Cordel, trova, pajada e outros versos
O Nordeste e o Sul do Brasil nunca estiveram tão próximos.
Na cultura popular, o ritmo dos repentistas e a literatura de cordel
registram os costumes e a vida dos habitantes das terras de clima
ensolarado e árido. E, no Sul dos pampas e do frio de renguear
cusco, os trovadores e os pajadores entoam seus poemas e rimas
com a mesma maestria. As semelhanças vêm de origem – tanto
as trovas e pajadas como o cordel têm uma influência
lusa e espanhola – e, assim como os trovadores, os cordelistas
geralmente usam como tema histórias regionais. A diferença é que
os cordéis já começam a ganhar a atenção
nas escolas e universidades. Enquanto isso, os registros das trovas
e das pajadas ainda ficam restritos aos CDs, festivais e torneios
que se espalham pelo Rio Grande do Sul.
Clarinha Glock

ão é por acaso que o
cordelista e xilogravurista pernambucano José Francisco Borges, o J. Borges, é um
dos
homenageados na exposição itinerante “O universo da literatura
de cordel” que três cidades francesas vão abrigar até janeiro
de 2006 em comemoração ao Ano do Brasil na França. São
de Borges também as ilustrações do livro
As palavras
andantes,
de Eduardo Galeano. Seus finos livretos de capa rosa, azul e amarela com a legítima
literatura de cordel transformaram sua vida. A literatura
de cordel não só alfabetizou Borges, como agora está em
algumas salas de aula no Nordeste. O professor Janduhi Dantas Nóbrega,
que trabalha num cursinho pré-vestibular em Princesa Isabel e é técnico
judiciário em Juazeirinho, na Paraíba, uniu sua veia de poeta cordelista
e a arte de ensinar e escreveu o livro
A gramática no cordel*. A idéia
iniciou quando, ao preparar as aulas, começava a cantarolar o que estava
lendo e percebia que ali dava pra fazer um verso. Ao ilustrar as aulas com esses
versos, a resposta da turma foi de imediata aceitação. O estalo
para escrever o livro veio num dia em que lia cordel para os filhos Mateus, 13
anos, e Bianca, de 12: eles pediram para suspender a leitura porque tinham que
estudar para uma prova de Gramática.
Se várias gerações de Nordestinos foram alfabetizadas por
meio da literatura de cordel, isso não acontece muito hoje, lamenta Nóbrega. “Pior,
quase não há a presença de cordelistas nas feiras livres
do interior do Nordeste”, observa. Apesar disso, o cordel vive um momento
de revitalização justamente por intermédio da escola, já que
algumas secretarias de educação têm adquirido folhetos para
as bibliotecas. Também a internet tem contribuído, com várias
páginas dedicadas ao tema. Se o cordel pode, por que as trovas gaúchas
ainda não tomaram conta dos espaços populares e se firmaram também
no papel?
Uma das explicações, segundo a professora Regina Zilberman, diretora
do Instituto Estadual do Livro, pode ser o fato de que a cultura oral no Nordeste é muito
forte. A cultura oral do Rio Grande do Sul foi absorvida pela cultura letrada
a partir do progresso e do aumento da escolarização. “O adubo
deste tipo de produção literária, que é a poesia,
se mantém em alguns bolsões, mas não de forma tão
espontânea – quando acontece, é na forma de festivais de música,
nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), e por isso têm
um conteúdo mais saudosista”, analisa a professora. Os cordéis,
ao contrário, são uma forma de comunicação e de tradução
de vivências muito atual.
No Nordeste, em setembro de 2001 foi publicado um cordel sobre o atentado às
torres gêmeas em Nova Iorque. Na época do ex-presidente Fernando
Collor havia outro sobre os marajás. As pessoas tomam conhecimento dos
acontecimentos pelos cordéis. “A cultura popular é coletiva,
anônima, não tem como ser induzida, senão vai ter um caráter
postiço, artificial”, defende Regina. “As pessoas não
andam a cavalo ou de bombacha normalmente, isso é motivado, induzido,
enquanto no Nordeste, nas feiras, elas estão ali mesmo, produzindo seus
artigos de barro”, compara.
