istoricamente,
este é o período do ano com o maior
número de rescisões contratuais no ensino privado
gaúcho, sob a
justificativa das instituições de adequação para
o próximo ano letivo. Isso significa em média 2 mil demissões.
Neste ano, no entanto, a situação ameaça se agravar pelo
crescimento de demissões na Educação Superior – ironicamente
o nível de ensino que tem apresentado maior crescimento na participação
das instituições privadas, segundo o MEC. A falta de transparência
no processo está gerando inquietações nos alunos e professores.
Rumores de que seriam cortados cerca de 400 postos de trabalho no campus de Canoas
da Universidade Luterana do Brasil – uma das maiores do ensino privado
no Estado, com mais de 72 mil alunos – têm provocado uma enxurrada
de ligações e e-mails dos professores para o Sindicato dos Professores
do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS). A Universidade nega este
montante de demissões, mas admite que, em função da readequação
do seu projeto pedagógico para atender ao Parecer 329 do Conselho Nacional
de Educação (CNE), haverá cortes certamente.
O Parecer foi aprovado por unanimidade pela Câmara de Educação
Superior do CNE, após discussão com representantes de vários
setores da sociedade. Além de estabelecer a carga horária mínima
dos cursos, o documento determina que as Instituições de Educação
Superior definam a carga horária total dos cursos, fixando os tempos mínimo
e máximo de sua integralização curricular, de acordo com
os respectivos sistemas e regimes de matrícula adotados, obedecendo ao
mínimo anual de 200 dias de trabalho acadêmico efetivo. Também
prevê que o estágio e as atividades complementares dos cursos, já incluídos
na carga horária total do curso, não deverão exceder a 20%
da carga horária.
O projeto de reestruturação da Ulbra já está sendo
implantado. De acordo com Ronaldo Bastos, diretor de EaD e coordenador do projeto
de reforma curricular, o objetivo é “racionalizar a oferta de ensino
com currículos modulares a partir de eixos temáticos e não
mais por disciplinas”. Na prática, isso representa a implantação
de um ciclo básico em que alunos de diferentes cursos terão disciplinas
comuns, por eixos temáticos, o que permitirá o enxugamento de 300
a 500 turmas. “Estão previstas demissões graduais, de acordo
com a necessidade de cada semestre. Ainda não sabemos quantas serão
necessárias. O que posso afirmar é que os comentá-rios sobre
400 demissões não procedem”, afirmou o coordenador em reunião
com o Sinpro/RS. O presidente da Associação dos Docentes da Ulbra
(Adulbra), João Batista Ely Alves, vê com naturalidade as eventuais
demissões e contesta os relatos feitos pelos professores. Mas admite que
demissões poderão ocorrer a partir de janeiro. “As demissões
sempre irão ocorrer, pois há cursos que acabam se esvaziando e
não atingem o mínimo de 25 alunos estabelecido pela Ulbra. Aqueles
cursos que estão dando prejuízo terão que se adequar”,
afirma.
FALTA DE TRANSPARÊNCIA – Para Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS,
a falta transparência por parte da Universidade no que se refere às
informações sobre o projeto de reestruturação pedagógica
reforça os rumores sobre cortes no quadro docente e aumenta a preocupação
em relação à qualidade do ensino. “Embora reconhecendo
a autonomia da instituição privada em relação às
demissões, o Sinpro/RS vem mantendo audiências com representantes
da Reitoria para reduzir o impacto dessas alterações.”
A falta de transparência é criticada também pelos alunos.
No final de novembro, representantes do Diretório Central de Estudantes
(DCE) reuniram-se com a Reitoria em busca de informações sobre
os rumores de demissões de professores e extinção de cursos,
temas que estavam preocupando os alunos e ocupando boa parte das aulas. “A
falta de informações sobre a reforma provocou preocupação,
pois havia relatos de que algumas cadeiras seriam extintas. A Reitoria se comprometeu
resguardar as características de cada curso e estabeleceu parâmetros
até então desconhecidos dos alunos”, conta Sílvio
Ribeiro, presidente do DCE.
Além do problema das demissões na Ulbra, há a concentração
de alunos no turno da noite. “Todas as Licenciaturas estão concentradas
no turno da noite, e têm gerado preocupação. Isso obriga
o professor a lecionar somente nesse turno em cinco dias da semana para cumprir
40 horas semanais, reduzindo as alternativas de mercado de trabalho”, observa
a professora de Licenciatura da Ulbra, Cláudia Groenwald.
Regulamentar
para regular
Marcos Fuhr*
final do ano letivo e a transição para o próximo
são
sempre muito delicados para os professores do ensino
privado e por conseqüência para o seu Sindicato, por onde acaba passando
o infortúnio dos que com a rescisão do seu contrato de trabalho
são desligados da sua escola.
Este final de ano, em particular, está se constituindo em momento difícil
para o Sinpro/RS e seu projeto sindical comprometido com a dignidade dos professores.
Vivemos, sem dúvida, os reflexos do esgotamento de um ciclo de crescimento
da Educação Superior. Estancou o crescimento do número de
novos alunos, mas não a concorrência entre as instituições.
Aliás, a disputa pelos alunos só tem se acirrado e, graças
a uma quase permissividade oficial, o patamar da concorrência vem baixando
cada vez mais.
Proliferam pelo Estado a fora os cursos de pós-graduação
oferecidos por instituições de que até hoje nunca se ouviu
falar. A eles somam-se agora uma enxurrada de cursos a distância, de origem
e qualidade igualmente duvidosa.
Para adequar-se ao novo cenário do mercado educacional, para completar
sua adequação à LDB de 1996, ou mesmo as possibilidades
da normalização educacional, exercitam as instituições,
especialmente as Universidades, as mais diversas alterações nos
seus projetos acadêmicos.
Mudanças acadêmicas que a autonomia universitária lhes faculta,
de um modo geral a serviço da economia de custos, ditada pelas Pró-Reitorias
administrativas.
Ante a indiferença dos bispos, queixam-se os professores ao Sinpro/RS.
Esperam reações e atitudes que estão fora das possibilidades
de um sindicato, que apesar do acompanhamento da dinâmica educacional,
da incidência sobre as instituições em prol do cumprimento
das suas obrigações contratuais com os professores, não
ignora e não pode afrontar a autonomia destas de definir seu projeto acadêmico
e sua relação com o mercado.
O Sinpro/RS continuará em 2006 a luta por maior regulamentação
da educação especialmente no nível superior, convencido
de que, se o crescimento da oferta ao longo dos anos 90 foi altamente comprometedor
para a qualidade do ensino, o seu estancamento e o acirramento da concorrência
serão provavelmente desastrosos para a clientela, para os professores
e, inclusive, para as instituições comprometidas com um projeto
educacional sério.
Regulamentação para regular. Esta é a tese que vimos defendendo,
seja na esfera pública como no âmbito da Convenção
Coletiva de Trabalho entre o Sinpro/RS e o Sinepe/RS. O maior beneficiário
desta política certamente será o conjunto da sociedade.
Para o envio de cartas,
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