DEPOIMENTOS
Os dez anos do Extra Classe
A história contada por quem fez parte de uma trajetória de desafios
constantes e crescimento pautado por muito trabalho
Marcelo Menna Barreto – Jornalista
Assessor de Comunicação do Sinpro/RS de 1991a 1999.
Coordenador e implementador do projeto do EC – Editor-chefe
de 1996 a 1999
Sei que iniciar assim certamente me coloca no lugar comum, mas
vá lá: parece que foi ontem. Fruto do amadurecimento
de uma entidade que passou a ver que a comunicação
não era um mero instrumento de agitação política,
mas, sim, também um forte instrumento de integração
e transformação social, o Extra Classe foi um veículo
pioneiro na, digamos, moderna comunicação sindical
brasileira. Sem dúvida, no início ele foi muito questionado.
Não faltaram aqueles que diziam que a imprensa dos trabalhadores
não poderia se dar ao luxo de abrir espaço para o
contraditório, uma vez que a chamada “imprensa burguesa” nunca
valorizava os movimentos sociais. Mas, em resposta a este movimento,
surge o que chamo de um dos elementos fundamentais para o sucesso
desta iniciativa que completa 10 anos: a coragem e o apoio de uma
diretoria que percebeu que os modelos antigos de comunicação
sindical, cheios de jargões e palavras de ordem, não
acrescentavam nada a seus associados e – o que era pior – além
de os tratar como crianças, desrespeitava a sua inteligência.
Cláudio Santana - Publicitário
Autor do projeto gráfico – 2000
É voz corrente que presenciamos uma crise ética nos
meios de comunicação brasileiros. O primeiro bordão
que se saca é a puída defesa oral da liberdade de
imprensa. É uma frágil utopia pensar em imprensa
livre sem resolver a questão da independência do jornalista
e do compromisso do veículo em adotar uma atitude crítica
e autônoma. Infelizmente, parece que crítica e autonomia
são incompatíveis com o atual estágio da imprensa.
Para modificar essa modorra, é necessária a gestação
de uma nova mentalidade jornalística, capaz de assumir o
risco de repensar permanentemente a forma e a substância
de sua produção. Ainda bem que existem veículos
que comprovam que esta postura é viável, resgatando
assim um dos mais caros atributos da história do jornalismo:
a coragem. O Extra Classe está de parabéns. É um
desses raros exemplos.
Luiz Carlos Barbosa - Jornalista
Autor do projeto editorial e editor-executivo de 1996 a 1999
Na primavera de 1995 começa o projeto; no verão de
1996 sai a primeira edição. Surgia um veículo
sindical com um corte de classe, mas mais amplo, cidadão.
O jornal é expressão de desafios complexos para o
sindicalismo gestado a partir do período final da luta pela
redemocratização do país. Neste quadro, o
EC foi concebido para interrogar protagonistas sociais, interpretar
o movimento da sociedade e identificar tendências. Esta foi
a síntese conceitual das pautas. Foi isso que escrevi no
primeiro editorial e reiterei, de distintos pontos de vista, nos
mais de 40 que redigi com o mesmo entusiasmo da primeira manchete, “Sindicato,
pra quê?”. Aos 25 anos de profissão, orgulho-me
de ter parido este jornal junto com uma equipe criativa e ao abrigo
de uma entidade sindical ousada a ponto de assegurar longa vida
ao Extra Classe.
Celso Augusto Schröder - Jornalista
Chargista e ilustrador de 1996 a 2001
O jornal Extra Classe ajudou a consolidar um tipo novo de fazer
a imprensa sindical, e que denotava já uma nova forma de
fazer sindicalismo preocupado com a objetividade, ao mesmo tempo
em que induzia à reflexão e à interpretação,
o Extra Classe serviu como contraponto ao tipo de jornalismo declaratório praticado
em boa parte dos sindicatos de trabalhadores. Sem abrir mão
da defesa de princípios como liberdade e direito trabalhista,
o Extra sempre privilegiou a informação e a precisão.
Ainda é um exemplo do bom jornalismo. Sindical ou não.
Nei Lisboa - Músico e compositor
Colunista de 1999 a 2005
Sou admirador suspeito por tudo de bom que o Extra me trouxe como
colaborador ao longo de vários anos. É uma alegria
vê-lo caminhar até aqui e reconhecer a categoria exuberante
e a vitalidade de sua proposta, de importância realçada
em um momento em que a informação se define, no rés
da mais mediana mídia, como a vociferação
pública de versões de interesse privado. Se ao EC
ainda faltasse ser legitimado por algo ou por alguém, agora é o
tempo, senhor de todos nós, quem estampa na capa desta edição
a nota que o jornal sempre mereceu, com todo o louvor.
Abnel Lima - Publicitário
Autor do projeto gráfico original - 1995
Escrever sobre o Extra Classe é como falar sobre um filho
querido. Mas o nascimento desse filho foi um parto bem complicado.
Muito do que havia sido planejado teve de ser deixado de lado (um
número zero para os acertos finais, por exemplo). Uma estratégia
de marketing ousada surgiu para que se atingissem os prazos. No
desespero do tempo acabando, noites sem dormir, olhei para a calçada
lá embaixo (estava no 8º andar) e pensei: salto agora
e não sofro mais, não vai dar certo. Mas deu. Não
saltei. O único salto que aconteceu foi de qualidade. Hoje,
10 anos depois, ele está lindo, crescido. O milagre de um
filho que já nasceu adulto e com muitas histórias
para contar.
Flávio Ilha - Jornalista
Editor entre 1999 a 2000
Estávamos no ano 2000 e, antes dos escândalos de corrupção
nos Correios e do Caixa 2 nas campanhas eleitorais, o Extra Classe
39 trazia na sua reportagem de capa uma ampla cobertura do que,
então, não se constituía nem como um fantasma:
o funcionamento dos bingos. O repórter César Fraga
foi a campo e recolheu uma série de informações
estarrecedoras sobre corrupção, lavagem de dinheiro,
sonegação fiscal e outras falcatruas perpetradas
pelos donos desses estabelecimentos, que proliferavam pelas ruas
das grandes cidades propalando a tese de um lazer seguro e inofensivo.
Não por acaso, o então procurador federal Luiz Francisco
de Souza definia o funcionamento dessas casas de jogo como uma
atividade parasitária e sanguessuga. Seis anos depois, uma
CPI na Câmara dos Deputados procura desvendar conexões
entre a máfia do jogo e o financiamento ilegal de campanhas
políticas, corrupção e remessas ilegais de
dinheiro ao exterior. Eu recomendo que os parlamentares leiam essa
edição do Extra Classe: os mecanismos de funcionamento
da máquina de comprar funcionários públicos
estão todos ali.