*A gramática no cordel, de Janduhi Dantas Nóbrega, está sendo
vendido em livrarias da Paraíba, São Paulo e Natal. O sonho de
Nóbrega é encontrar uma editora de porte que queira editar e distribuir
o livro em nível nacional. A quarta edição, com 70 estrofes
a mais que as 261 das anteriores, pode ser comprada pelo Correio por R$ 17,00,
sem taxa de envio. Pedidos pelo e-mail jdantasn@yahoo.com.br.
Décimas foram o cordel gaúcho
Na verdade, um tipo de registro muito mais parecido com a literatura de cordel
do que a trova e a pajada existiu no Rio Grande do Sul nas décadas de
30 a 50, informa o pesquisador Derly Silva, do Serviço de Tradição
e Folclore da Casa de Cultura de Sapucaia do Sul. Ele coleciona raros exemplares
do que se chamava na época de “Décima”, que do nome
não tinham muito, porque, em sua maioria, traziam estrofes de até seis
linhas. Quando garoto, Silva morava entre os municípios de Palmeira das
Missões e Santa Bárbara e precisava se deslocar até Tupanciretã para
estudar. Na viagem de trem, era comum seus pais comprarem folhas avulsas, impressas,
com versos que divertiam e informavam os viajantes. Eram as “Décimas”.
Há quem diga que a palavra era usada como sinônimo de história – “Fulano
fez uma décima” – por isso o nome.
Silva guarda cópias de O triste fim de Sofia, de autor desconhecido, O
dinheiro faz o orgulho, de Henrique Falcedo, Visita de um gaúcho a Farroupilha
num cavalo perereca, de Tenório Raimundo (da cidade de Júlio de
Castilhos). O sofrer de um cego, de Hermes Dionísio Bertollo, traz na
capa o preço de venda da época: Cr$ 1,00. Silva conheceu Dário
Ramos, autor de A trágica morte de Getúlio Vargas, que fazia um
programa de rádio. E havia até versos de oferecimento e agradecimento,
com patrocínio das “Pílulas para Tudo”, datados de
9 de fevereiro de 1935, de Marcos S. Teixeira, do distrito de Santa Maria.
“Acho que as ‘Décimas’ desapareceram pelo avanço do
rádio e da televisão”, palpita Silva. Organizador de festivais
de trova – o de Sapucaia do Sul é o mais antigo, está na
22ª edição, e há outros 17 no Estado –, o pesquisador
lembra da diferença: a “Décima” era escrita, embora
até pudesse ser decorada e cantada. Mas trovadores e pajadores se firmaram
basicamente como re-pentistas. Se as “Décimas”, como o cordel,
falavam de questões sociais e políticas, as trovas acabam se ligando
mais aos temas nativistas, como saudade da querência, rodeios, chimarrão. “Os
festivais de repentismo não avaliam o conhecimento de história
nem de português, mas o repentismo em si”, explica. Por sua vez,
a pajada trata de recitar versos, em vez de cantar.
O grande mestre da pajada foi Jayme Caetano Braun. Seu discípulo e divulgador,
o compositor Paulo de Freitas Mendonça, diretor técnico do Instituto
Gaúcho de Tradição e Folclore, acredita que, se os versos
gaúchos não são tão difundidos na forma mais pura
e popular, como o cordel, é porque os grupos tradicionalistas ficam muito
fechados com seus regulamentos e concursos ou dentro das quatro paredes dos CTGs.
Mesmo entre trovadores e pajadores há diferenças e disputas por
reconhecimento. Durante muito tempo, observa Mendonça, o movimento tradicionalista
gaúcho não considerava a pajada como uma manifestação
autêntica. Pajadores defendem que seus poemas são mais meditativos
do que os versos dos trovadores, mas há trovas de diferentes tipos e estilos,
classificadas pelos estudiosos.
| Manifestações renascem na
escola |
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Tentativas
de levar essas manifestações para as escolas começam
a pipocar em vários cantos do Brasil. A professora Regina
da Costa Silveira e a pesquisadora Taís Ávila de
Almeida, do curso de Letras da UniRitter, desenvolvem um trabalho
intitulado Presença das literaturas de Língua Portuguesa
na escola com o objetivo de dinamizar a leitura de textos na forma
de prosa e poesia, além da música e das artes plásticas
nas escolas de Ensino Médio no Rio Grande do Sul. Elas preparam
e aplicam atividades para professores e alunos em que comparam,
entre outras artes, as obras de poetas portugueses e brasileiros
de diferentes épocas, mas com propostas e formatos semelhantes.
