
Avô em playground

ma das eventuais missões de avô, Zuenir, é acompanhar a neta a
playgrounds e ficar de olho enquanto ela se mistura com outras crianças,
sobe e desce de brinquedos, corre, cai, chora, se levanta – enfim,
interage com o mundo e com os outros. Pode ser uma experiência
desconcertante, para o avô. Um playground cheio de crianças é um
microcosmo em que todos os impulsos e calhordices da humanidade são
reproduzidos em estado puro, sem dissimulação. Alianças são feitas e desfeitas
em minutos, os mais fortes ou mais ativos impõem sua vontade, e, como
no mundo dos adultos, os piores conflitos parecem sempre passar pela questão
da propriedade. Desconfio que John Locke desenvolveu sua teoria sobre o
instinto da propriedade acompanhando uma disputa sobre baldes e pazinhas
em algum playground inglês do século 17.
Corta o coração de um avô ver o primeiro encontro da neta com a realidade de
que o que é do outro é do outro, e só será compartilhado por um raro ato de
altruísmo. Isto vale tanto para baldes e pazinhas quanto para bolas, bonecos,
lugares na fila do escorregador e latifúndios improdutivos.
Avô em playground precisa ter, antes de mais nada, autocontrole. Deve
resistir à tentação de socorrer a neta cada vez que ela cai, abraçá-la e tentar
convencê-la a não sair mais do colo do vô, que é o lugar mais seguro da Terra.
Também deve resistir à tentação de dar um sutil empurrão no garoto que
insiste em não desocupar o balanço, ou interferir quando a menina maior
não deixa a sua neta colaborar nos seus bolinhos de areia. Inclusive indo lá e, disfarçadamente, pisando nos bolinhos. O correto, claro, é deixar a neta
descobrir sozinha como se defender e como se impor. Mas aí entra outra
consideração: sua neta só aprenderá a sobreviver à truculência e à prepotência
dos outros se também se tornar um pouco truculenta e prepotente. E você jamais aceitará que sua neta não tenha o melhor caráter do playground,
além de um inato senso de justiça.
Outra coisa: avô em playground deve tentar evitar o ridículo. Ele é um
estanho no meio, e estará sob constante observação crítica de mães e babás.
Em hipótese alguma deve se oferecer para descer junto com a neta no
escorregador, temendo que ela caia, e arriscando o vexame. E nunca fazer um
discurso contra o egoísmo e a falta de solidariedade no mundo antes de confiscar
um balde e uma pazinha para sua neta.
