As
pesquisas eleitorais e o resultado do referendo Hélio Radke Bittencourt*
pesquisa
eleitoral é aquela que mais expõe os institutos
de pesquisa, especialmente quando realizada às vésperas
do pleito.
Explico: a pesquisa eleitoral é uma das poucas onde o valor do parâmetro
(verdadeiro resultado da eleição) se torna conhecido, sendo geralmente
divulgado nos mesmos veículos de comunicação onde os institutos
apresentaram as suas estimativas. Baseado neste fato, conclui-se que este tipo
de pesquisa facilmente se transforma em boa ou má propaganda para quem
a realiza.
No último referendo, realizado em 23 de outubro, fomos surpreendidos por
grandes disparidades entre o resultado oficial e as estimativas dos institutos.
Há várias especulações sobre os motivos destas diferenças,
mas façamos, primeiramente, uma análise do ponto de vista estritamente
estatístico. Existem sólidas teorias de Probabilidade e Inferência
Estatística que permitem a projeção de resultados amostrais
para toda a população com níveis de confiança e margens
de erro conhecidos, tornando viável a realização de pesquisas
por amostragem como instrumentos de planejamento, avaliação ou
previsão.
As pesquisas por amostragem nunca permitirão o uso da palavra certeza,
mas deverão ter uma alta probabilidade de acerto associada à margem
de erro informada. As pesquisas realizadas pelo Ibope e Datafolha entre 18 e
21 de outubro revelaram, respectivamente, percentuais de 55% e 57% dos votos
válidos para o Não, ambas com margens de erro de 2%, confiança
de 95% e tamanhos amostrais superiores a dois mil eleitores. Estes resultados
podem ser mais bem avaliados quando contrastados com os 64% contabilizados pelo
TRE. A estimativa que mais se aproximou do parâmetro foi fornecida pelo
Datafolha que, somada à margem de erro, atingiu 59%. A diferença
de 5 pontos percentuais em relação ao TRE dá a impressão
de ser pequena, mas quando calculada estatisticamente descobrimos que a probabilidade
de o instituto produzir estimativas inferiores a 59%, com uma amostra de 2086
eleitores, é estimada em 1:1 milhão. Isso quer dizer que é pouco
provável que haja uma diferença tão grande entre a pesquisa
e o resultado final da eleição. Para tal, há três
explicações possíveis: 1a) mudança súbita
de opinião por parte dos eleitores; 2a) uma grande falta de sorte do instituto
de pesquisa na seleção da amostra; 3a) ... deixo a cargo da imaginação
do leitor.
* Professor de Estatística - PUCRS e Ulbra
Os
artigos para esta página devem ser enviados até
o
dia 15 de cada mês com no máximo 1.800 caracteres
para
o e-mail palavradeprofessor@sinprors.org.br
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br