
Desarticulação
De Paris

ínhamos
perdido o filme Crash aí e fomos vê-lo aqui. É,
entre outras coisas, sobre o racismo no cotidiano americano, tratado
com inédita honestidade. No filme, um dos personagens
negros expõe a outro sua teoria conspiratória sobre o
hip-hop,
que seria uma criação dos guetos negros espertamente cooptada pelos
brancos para neutralizá-los politicamente. O “gangsta rap”,
que prega toda espécie de violência, escandaliza as famílias,
testa os limites da liberdade de expressão e enriquece suas estrelas, é um
pobre substituto para o protesto bem-articulado de líderes negros como
Huey Newton (citado no filme) nos anos 60. Em vez de ser um aprimoramento da
expressão de revolta, é uma degradação da linguagem,
uma redução da raiva ao expletivo e a um ativismo que se esgota
na agressão verbal, muitas vezes ininteligível, ou a atos de vandalismo
gratuito que só confirmam o pior que se diz dessa gentalha, conforme o
Sarkozy. A violência que a linguagem degradada inspira é igual a
ela, sem sentido político, domável, no fim conveniente para os
donos do poder – como está se vendo na França, onde a cultura
americanizada dos guetos ajudou a mobilizar os jovens dos banlieues e a atiçar
sua revolta, e onde o mais provável resultado de carros queimados e de
tanta confusão será o fortalecimento da direita xenófoba.
Talvez a crise de discurso da esquerda, na França e no resto do mundo,
tenha algo a ver com isso. Estaríamos todos condenados a substituir a
relevância política pelo rap dos ressentidos, pequenas revoluções
rancorosas que não se arriscam a nada – salvo a serem eventuais
sucessos artísticos. O que se precisa é, literalmente, rearticular
o que desarticularam. Ou pelo menos reavivar algumas melodias.
A tal teoria do
hip-hop aparece numa cena sem muita importância de Crash,
e é de um personagem que não deve ser levado muito a sério,
embora acabe sendo um dos mais simpáticos do filme. E alguém poderia
argumentar que o próprio filme é uma prova de como o discurso politicamente
relevante de Huey Newton e outros, há tantos anos, não teve muito
efeito contra a danação do racismo.
