Ano 11 - nº 99
JAN e FEV de 2006



Luis Fernando Verissimo:
A História é uma velha senhora pachorrenta com um gosto fatal pela ironia. Às vezes, ironia pesada. No Iraque, por exemplo, ela está a ponto de saborear mais uma. Foi para contrabalançar a teocracia hostil aos Estados Unidos do Irã que os americanos apoiaram e armaram o regime secular de Saddam Hussein, que depois derrubaram. Tudo indica que o...





Elisa Lucinda:

São fêmeas e correm animadas pelas ruas entre o perigo dos carros.
São fêmeas e se ocorrem vitais e urbanas.
Existem agitadas, excitadas, ansiosas, assanhadas,
carinhosas e quase crianças ainda.
São meninas lindas!
Cada uma portando sua beleza e morando no Rio de Janeiro.
Flora é alta, garbosa, mas traz doçura, nobreza e humildade nos olhos verdes, moles e mel.





Quintana na cabeça em 2006

A cada aniversário, o poeta Mario Quintana dizia: “Vamos ver até quando vai durar minha ‘imortalidadezinha’...”. Sua sobrinha-neta e fiel escudeira, Elena Quintana de Oliveira, 50 anos, já pode afirmar com certeza: “Pelo menos, até o Centenário ela está durando!”. Os amigos e escritores que o conheceram acreditam que, se Quintana estivesse vivo, a homenagem preferida do ilustre fazedor de frases e versos nascido em Alegrete, em 30 de julho de 1906, seria que as pessoas realmente lessem sua obra. Quintana morreu em 5 de maio de 1994, mas neste ano em que completaria um século de vida sua poesia vai ganhar um palco privilegiado.

Clarinha Glock

m maio de 2005, por meio do decreto nº 43.810, o governo do Estado do Rio Grande do Sul instituiu 2006 oficialmente como o Ano do Centenário de Mario Quintana. Junto com a Secretaria de Cultura do Estado e a Casa de Cultura Mario Quintana, lançou o Projeto Aprendiz de Feiticeiro, que prevê uma série de atividades, entre exposições de fotos, lançamentos de livros, CDs, DVDs, apresentações de filmes, peças de teatro e espetáculos de dança, além de um concurso de poesia.

O poeta vai ser o centro das atenções em muitos cantos do Estado e também no Rio de Janeiro e em São Paulo. Talvez até no Exterior – a comissão encarregada das festividades está negociando levar uma exposição para o Uruguai e para Portugal. Tanta festa não tem como objetivo apenas marcar a data, mas principalmente promover uma aproximação dos versos do homenageado com os novos leitores – há uma geração de 12 anos para cá que não conviveu com aquele “velhinho engraçado” conhecido por suas tiradas irônicas e poemas acessíveis. Isso, de certa forma, pode ser até bom, observa a sobrinha-neta. “Quanto mais a gente se distancia da figura do velhinho, mais próximo se chega à obra de um poeta e de um filósofo de raro brilho, que não fica nem acima nem abaixo de muitos dos grandes que existem por aí”, avalia Elena, herdeira dos direitos autorais de Quintana.

O escritor e crítico de arte Armindo Trevisan, 72 anos e muitos livros dedicados a contar a história do poeta, concorda: “A poesia dele se caracteriza por um lirismo acentuado que recupera temas e formas da melhor tradição do passado, e ao mesmo tempo inova, seja pela utilização criativa de verso livre, por explorar aspectos surrealistas, ou por desenvolver uma aproximação entre o humor e a poesia”.

De uma forma geral, a população começou a conhecer Quintana pelo jornal Correio do Povo, onde ele foi admitido em 1º de julho de 1953 como redator-auxiliar, do qual só saiu em maio de 1994, quando morreu. Em 18 de julho de 1953 fez sua estréia na coluna Do Caderno H, que virou a marca registrada do poeta e referência para milhares de leitores.

