A democracia relativizada de Zaverucha
César Fraga

orge
Zaverucha, Ph.D. e professor da Universidade Federal de Pernambuco,
em seu
livro
FHC, forças armadas e polícia – entre o autoritarismo
e a democracia 1992-2002 (editora Record, 286 págs.), faz alguns questionamentos
intrigantes que relativizam, e muito, a crença no Estado democrático
brasileiro. Ele lança algumas perguntas que servem não só para
fomentar o debate que propõe, mas também para chacoalhar alguns
paradigmas políticos dados como estabelecidos. O que leva algumas pessoas
a acreditarem na consolidação da democracia brasileira enquanto
outras mencionam sua fragilidade e até mesmo o risco de golpe de Estado?
Como explicar a ampla crença na estabilidade democrática brasileira,
se apenas 37% dos brasileiros consideram a democracia o melhor sistema de governo?
Qual o significado de 65% dos brasileiros não se importarem em serem submetidos
a um governo não-democrático contanto que ele resolvesse os problemas
econômicos do país? Corremos o risco de nos transformar em uma democracia
sem democratas? Afinal, em que direção a democracia brasileira
está caminhando?
Ele define a democracia brasileira como meramente formal, restringindo-se a uma
competição eleitoral. “O Brasil tem belas leis, mas muitas
delas são violadas e poucos são os punidos; em especial, se forem
membros da elite política, social, econômica ou militar. Um Estado
de direito democrático pressupõe a existência de segurança
jurídica. Esta só pode florescer quando há uma ordem conhecida
e respeitada. O que definitivamente não é o nosso caso”,
afirma.
Para Jorge Zaverucha, os vários anos de governo civil não foram
capazes de desestruturar a linha de comando dos militares, pois eles continuam
detendo a mesma espécie de poder que experimentavam na época da
ditadura. E parece que nada mudou. Vinte anos após o fim do regime autoritário,
o Brasil está longe de consolidar sua democracia.
Conforme avançamos na leitura de seu livro, vamos percebendo que a democracia
em que vivemos é demasiado tênue e sem tradição. Essa
fragilidade já havia sido abordada anteriormente em
Frágil democracia:
Collor, Itamar, FHC e os militares, há cinco anos. Zaverucha analisa a
ingerência das Forças Armadas no poder civil do país e revela
que, em oito anos de governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso, além
de ter sido incapaz de alterar a Constituição de 1988, que ainda
mantém resquícios da Carta autoritária de 1967, aumentou
a “militarização” da segurança pública.
O livro comprova que, apesar de decorridos vinte anos do fim do regime autoritário,
estamos longe de consolidar a democracia brasileira.
Jorge Zaverucha é coordenador do Núcleo de Instituições
Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é mestre em
Ciência Política pela Universidade Hebraica de Jerusalém,
doutor em Ciência Política pela Universidade de Chicago e autor
de
Frágil democracia: Collor, Itamar, FHC e os militares, 1990-1998 (2000);
Rumor de sabres (1994) e
Polícia civil de Pernambuco: o desafio da reforma(2003), e organizador do volume
Democracia
e instituições políticas
brasileiras no final do século XX. O professor respondeu ao Extra Classe
por e-mail e telefone no intervalo de suas aulas no último dia 29 de novembro.
Extra Classe – Na sua avaliação, por que os brasileiros
são pouco afeitos ao ambiente democrático?
Jorge Zaverucha – No dia em que a democracia funcionar e ajudar
a resolver os problemas da maioria da população brasileira, ela
será respeitada e defendida. Os brasileiros são pragmáticos:
entre uma geladeira cheia num regime autoritário e desemprego na democracia,
fique-se com a primeira opção.
EC – Qual a principal herança do governo FHC
em sua relação com os militares enquanto presidente?
Zaverucha – FHC tentou passar um verniz e mostrar que controlava
os militares. Ledo engano. Em alguns momentos até retrocedeu. Por exemplo,
apoiou a aprovação de lei transformando o policial militar em militar
estadual!
EC – Na comparação entre os governos
FHC e Lula, como tem se saído o atual governo em sua relação
com o poder ainda existente dos militares?
Zaverucha – FHC e Lula são dois lados da mesma moeda.
EC – Qual moeda?
Zaverucha – Da moeda de não estabelecer o controle civil
sobre os militares. O PT apresentou três projetos para extinção
da Lei de Segurança Nacional durante o governo FHC. Chegou ao poder, e
não tocou no assunto.
Falar e escrever
melhor
A professora
de Semiótica, escritora e poeta, Clair Alves, lança
simultaneamente pela editora Vozes A arte de falar bem (130 páginas)
e A arte de escrever bem (158 páginas). Embora os títulos
sugiram auto-ajuda, a proposta da autora passa longe. São
um apanhado de recursos e técnicas de escrita e fala,
organizados e colocados de forma acessível ao leitor comum.
A autora tomou como base estudos técnicos e científicos
e farta pesquisa bibliográfica. O fato é que no
Brasil se escreve muito mal, e manuais de bem-falar e bem-escrever,
principalmente quando vindos de boa procedência – de
quem respeita e ama a palavra escrita –, sempre são
bem-vindos. Indicado para profissionais e estudantes que queiram
conhecer técnicas e aprimorar seus dotes de comunicação.
Clair Alves é especialista em Lingüística
Aplicada ao Português e Literatura, leciona na Urcamp e
participa de estudos relacionados na Ufrgs. www.vozes.com.br.
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BETTEGA É PREMIADO
O contista gaúcho Amilcar Bettega – autor do livro de contos Os
lados do círculo (Companhia das Letras) e atualmente morando em Paris – foi
o grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira
para livros publicados em 2004. Ele levou os R$ 100 mil do prêmio principal.
O mineiro Silviano Santiago ficou com os R$ 35 mil do segundo lugar por seu
romance
O falso mentiroso (Rocco). Em terceiro, com R$ 15 mil, ficou Edgard
Telles Ribeiro, nascido no Chile, por suas
Histórias mirabolantes de
amores clandestinos (Record). A cerimônia de um dos maiores prêmios
literários do país contou com a participação de
Luis Fernando Verissimo tocando “Aquarela do Brasil” no saxofone,
acompanhado da banda Jazz Seis. No ano passado, o prêmio principal foi
entregue ao poeta e tradutor Paulo Henriques Britto. Em 2003, foram agraciados
Dalton Trevisan e Bernardo Carvalho.