomendação de manter áreas com vegetação nativa junto a monoculturas, a fim de fornecer recursos para a manutenção da riqueza e abundância de espécies”, afirmam as pesquisadoras Gislene Ganade, Vanda Fonseca, Cristiane de Leis e Maria Petrya no estudo sobre a “Distribuição da avifauna em áreas de vegetação nativa e reflorestada em São Francisco de Paula (RS)”.

Nos quatro ambientes estudados, foram registradas 59 espécies de aves, distribuídas em 24 famílias. A Floresta Ombrófila Mista concentrou a maior riqueza (42 espécies), abundância (253 indivíduos) e maior diversidade, seguida, nesta ordem, pelo reflorestamento com araucária, pínus e eucalipto.

A rica diversidade do Pampa

O Mapa de Biomas do Brasil, do IBGE e do Ministério do Meio Ambiente, mostra que o Pampa só existe no Rio Grande do Sul em uma área de 176.496 km2, o que representa 2,07% do território brasileiro e 63% do território gaúcho. “Existem nos campos gaúchos mais de 3 mil espécies de plantas superiores, 450 delas são espécies de gramíneas forrageiras e 150 de leguminosas também forrageiras, a maioria com alto potencial produtivo e qualitativo. Esta enorme diversidade é responsável pela preservação do solo e também por uma fauna muito rica, incluindo aí mamíferos, pássaros e répteis, além de uma microfauna também riquíssima”, explica o professor Carlos Nabinger, da Faculdade de Agronomia da Ufrgs.

De acordo com o pesquisador, estima-se que atualmente restam preservados apenas 8 milhões dos 17 milhões de hectares originalmente ocupados pelos campos gaúchos. A redução da biodiversidade ocorre em função do avanço das lavouras e em alguns casos pelo mau uso do solo pela pecuária, com carga excessiva de animais. Carlos Nabinger garante que já existem tecnologias disponíveis para elevar de maneira significativa o desempenho da pecuária gaúcha, o que deveria ser incentivado ao invés das monoculturas de árvores.

Os estudos realizados em pastagens naturais pelo Departamento de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia da Ufrgs demonstram a possibilidade de aumentar a produção de carne (em sistemas de recria e terminação) em pelo menos três vezes a média estadual. “E isto a custo zero! Ou seja, simplesmente ajustando corretamente a carga animal e usando práticas simples como retirar os animais de um potreiro por algum tempo para permitir a acumulação de forragem para os períodos de baixa produção de pasto, o florescimento e a sementação de espécies desejáveis, o que também melhora as condições físicas do solo aumentando o vigor das plantas”, informa Nabinger

Para evitar mais danos aos campos gaúchos, o professor Carlos Nabinger sugere ainda que os plantios de árvores exóticas para produção de celulose sejam rigidamente disciplinados para que não ocorra o que aconteceu com o avanço da sojicultura no Rio Grande do Sul. Os produtores rurais devastaram milhares de hectares do Estado e depois tiveram que abandonar as lavouras, pois elas estavam em áreas que não eram próprias para estes cultivos.

Prioridade de governo
O governo do Estado trabalha para transformar o Rio Grande do Sul em um pólo mundial de produção de madeira. O primeiro passo foi dado no dia 23 de abril de 2004, quando a CaixaRS Fomento Econômico e Social lançou o Programa de Financiamento Florestal Gaúcho (ProFlora) com o objetivo de incentivar o plantio das três árvores exóticas exploradas comercialmente: pínus, eucalipto e acácia negra.

Com o objetivo de organizar a cadeia produtiva e expandir o setor de madeiras comerciais, o governador Germano Rigotto assinou decreto no dia 9 de dezembro de 2004 que criou o Comitê Gestor do Arranjo Produtivo de Base Florestal do Rio Grande do Sul, coordenado pela CaixaRS. O grupo é integrado por representantes do governo, de entidades do setor, das indústrias e das universidades.

A demanda da indústria de base florestal instalada no Rio Grande do Sul, calculada em 30 mil hectares/ano, é maior do que a oferta. Com o ProFlora, o governo quer reverter esta situação. Os recursos, captados no BNDES, financiam até R$ 150 mil por projeto individual anual, com taxas de juros de 8,75% ao ano, sem correção monetária, prazo de amortização de até 12 anos e carência de até 8 anos.

Já foram financiados 267 projetos para o plantio de cerca de 17 mil hectares, totalizando R$ 23,4 milhões, parte destes recursos liberados em parceria com a Aracruz Celulose. A Metade Sul do Rio Grande do Sul recebeu 82% do valor dos projetos aprovados. Segundo o governo do Estado, a cada 100 hectares de florestas plantadas, seriam criados sete postos de trabalho diretos.