Quintana não só escrevia, ele vivia a poesia e ajudou a trazer esse lirismo encantado para a realidade de muita gente que talvez nem soubesse que gostava de versos. Foi assim com a própria Elena. “Eu me aproximei do tio Mario primeiro pela obra dele, porque fui criada pelos Oliveira, e uma tia, Celuta, que era professora e gostava de literatura, me chamou a atenção para o tio-poeta.” Já era fã e leitora quando, com seus 20 e poucos anos, a jovem conheceu de fato o parente famoso. Elena tinha acabado de montar a peça A estrela e a sucata, com poemas de Quintana, numa atividade de encerramento do curso de teatro. No final dos anos 70, foi convidada a viajar com ele para o Rio de Janeiro e, na volta, aceitou “organizar a desorganização” de seu local de trabalho. “Ele me chamou porque nós dois éramos ‘tortos’ iguais”, brinca. Mesmo as brigas dos dois viravam filosofia poética. “Ele dizia que brigar faz a gente se sentir vivo”, recorda.

Também Sergio Napp, escritor, compositor e diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, conheceu primeiro a obra do poeta para depois se aproximar da figura. E que figura! Primeiro, lá pelos anos 60, Quintana não quis saber de ter seus versos musicados pelo então letrista Napp, na época em que o jovem participava de festivais de música. O destino fez os dois se reaproximarem quando Napp assumiu a direção da Casa de Cultura, de 1987 a 1991. “Era gratificante estar com ele. Tinha suas carências e problemas, porque foi um boêmio de marca maior, fumava que era uma loucura, tinha enfisema, mas uma vitalidade... E continuava produzindo.”

Homenagem em vida

Uma vez o poeta escreveu uma carta para Napp dizendo que o único grande presente que gostaria de ganhar era ver a Casa de Cultura concluída. Não só viu, como foi recebido com aplausos na reinauguração, em 25 de setembro de 1990, num momento emocionante. O palanque estava no centro da Travessa dos Cataventos esperando os convidados, que deviam chegar pela Rua Sete de Setembro, enquanto ao público – devia ter umas cinco mil pessoas – ficou destinada a área da Rua dos Andradas. “Para variar, Quintana se atrasou (sempre se atrasava)”, conta Napp. Estavam todos lá, governador, outras autoridades; menos o poeta. Quando chegou, Quintana entrou pelo lado da Andradas. O povo que estava na Travessa abriu um corredor, começou a gritar seu nome e a jogar papel picado, enquanto o velhinho seguia com seu passo trôpego e a bengala no meio da ovação.

De uma certa forma, “a pessoa” e o “poeta” Quintana pareciam ser de mundos distintos, como descreve Trevisan: o homem era retraído, discreto, até de certa forma inabordável. Havia uma espécie de olhar crítico e distante que não permitia uma intimidade com ele. Por outro lado, como poeta, Quintana tinha uma grandeza e um conhecimento que muitas pessoas subestimaram, porque acabaram mais por folclorizar sua figura do que realmente ler sua poesia. “Está na hora de se descobrir o grande poeta que ele foi”, convida Trevisan. Não fazer só a leitura na linha mais superficial dos jogos, do ludismo, das brincadeiras e do humor fácil, mas sobretudo da temática de fundo dramático, existencial e dominada pela idéia da morte também existente em sua obra.

Morte... A maneira como ele reagia surpreendia até a sobrinha-neta, conhecedora das manias do familiar e amigo. Elena aprendeu na prática que o velhinho era mais forte do que parecia. Na noite da morte do poeta Carlos Drummond de Andrade, ela fez malabarismos para evitar que o tio de 81 anos ouvisse a notícia na televisão. Achava que o efeito poderia ser muito ruim e que atrapalharia o sono e a saúde dele. Somente no dia seguinte Elena anunciou: “Temos uma notícia ruim para lhe dar: o Drummond faleceu”. Quintana olhou para ela e disse: “Risca do caderninho de endereço”.

Até em situações inusitadas o poeta tinha uma saída bem-humorada. Como quando foi atropelado no dia 6 de maio de 1985. Ele subia na calçada que dava para o prédio da Caldas Júnior e um carro, em marcha a ré, lhe deu um encontrão e provocou uma fratura no fêmur. A jornalista Jussara Porto, que chegou logo em seguida ao Hospital Pronto Socorro, onde foi atendido, testemunhou o poeta repetir para Elena: “Anota os números da placa do carro e o dia para jogar na Loto!”. Aos atenciosos enfermeiros do hospital, avisou: pelo menos agora teria mais tempo para trabalhar, só que os poemas seriam de pé quebrado.

