A Ulbra e os seus políticos
As relações políticas da Ulbra, durante o período que antecedeu a crise, envolveram a contratação de empresas de detentores
de cargos públicos para realização de serviços. Acordos verbais como o que levou Jairo Jorge a organizar três pesquisas de
opinião e um programa diário de entrevistas na televisão se misturam a outros nos quais não há comprovação dos trabalhos
prestados. Eliseu Padilha recebeu R$ 300 mil em um período descoberto de contrato, acompanhou Ruben Becker em reuniões
de interesse da Universidade e representava a instituição no Planalto. Marcos Ronchetti adiantou R$ 10 milhões à Ulbra – dos
quais, R$ 6 milhões foram sacados pelo ex-reitor. Uma listagem de bolsas de filantropia divulgada pela auditoria Juenemann
traz esses e outros nomes como o do senador Sergio Zambiasi (PTB), dos deputados federais Onix Lorenzoni (DEM) e Enio
Bacci (PDT). E na nominata de um Conselho Político formado para subsidiar um curso de formação em gestão pública,
constavam nomes como o do ex-chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius, Cezar Busatto (PMDB) e do ex-governador Alceu
Collares (PDT). A reportagem do Extra Classe elenca uma série de acontecimentos que mostram como as relações políticas
eram gerenciadas dentro da Universidade, a começar pela afirmação de funcionários e integrantes da atual direção de que a
gráfica imprimiu material de campanha do atual prefeito de Canoas
Errata
Na reportagem "A Ulbra e seus políticos" (na página 20 da edição impressa) o Extra Classe identificou como ex-secretária de Ruben Becker a funcionária da prefeitura de Canoas Maria Luisa Capilheira. Na realidade, ela trabalhou para a antiga reitoria da Ulbra mas atendia o ex-vice-reitor - e filho de Ruben - Leandro Becker. Na segunda quinzena de dezembro Maria Luisa desligou-se da administração municipal de Canoas, onde ocupava um cargo de confiança no gabinete do prefeito Jairo Jorge (PT). A versão on-line já foi corrigida e editada em 28/12/2009.
Por Naira Hofmeister

urante dois meses de 2008, a gráfica da
Ulbra deu prioridade à impressão do material
de campanha do então candidato do
PT à prefeitura de Canoas, Jairo Jorge, que foi
pró-reitor de Desenvolvimento Institucional e
Comunitário da Universidade entre dezembro
de 2006 e junho de 2008. Antes disso, ele chegou
a ser ministro interino da Educação, de onde
saiu oito meses antes de ingressar na Universidade. “Eu não estava impedido”, defende.
Um ex-empregado, que não quer se identificar,
conta que uma Circular Interna (CI) assinada
pelo ex-reitor Ruben Becker foi expedida
para convencê-los de que o serviço estava dentro
da normalidade. “Mesmo assim, pediam que
ninguém comentasse o assunto fora da gráfica”,
lembra o jovem. Pastor do alto escalão da
Ulbra relata que houve desconforto diante da
ordem de Becker e diversas tentativas de
desencorajá-lo. “Disseram que não havia mais
papel. Jairo Jorge mandou uma carga e não tivemos
como negar”, revela.
O prefeito de Canoas nega (
leia a entrevista
nesta reportagem). “Chegaram até a oferecer,
mas nunca rodamos”, disse.
Dentro da Universidade, as versões, apesar
de desencontradas, confirmam que o material,
pelo menos, chegou até as impressoras. Dirigentes
da Ulbra dizem que os fardos foram
destruídos porque o CNPJ da Comunidade
Evangélica Luterana São
Paulo (Celsp) estava no lugar onde
deveria constar o registro da campanha
do candidato.
O relato de um dos chefes do
setor é diferente, apesar de dar conta
do mesmo problema. “Recebemos
as artes, mas sequer rodamos
porque não trazia o CNPJ”.
A versão do ex-empregado da
Ulbra vai adiante: ele afirma que
o registro de pessoa jurídica de
fato não constava no material. “Depois de impresso, colávamos
um adesivo com um número de um CNPJ. E
não era o da campanha”, desconfia.
Outros dois colegas dele que trabalham
em setores da editora confirmam que o material
foi impresso e entregue ao destinatário
para distribuição no período eleitoral. “Vinha
um cara chamado Fábio buscar”, completam.
| |
Prefeito recebia remuneração dobrada |
No período em que atuou como pró-reitor,
Jairo Jorge tinha um salário de R$ 12 mil
mensais. Também recebia por meio de sua
empresa, Animus Educare, cujas notas fiscais
somam R$ 465 mil. “O contrato era verbal,
mas os produtos são todos materiais”,
observa o prefeito.
Segundo sua explicação, todas as notas
fornecidas entre março e junho de 2007 referem-se às três pesquisas que sua empresa
realizou em nome do Instituto DataUlbra, ainda
que esse objeto só esteja expresso em três
delas,totalizando R$ 155 mil, valor aproximado
alegado para o trabalho.