A partir das discussões sobre os textos, os alunos fazem
redações e estudam temas afins.
Ao participar da pesquisa, Taís descobriu, por exemplo, como
um texto do Trovadorismo do século XXII – movimento
que começou na divisa de Portugal com a Espanha e que passou
por várias camadas sociais, do rei ao camponês, estendendo-se
até o ano de 1500 – pode ser muito semelhante à trova
dos gaúchos, ainda que a linguagem seja mais arcaica.
Uma outra de experiência foi realizada em 2004 pelos alunos
do Projeto Experimental Jornal da Faculdade de Comunicação
Social da PUCRS. O projeto denominado Vida em cordel e coordenado
pela professora e jornalista Bete Duarte resultou na publicação
de livretos no formato da literatura de cordel do Nordeste, mas utilizando
temas do Rio Grande do Sul. A turma conseguiu patrocínio e
publicou 12 títulos, entre eles O querido bairro Bom Fim,
de Vinicius da Silva Oleksiuk, O que é o Brique da Redenção
que o gaúcho leva no coração, de Paula Pereira,
Político preguiçoso, povo esperançoso, de Michelle
Pereira e Os gaúchos do futebol – a história
do Gre-Nal, de Julia Maria Garcia Dócolas. Trabalhando na
linha da folkmídia, ou cultura popular na comunicação,
a idéia era mostrar que dominando o meio se faz comunicação
em qualquer área. “Pesquisei a linguagem da rima e começamos
a brincar – o divertido era que até para ir ao bar a
gente rimava”, conta Bete. No dia do lançamento, os
livrinhos foram pendurados em cordões (como o cordel) no hall
da faculdade. Exemplares foram enviados até para a Academia
Brasileira de Cordelistas.
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| Kleiton e Kledir preparam
ópera-trova |
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Ainda que
criticada por alguns trovadores tradicionais, a música Trova,
da dupla Kleiton e Kledir também divulgou, mas cantados,
os versos do Sul para todo o país. “Nossa trova não é aquilo
que colocaram na música”, reclama Derly Silva. “A
maioria dos trovadores não gostou porque a trova hoje é muito
mais uma mensagem de costumes do Estado, e há uma preocupação
de se levar para os salões algo que toda a família
possa escutar”, acrescenta. O uso de expressões como “gaúcho
bunda mole” (letra de Trova) pode não ter agradado
aos tradicionalistas, mas certamente popularizou um ritmo típico
do Estado. “Na verdade, é uma falsa trova”,
reconhece Kledir, “porque devia ser um improviso e não é”.
As reações à música ainda surpreendem
o próprio compositor, que ficou impressionado como em Paris
o público do show, mesmo sem entender a letra, vibrava e
torcia pelos cantadores.
Kledir Ramil não tem certeza se algo como o cordel poderia
funcionar tão bem no Rio Grande do Sul como no Nordeste, onde
o clima quente propicia as feiras ao ar livre em que são vendidos
os livrinhos. “A idéia de registrar num papel os versos
populares seria muito bacana, mas a maneira de distribuir teria de
ser diferente”, diz, algo mais ao encontro do clima frio e
do estilo gaúcho. Na mesma linha da Trova – e para aflição
dos tradicionalistas – vem aí mais uma ousadia dos irmãos
Ramil. Kleiton e Kledir têm pronto o espetáculo musical “Ópera-
Trova”. Toda escrita na forma de versos, trata-se de uma opereta
que reflete sobre a briga entre duas pessoas na forma de versos,
jogo, peleia, guerra, bem/mal. “A ópera está pronta,
e quando lançarmos será na forma de disco e livreto”,
garante.
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O sertão como inspiração
José Francisco Borges, o J. Borges, como costuma assinar seus quadros
e livretos de cordel, é uma lenda no Nordeste tanto quanto os santos mais
adorados. Desde que recebeu o título de melhor xilogravurista popular
na opinião do escritor Ariano Suassuna, passou a viajar pelo mundo para
divulgar essa arte. Nascido em 20 de dezembro de 1935 em Bezerros, Pernambuco, é lá que
vive e produz suas xilogravuras e livros de cordel. Lança cerca de 30
a 40 títulos por ano, não só dele, mas também de
outros autores. Escreve a partir da realidade da região, dos costumes
do povo, do dia-a-dia dos acontecimentos, das lendas. Sua inspiração é o
sertão, a seca, as figuras do folclore nordestino.
