Livro-reportagem propõe (re)fundação da história dos Farrapos
negros
César Fraga

livro
Lanceiros Negros,
dos jornalistas Geraldo
Hasse e Guilherme Kolling (JÁ Editores, 144 páginas), trata de
um mitológico massacre de escravos ocorrido durante a Revolução
Farroupilha (1835-1845). Apesar de história “mal contada”,
desde então, o boca-a-boca e correntes de historiadores atribuem responsabilidade
a David Canabarro, que os teria traído, graças a um acordo com
o Duque de Caxias. Sem dúvida, o episódio é polêmico
e serve de munição tanto para os movimentos ligados à consciência
negra, como para historiadores que apresentam uma visão mais crítica
do período, assim como das ideologias e interesses que motivaram a revolução
tão festejada em nossos dias. O trabalho da dupla de jornalistas reconstitui
a história dos regimentos formados por escravos, que existiram praticamente
em todas as guerras gaúchas do século XIX e que tiveram papel destacado
na fixação das fronteiras no extremo Sul do Brasil.
Hasse e Kolling trazem para o presente fatos passados, importantes, apesar de
quase esquecidos, na intenção de fomentar o debate sobre eles,
sem a pretensão de encerrar o assunto; pelo contrário, querem mostrar
que o tema ainda mobiliza intelectuais e ativistas, que a partir dele pretendem “refundar
a história do negro no Rio Grande do Sul”. A obra apresenta uma
cronologia dos eventos guerreiros no Cone Sul, e conta a tradição
do uso de lanças no Pampa, desde o século XVIII, chegando até a
Revolução Farroupilha. Apresenta ainda um detalhamento de como
era feito o recrutamento e a organização dos lanceiros, além
de apontar a importância estratégica dos soldados negros no contexto
revolucionário farrapo. O volume é ilustrado com documentos em
que líderes dos dois lados dão seus depoimentos sobre esses guerreiros,
e traz uma visão da escravidão naquele período histórico.
Leia entrevista com os autores.
Extra Classe – O que vem a ser essa refundação da história
dos negros no RS?
Guilherme Kolling – A refun-dação da história dos
negros na verdade é uma fundação. Como até hoje a
contribuição dos negros para a formação do Estado
foi esquecida pela historiografia oficial – não há, por exemplo,
um único herói negro apesar de eles terem importante participação
nas diversas guerras do Cone Sul –, lideranças do movimento negro
e uma corrente de historiadores, antropólogos, intelectuais e políticos
estão trabalhando para que haja esse reconhecimento. E o ponto de partida é essa
mobilização recente para resgatar o massacre de Porongos, em que
os soldados negros foram dizimados. Mais do que isso, homenagear os lanceiros
negros, através de um memorial, em Pinheiro Machado, e um monumento em
Porto Alegre.
EC – Qual foi a importância dos soldados negros na Revolução
Farroupilha e qual era a condição real em que viviam, já que
era tempo de escravidão?
Geraldo Hasse – Os lanceiros negros foram organizados como tropa regular
a partir da batalha de Pelotas, em abril de 1836, quando os farrapos fizeram
centenas de prisioneiros, entre eles muitos negros, que constituíam a
maioria da população do município. Na realidade, eram os
escravos que tocavam as charqueadas. Eles também trabalhavam como peões
em estâncias e lavouras. Muitos eram domadores de cavalos, ginetes. Com
a promessa de liberdade no final da guerra, os lanceiros transformaram-se na
vanguarda das tropas farroupilhas. Eram usados em missões arriscadas,
pois tinham grande mobilidade. Lutavam a pé e a cavalo, portando lanças
de três metros de comprimento. Quando havia munição, usavam
armas de fogo. Atacavam gritando para intimidar o inimigo. Não usavam
escudos. Para se proteger dos sabres e das lanças do adversário,
enrolavam o poncho no braço livre. À medida que a guerra se aproximava
do fim, eles se tornaram mais numerosos, tanto que no final havia dois corpos
de lanceiros, totalizando mais de mil soldados. Como esses fatos foram escamoteados
pelos historiadores do século XIX, não se sabe qual o percentual
de negros nas tropas farroupilhas, nem tampouco nas tropas do governo imperial,
mas tudo indica que eles foram tão importantes na guerra quanto o eram
no tempo de paz. Mas também, durante a campanha militar, eles viviam segregados.