Entre julho de 2007 e junho de 2008, as
notas apresentadas mensalmente expressam
valores de R$ 25 mil cada (à exceção de outubro,
de R$ 10 mil) e só trazem a descrição “consultoria”. Jairo Jorge diz que o dinheiro
foi utilizado para produzir e levar ao ar o
programa Domínio Público, no qual o ex-pró-reitor entrevistava personalidades sobre
diferentes temas de política e cidadania.
O programa foi interrompido quando ele
deixou a pró-Reitoria em junho de 2008. A
emissora voltou a transmiti-lo em 2009. “Não é a mesma coisa. Agora tenho um
contrato e pago o horário de veiculação”,
revela. O custo do programa fica entre R$
6 mil e R$ 10 mil. “Depende. Se forem cinco
sextas-feiras, pago um pouquinho a
mais”, completa Jairo Jorge.
Ele brinca que financia a ideia com o “Jairocínio”. “Meu objetivo não é o lucro.
Estou ganhando porque eu não deixo de
fazer jornalismo”, explica. |
|
Mulher de Leandro Becker tem cargo de confiança
Quando assumiu a prefeitura de Canoas
em janeiro de 2009, Jairo Jorge deu cargos
de confiança (CCs) a ex-funcionários da
Ulbra. Entre eles está a esposa de Leandro
Becker, ex-vice-reitor.
Luciana está lotada no gabinete do prefeito,
assim como a antiga secretária do filho do ex-reitor, Maria Luisa Capilheira, e
o filho da ex-pró-reitora de Ensino a Distância
Sirlei Dias Gomes, Evandro Dias Gomes. “Trabalhei durante quase dois anos lá, pude
conhecer as pessoas e havia muita gente competente”,
justifica Jairo Jorge.
A própria Sirlei foi chamada para ser presidente
da Comissão Organizadora dos festejos
de 70 anos de emancipação política de
Canoas. “É um trabalho voluntário”, pontua
o prefeito.
Ronchetti e Chico Fraga eram apoiadores
Durante os 40 anos em que esteve à frente
da Ulbra, a gestão municipal que mais agradou
Ruben Becker foi a de Marcos Ronchetti
(PSDB), entre 2001 e 2008. “Foi a única prefeitura
que nos deu apoio”, revelou em seu depoimento
na Justiça. O tucano é réu na Operação
Solidária da Polícia Federal.
A filha do ex-prefeito, Marcela Andressa
Ronchetti, ganhou bolsa de 50% de desconto no
curso de Medicina. Era uma cota filantrópica. A “referência para concessão” do benefício foi o
ex-secretário de governo, Chico Fraga.“As pessoas
que estavam aqui na prefeitura tinham relações
com a Ulbra. Muitas relações, vamos ser
honestos!”, indica o atual prefeito Jairo Jorge.
É possível que tenha partido de Chico Fraga
o pedido para que o Executivo de Canoas repassasse à Ulbra mais de R$ 10 milhões em cheques
a título de “adiantamento” por serviços hospitalares
ao município, algo totalmente fora dos padrões.
Cerca de R$ 6 milhões não circularam nas
contas da Universidade. “As quantias foram sacadas
em dinheiro na boca do caixa por Ruben
Becker, conforme assinaturas nos versos dos cheques”,
espantou-se o juiz Guilherme Pinho Machado
quando recebeu o material das mãos do
atual secretário de Fazenda de Canoas, Marco
Antônio Bósio.
Bósio está convencido que se trata de um crime. “Se isso não é suficiente para colocar alguém
na cadeia, então não sei o que é”, atacou.
Padilha recebeu R$ 300 mil sem contrato
O sistema financeiro interno da Ulbra aponta que duas
empresas do deputado federal Eliseu Padilha
(PMDB) – Rubi e Fonte – receberam R$ 4 milhões
entre 2004 e 2008. Não há comprovação da maioria
dos serviços contratados e um dos contratos sequer
foi encontrado. “Os pagamentos não se justificam”,
conclui a auditoria da Universidade. Quase R$ 300
mil foram pagos em um período no qual não havia
contrato formal. São notas de 2007, ano que ficou
descoberto pelos dois únicos documentos encontrados
pelos auditores. Em um deles, a data da assinatura é anterior à criação da empresa. “O contrato
não pode ter sido firmado na data aposta no documento”,
refere um dos relatórios da auditoria. Padilha
não quis falar com a reportagem do Extra Classe.
LOBBY – Se há contratos sem comprovação de serviços
prestados, há também atividades que eram
mantidas sem necessidade de formalização. “Independente
de contrato, Padilha foi duas vezes comigo
a Brasília e ao Rio de Janeiro falar com contatos
gerenciados por ele”, garantiu Becker em seu
depoimento.O juiz Guilherme Pinho Machado estranhou
o fato que “de as parcelas terem sido recebidas
em datas (2006) que envolvem a campanha do
agente público para deputado federal”. E lembra que
Padilha “foi peça atuante nas reuniões entre membros
do Legislativo e Executivo, com a participação
do ex-reitor Ruben Becker e sua equipe que marcaram
a tentativa de solução do débito da instituição,
nas vésperas da exoneração do antigo reitor”.