Mas talvez a melhor definição do lirismo, do humor e da ironia do poeta e sua maneira de encarar os contratempos da vida sejam dele mesmo, nos versos do seu Poeminha do contra:

“Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho
Eles passarão... eu passarinho.”
O poeta ainda voa pelas ruas da cidade que ele tão bem descreveu no seu O mapa e que vai revivê-lo em prosa e verso, sons e imagens durante este ano.

Ficha de Quintana da Empresa Jornalística Caldas Jr. datada de 1953

LANÇAMENTOS

· Armindo Trevisan escreveu uma “bio-bibliografia” destinada a sensibilizar os alunos do Ensino Médio e jovens universitários. No texto, mescla a história de vida de Mario Quintana com suas obras, fazendo comentários e mostrando as conexões entre os fatos e a sua criatividade poética.
· O Instituto Estadual do Livro vai relançar o caderno Autores Gaúchossobre Quintana.
· Será lançada uma Antologia em braile e outra versão com letra ampliada para os deficientes visuais, além de um CD com os poemas selecionados.
· O escritor Luiz Coronel vai lançar O Dicionário Mario Quintana.
· O jornal Correio do Povo, onde Quintana trabalhou durante praticamente toda a vida, vai reeditar em julho dois cadernos com a coluna Do Caderno H (no formato original, standard). Também vai disponibilizar para escolas e museus um kit com um DVD do filme Um maravilhoso espanto de viver, de Antônio Carlos Textor, um CD com poemas recitados por Quintana, livros e fotos do arquivo do jornal.

Confira alguns destaques da programação
Site
A assessoria de comunicação do Palácio Piratini e a Procergs criaram um site especial sobre Quintana. Na página www.rs.gov.br, há um link para o Centenário do poeta que traz biografia, bibliografia, artigos, fotos, vídeos, entrevistas, áudio e a agenda de eventos.

Reinauguração do acervo
Localizado no mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana, o ambiente do acervo passou por reformas. Além da exposição de livros de autoria do poeta e de obras traduzidas por ele, o espaço vai recriar simbolicamente o Quintana’s Bar – simulação do “bar” de um poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem ao poeta gaúcho. A idéia é que, neste ambiente temático boêmio, a obra de Quintana se mantenha viva por meio de apresentações, recitais, músicas, palestras, vídeos. A inauguração do novo espaço está prevista para 11 de janeiro, às 19h, quando serão abertas oficialmente as comemorações do Centenário.

Jogos literários Mario Quintana
A exemplo do que aconteceu no Centenário do escritor Erico Verissimo, serão sorteadas 27 escolas da rede estadual de ensino para participar, de 14 de abril até 15 de julho, dos Jogos Literários no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (antigo prédio do Força e Luz, em Porto Alegre). As equipes formadas por 10 alunos têm de responder a perguntas sobre a vida e a obra de Quintana. A escola ganhadora recebe computadores, DVDs e celulares. Também há prêmios para a melhor torcida.

Prêmios e troféu
· Até 16 de maio de 2006, estão abertas as inscrições para o 4º Prêmio Casa de Cultura Mario Quintana. O regulamento está disponível em www.rs.gov.br, e mais informações podem ser obtidas também pelos telefones (51) 3226.1181 ou 3221.7083. Para a edição de 2006, o gênero escolhido foi poesia, com premiações diferenciadas para as categorias Jovens e Adultos.
· Em julho, será entregue o Prêmio Especial Mario Quintana para personalidades e destaques em Literatura, Música, Dança, Vídeo, Cinema, Teatro e Artes Visuais. O troféu, edição única pelos 100 anos, é uma criação do artista plástico Waldomiro Motta.

Outras atividades
Estão previstas ainda apresentações de monólogos, peças de teatro, grupos de dança e grandes exposições, inclusive em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além disso, a Casa de Cultura Mario Quintana está recebendo material de arquivo de programas de televisão e rádio para incluir no acervo. O poeta também será homenageado na Feira do Livro de Porto Alegre 2006.





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