Extra Classe – O senhor diz que, quando criança, não teve
o direito de aprender a ler. Por quê?
J. Borges – Na época eu morava num sítio distante da cidade,
20 km, e não existia escola particular ou pública. Os meninos cujos
pais tinham condições de mandar para cidade estudaram mais. Meu
pai não tinha condição de pagar, então eu parti para
usufruir a pequena leitura que aprendi. Fui logo começando a escrever
alguns versinhos de cordel.
EC – Quem lhe ensinou a desenvolver a literatura
de cordel?
Borges – Quem contava as histórias era meu pai. Desde criança,
ele lia nas bocas de noite, nos sábados, nos domingos. Era o tipo de
lazer da época, não tínhamos acesso à imprensa,
jornal, revista, rádio, nada. Só a literatura de cordel dava
as notícias e também o direito de a gente rir e se distrair.
Numa comunidade que tinha 100 pessoas, talvez só 20 sabiam ler. Com
20 anos comecei a vender e comprar cordel pelas praças, pelas feiras,
até que em seguida escrevi meu primeiro cordel, publiquei, fui muito
bem-sucedido, vendi bem e parti para fazer o segundo, o terceiro. Hoje eu tenho
235 originais escritos, publicados, a maioria esgotada.
EC – Até os
20 anos, o que o senhor fazia?
Borges – Eu ajudava meu pai na agricultura e também fazia artesanato.
Ele plantava feijão, mandioca, milho, tomate, algodão. Com 14,
15 anos, eu fazia cesto de cipó para vender e peças de barro
como brinquedo. Eu também fazia móveis mirins – carrinho,
cama, cadeirinha – para os meninos brincarem. E com isso eu arranjava
meu dinheiro. E comecei a aprender a andar no mundo, pouco a pouco.
EC – O senhor começou a fazer ilustração sem ninguém
lhe ensinar?
Borges – Nunca me ensinaram. Mas eu tinha noção que era
um clichê de madeira. Eu preparei a madeira, botei na altura certa, plainei
bem, lixei, desenhei e fiz uma igreja. Cortei, levei na gráfica, fiz
uma cópia e o rapaz disse: “Dá pra imprimir bem”.
Aí eu mandei imprimir e fui bem-sucedido. Fiz cinco mil exemplares com
a primeira gravura. Essa matriz eu ainda tenho guardada, ilustrou um cordel
alusivo aos conselhos do Frei Damião, às histórias de
Juazeiro do Norte. Daí parti para ilustrar o segundo, o terceiro, o
quarto e o quinto e depois os outros cordelistas já me encomendavam.
Nos anos 70 vieram uns turistas do Rio de Janeiro. Foi quando eles mostraram
a Ariano Suassuna. Quando viu, ele ficou muito entusiasmado e me deu o título
de melhor gravador popular do Nordeste. E o povo acreditou e eu continuei trabalhando.
EC – Que autor de literatura de cordel mais lhe encantava na época?
Borges – O que mais me encantava e me encanta ainda é, entre os
10 melhores que conheci, o Leandro Gomes de Barros. Temos que dobrar os joelhos
e render homenagem a ele. Foi um dos primeiros cordelistas brasileiros. Ele
desbravou. Foi preso várias vezes em Recife porque, no fim do século
XIX, era considerado como subversão, malandragem. Depois vieram muitos
outros poetas bons que já morreram e outros poetas novos escrevendo
até bem.
EC – O que é a literatura de cordel para o senhor?
Borges – É um mundo de inteligência, de expressão,
uma linguagem matuta, diferente da científica, mas que tem muitas pessoas
intelectuais aprendendo. O Ariano Suassuna mesmo me disse, outro dia, que conversar
comigo era uma aula. E eu disse a ele: “Vai me dar uma explicação”.
Ele disse: “Eu dou. Borges, eu sou formado, fiz doutorado, mestrado,
sou professor de universidade, mas quando eu escrevo as minhas peças
eu me inspiro no trabalho de vocês, na literatura de cordel, onde está a
linguagem mais popular, mais bonita e criativa do Brasil”.