EC – Como surgiu a idéia do livro e quanto tempo vocês levaram
para a conclusão do projeto?
Kolling – O livro surgiu a partir de uma reportagem para o Jornal JÁ Porto
Alegre, feita em novembro de 2003, quando o movimento negro foi a Pinheiro Machado,
em Cerro dos Porongos, afirmar a idéia de que os lanceiros haviam sido
traídos pelo general Canabarro nesta batalha da Revolução
Farroupilha, ocorrida em 1844, e lançar a idéia de um monumento
aos lanceiros negros. A partir daí, acompanhamos o movimento em outras
matérias para o jornal e, em 2005, já com o projeto aprovado pela
Lei de Incentivo à Cultura, fez-se uma pesquisa histórica sobre
os lanceiros negros e sua participação na Revolução
Farroupilha. Sem contar a contribuição avulsa de membros da equipe
do JÁ, trabalharam a fundo conosco o jornalista Euclides Torres e o historiador
Gilberto Jordan. Essa pesquisa histórica aliada à compilação
de reportagens formaram o livro, que teve lançamento na Feira de Porto
Alegre.
EC – Quais foram os mitos desfeitos sobre o episódio após
a conclusão dos trabalhos e do próprio livro?
Hasse – Não há dúvida de que os lanceiros negros foram
vítimas de uma grande sacanagem armada pelos chefes dos dois lados – Caxias
e Canabarro –; mas os trabalhos não foram concluídos: o que
fizemos foi dar um flagrante no atual estágio de uma história muito
mal contada. E a luta continua, tem gente fuçando no nosso passado, estamos
atentos. Uma das lideranças desse esforço é a antropóloga
Daisy Barcellos, da Ufrgs. Na verdade, esse assunto não se esgotará tão
cedo, pois a Guerra dos Farrapos foi muito manipulada pelos narradores, que sempre
se preocuparam em defender um dos lados – o Império ou a República.
São mais de 500 livros, nenhum isento ou imparcial. Em quase todos, os
lanceiros não aparecem ou são citados apenas de passagem. Pode-se
dizer que por mais de um século colocou-se uma pedra sobre a história
dos negros no Rio Grande do Sul. Daí a lenda de que por aqui a escravidão
foi mais branda do que em outros estados. Nos anos 50, entretanto, o sociólogo
Fernando Henrique Cardoso já havia mostrado que os negros tiveram uma
presença forte na economia gaúcha. Dos anos 70 para cá,
houve pesquisas específicas sobre a presença dos negros na nossa
sociedade, com destaque para os historiadores Claudio Moreira Bento (ex-militar),
Moacyr Flores (PUC de Porto Alegre) e Mario Maestri (Universidade de Passo Fundo).
São todos ativos. Aos poucos, a verdade vai aparecendo.
ENSINO
PÚBLICO
Ensino vocacional – Uma Pedagogia atual (Cortez Editora – 192
páginas) reúne textos de diversos autores e chama
para o debate de diversos temas referentes à e-ducação
pública brasileira, como organização do Ensino
Fundamental que supere a seriação e uma avaliação
do ensino-aprendizagem que melhor traduza o processo educativo
e prescinda de provas unificadas de múltipla escolha para
medir qualidade. As reflexões teóricas são
todas fundamentadas na prática. Confira: www.cortezeditora.com.br
COLONIZAÇÃO
Colona é a nona! – história da imigração italiana
contada por uma avó (da autora, 67 páginas), de Lydia Gabellini, é exatamente
o que o título revela. A obra é focada no público infanto-juvenil
e relata a história da imigração italiana no Rio Grande
do Sul narrada por uma avó. A escritora já teve rasgados elogios
de gente como Eduardo Bueno, Barbosa Lessa (teve acesso antes de sua morte ao
material, publicado somente agora em 2005), Moro Barbieri e Rovílio Costa.
nona@tria.com.br
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