Uma conversa gravada pela Polícia Federal entre o
ex-pró-reitor de Administração Pedro Menegat e o advogado
responsável pela defesa da Celsp perante o
CNAS, Luiz Vicente Dutra, narra uma estratégia política
de um assessor parlamentar de Padilha para
garantir a renovação da filantropia. “Eu sabia que
Padilha defendia Ulbra e não era só nesse processo”,
afirma Dutra.
Conselho abrigava oito partidos
Entre as obrigações expressas nos contratos
com Eliseu Padilha, a única que foi
comprovadamente cumprida foi a criação de
um Curso de Cidadania Política e Gestão Pública,
cujas aulas eram ministradas a distância.
Além gravar com figuras como o ex-presidente
da República Fernando Henrique
Cardoso, o deputado nomeou um Conselho
Político para pensar os rumos das disciplinas.
Era integrado por representantes das principais
siglas (lista ao lado) que receberam R$
2 mil de remuneração. “O valor foi pago uma única vez. Só foi feita uma reunião e depois o
conselho foi desativado”, confirma o prefeito de
Canoas Jairo Jorge, que integrava a comissão.
Bolsas depois contabilizadas nas cotas de
filantropia eram distribuídas para detentores de
cargo público. Os critérios não estão claros até hoje. “Alguns recebiam e muitos não recebiam.
Nunca ninguém veio a minha porta para pedir”,
observa o ex-reitor Ruben Becker. Integravam o
conselho: Alceu Collares (PDT), Sergio Zambiasi
(PTB), Beto Albuquerque (PSB), Nelson Proença
(PPS), Germando Bonow (DEM), Nelson
Marchezan Jr (PSDB), Celso Bernardi (PP), Cesar
Busatto (hoje PMDB, na época PPS).
| |
ENTREVISTA |
| |
Jairo Jorge: "Ninguém está fazendo favor" |
O prefeito de Canoas e ex-pró-reitor de Desenvolvimento
Institucional e Comunitário da
Ulbra revela detalhes de sua passagem pela
instituição.
EC – Havia contrato entre sua empresa e a
Ulbra?
Jairo Jorge – O contrato era verbal, mas os
produtos são todos materiais.
EC – As notas de consultoria se referem exclusivamente à TV?
Jairo – Às duas coisas. Primeiro, às três pesquisas
e a partir disso, o programa. Normalmente,
são as empresas que optam pelo termo
consultoria.
EC – Só há três notas de pesquisa, que somam
R$ 30 mil.
Jairo – É um complemento. Todo o trabalho
de concepção foi incluído nas outras. O custo
de cada pesquisa foi de R$ 52 mil. Começaram
em fevereiro e foram até junho. Somadas
as três, dá R$ 156 mil. A partir de julho começam
os valores do programa.
EC – Quanto recebia para montar o programa?
Jairo – Mais ou menos R$ 1 mil por programa.
No mês, uns R$ 24 mil, 25 mil. Como era diário,
ao todo foram uns 300 programas. Com
esse valor, pagava os custos de produção, divulgação
e os profissionais.
EC – Atualmente o senhor paga entre R$ 6 mil e R$ 10 mil por mês?
Jairo – É, depende do número de programas.
Se forem cinco sextas-feiras, pago um
pouquinho mais. Mas ninguém está fazendo
favor para ninguém.
EC – Parte do material de sua campanha foi
impresso na gráfica da Ulbra?
Jairo – Eles chegaram até a oferecer um preço
mais acessível. Isso não seria ilegal, né? Mas
acabou não rodando.
EC – O ex-reitor Ruben Becker autorizou através
de uma CI.
Jairo – Acho que não. Não sei não. Nunca
ouviu falar nisso, é a primeira vez que alguém
me conta.
EC – É possível que alguns materiais tenham
saído com o CNPJ da Celsp?
Jairo – Pode ter sido alguém querendo confusão.
Tivemos muito material apócrifo na
campanha. Isso é possível, mas estranho, pois
a Justiça Eleitoral fiscaliza muito.
EC – A ex-pró-reitora de EaD da Ulbra Sirlei
Dias Gomes tem uma função na prefeitura?
Jairo – Ela é presidente da Comissão
Organizadora dos 70 anos da posse do primeiro
prefeito de Canoas. É um trabalho voluntário
e a convidei junto com outras pessoas.
EC – Há diversos ex-funcionários da Ulbra
na sua lista de CCs.
Jairo – Trabalhei durante quase dois anos
lá, pude conhecer as pessoas e havia muita
gente competente. Mas ter trabalhado na
Ulbra não é pré-requisito.
EC – Alguém ligado à família Becker?
Jairo – Sim. Luciana é filha do ex-prefeito
(Carlos) Giacomazzi, que é um homem que
respeito muito. É casada com o ex-vice-eitor,
Leandro Becker. É muito competente. |
|
Leia mais em Extra! Extra!:
ULBRA - Delegado Ildo Gasparetto: "Becker era o chefe da quadrilha"
ULBRA - Bens de Penteado Júnior vão a leilão