Há uma expectativa de aumentar os atuais 200 mil empregos diretos e indiretos do setor, com faturamento atual de R$ 3,5 bilhões, para 400 mil postos de trabalho. Apenas o setor moveleiro gera atualmente 33 mil empregos diretos, segundo dados da Associação Gaúcha de Empresas Florestais. Na área de serrarias, são 15 mil vagas diretas, número que chega a 10 mil no segmento de marcenarias.

A meta do governo do Estado é induzir até 2006 o plantio de 120 mil hectares, principalmente na Metade Sul. Há ainda investimentos privados. O Grupo Votorantim já investiu R$ 310 milhões em 28,5 mil hectares de terra em 30 municípios da Metade Sul, que já teriam gerado 900 empregos diretos. Do total da área adquirida, 65% estão reservados para o plantio de eucalipto e os 35% restantes serão, segundo a empresa, transformados em área de preservação.

NOTAS
- No dia 3 de novembro de 2005, o Diretor-Presidente da Votorantim Celulose e Papel, José Luciano Penido, anunciou no Palácio Piratini a decisão de instalar uma fábrica de celulose na Metade Sul para exportar pelo Porto de Rio Grande 1 milhão de toneladas anuais de celulose para Europa, Estados Unidos e Ásia. O investimento de US$ 1,3 bilhão prevê uma base florestal de 100 mil hectares até 2010, 70% com terras próprias e o restante de terceiros. O viveiro da empresa, localizado em Capão do Leão, terá capacidade de 30 milhões de mudas por ano.

- Outra grande indústria que vem trabalhando para aumentar a sua base florestal é a Aracruz Celulose. A empresa já investiu R$ 100 milhões na fábrica de Guaíba e mais R$ 50 milhões em melhorias e expansão florestal. Até março de 2006, a empresa quer ampliar a capacidade instalada das atuais 400 mil toneladas para 430 mil toneladas anuais de celulose branqueada de eucalipto. E, até 2007, a fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro (RS), vai aumentar a capacidade de produção de 10 milhões para 30 milhões de mudas de eucalipto.

- A CaixaRS também firmou uma parceria com a empresa Stora Enso para financiar projetos de plantio de árvores exóticas destinados a futuros fornecimentos de madeira. No dia 10 de outubro de 2005, a multinacional anunciou que está investindo US$ 50 milhões na compra de 50 mil hectares nos municípios de Alegrete, Cacequi, Maçambará, Manuel Viana, Rosário do Sul, Santiago, São Francisco de Assis e Unistalda.

- A madeira produzida pela Stora Enso, no Rio Grande do Sul e também no Uruguai, será usada em uma fábrica de celulose a ser construída no Estado. O investimento estimado é de US$ 800 milhões. A multinacional é líder mundial na produção e comercialização de papel e celulose, com uma capacidade de produção anual de 16,4 milhões de toneladas de papel e 7,7 milhões de metros cúbicos de madeira processada.

PARA SABER MAIS
- Rede Alerta contra o Deserto Verde: www.desertoverde.org
- Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais: www.wrm.org.uy
- Núcleo Amigos da Terra Brasil: www.natbrasil.org.br
- Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas: www.abraflor.org.br
- Sociedade Brasileira de Silvicultura: www.sbs.org.br
- Departamento de Ciências Florestais da UFSM: www.ufsm.br/ccr





Anterior...
Pampa pode virar deserto verde




Cordel, trova, pajada e outros versos
O Nordeste e o Sul do Brasil nunca estiveram tão próximos. Na cultura popular, o ritmo dos repentistas e a literatura de cordel registram os costumes e a vida dos habitantes das terras de clima ensolarado e árido.



A democracia relativizada de Zaverucha
César Fraga
Jorge Zaverucha, Ph.D. e professor da Universidade Federal de Pernambuco, em seu livro FHC, forças armadas e polícia – entre o autoritarismo e a democracia 1992-2002, faz alguns questionamentos intrigantes que...





Marcha dos Sem completou 10 anos
A 10ª Marcha dos Sem reuniu no último dia 25, em Porto Alegre, cerca de oito mil pessoas e marcou os 10 anos no movimento. Várias colunas partiram de diferentes pontos da cidade...





Para o envio de cartas, sugestões e comentários para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br - Extra Classe é uma publicação mensal do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul - SINPRO/RS - Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha - Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51) 4009.2917 - http://www.sinprors.org.br