Qual
a fronteira entre ficção e realidade na mídia
de hoje? Qual é mesmo a função dos produtos
da mídia, sejam eles noticiários ou telenovelas? Essas
perguntas ganharam força e renovado significado a partir
da cobertura da guerra no Iraque, realizada pela imprensa internacional.
Poucas vezes, pôde-se ver com tamanha clareza a transformação
da realidade em espetáculo, um fenômeno que afeta não
somente a mídia mas praticamente todas as dimensões
da vida social.
Marco Aurélio Weissheimer
Mídia e ficção: o show não pode parar

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tese, a função primordial da mídia seria a
de informar o público sobre o que ocorre a sua volta. Se
possível, com o máximo de isenção. No
entanto, pelo que o mundo assistiu, ouviu e leu, essa função
informativa parece estar, cada vez mais, sendo substituída
por uma outra, a do entretenimento e do espetáculo. Nessa
lógica, a notícia e a informação são
progressivamente assimiladas à condição de
mercadoria. E no império do efêmero que caracteriza
a moderna sociedade de consumo, há poucas coisas mais atraentes
e lucrativas do que a transformação da notícia
em espetáculo. Um dos resultados mais imediatos desse fenômeno
é o esfacelamento das fronteiras entre realidade e ficção.
O tema não é novo é já foi tratado de
forma exemplar pelo escritor francês Guy Debord, em seus livros
A sociedade do espetáculo (1967), O declínio
e a queda da economia espetacular mercantil e Comentários
sobre a sociedade do espetáculo (1988). Debord é
considerado o inaugurador de uma reflexão sistemática
sobre o conceito de espetáculo e sobre seus efeitos
na sociedade contemporânea. Segundo ele, o espetáculo
é a expressão de uma situação histórica
na qual a mercadoria passou a comandar todas as dimensões
da vida social. A mídia, obviamente, não é
uma exceção à regra. Para Debord, mídia,
espetáculo, mercadoria e capitalismo estão umbilicalmente
associados. O espetáculo, diz ainda o autor, como tendência
a fazer ver o mundo que já não se pode tocar diretamente,
serve-se da visão como sentido privilegiado da pessoa. Entretanto,
adverte, o espetáculo não é meramente um conjunto
de imagens, mas uma relação social entre pessoas,
mediada por imagens. Em outras palavras, quanto mais deixamos de
ter um contato direto com o mundo, quanto mais deixamos de vivenciar
experiências diretamente, mais estamos à mercê
do bombardeio de imagens e representações que nos
atinge diariamente pelos mais variados meios de comunicação.
E, nesse bombardeio, realidade e ficção despencam
sobre nossas cabeças sem que possamos saber ao certo o que
está nos atingindo. Se é assim, como podemos então,
de modo minimamente bem informado, formar opiniões sobre
o que acontece a nossa volta?
Cobertura
cinematográfica
Uma velha máxima do jornalismo diz que a primeira vítima
de uma guerra é a verdade. A recente guerra no Iraque forneceu
fartos exemplos para alimentar a fama dessa máxima. Transformada
em espetáculo transmitido pelas redes de televisão
para todo o mundo, essa guerra mostrou, como poucas vezes se viu,
o quão tênue pode ser a diferença entre ficção
e realidade. O caso da recruta Jessica Lynch foi emblemático,
tornando-se um ícone midiático. Seu resgate de um
hospital iraquiano pelas forças norte-americanas foi divulgado
em todo o mundo como um grande momento patriótico. Terminada
a guerra, o resgate hollywoodiano revelou-se uma fraude. Os médicos
que trataram de Jessica no hospital disseram a jornalistas da rede
de televisão inglesa BBC que não havia do que resgatá-la:
ela estava em tratamento, e os guerrilheiros iraquianos que a haviam
capturado já tinham fugido. Lynch, de 19 anos, foi capturada
quando sua companhia se perdeu nos arredores da cidade de Nasiriya
e acabou sendo emboscada. Nove de seus colegas foram mortos e ela,
levada ao hospital local, que no momento estava repleto de fedayins,
os guerrilheiros leais a Saddam Hussein. Oito dias depois forças
americanas invadiram o hospital, com uma câmera de vídeo
para gravar os eventos. O vídeo divulgado em todo o mundo
mostrou soldados dizendo estar sob forte fogo, com tiros vindo de
fora e de dentro do prédio, e resgatando Jessica.
Alegou-se então que ela estava com feridas de faca e tiros,
e que havia sido esbofeteada no leito do hospital, e interrogada.
Os médicos iraquianos disseram ter dado à recruta
o melhor tratamento possível nas circunstâncias. Ela
recebeu atenção do único especialista disponível.
Eu a examinei, vi que tinha um braço quebrado, uma
coxa quebrada e um tornozelo deslocado, disse o médico
Harith a-Houssona. Não houve tiroteio, nenhuma bala
em seu corpo, nenhuma facada - só um acidente de trânsito.
Ficamos surpresos. Por que isso? Não havia militares,
não havia soldados no hospital, disse Anmar Uday, outro
médico iraquiano. Foi como um filme de Hollywood. Eles
gritavam go, go, go (vai, vai, vai), e usaram tiros
de festim. Fizeram um show um filme de ação
como Sylvester Stallone ou Jackie Chan. Dias antes do suposto
ataque, os médicos tinham combinado devolver Jessica numa
ambulância, mas, quando ela se aproximou do acampamento americano,
os soldados abriram fogo. Tudo para garantir o espetáculo
que seria gravado dias depois.
Diversão e realidade
A progressiva dissolução das fronteiras entre ficção
e realidade não afeta apenas a mídia que pretende
transmitir informação ao público. Paradoxalmente,
nos últimos anos, os produtos de comunicação
destinados a divertir o público passaram a perseguir
o máximo de verossimilhança com a vida real. A explosão
dos realitys show, como o Big Brother Brasil, representa
o ápice desse processo iniciado pelas telenovelas e pelas
minisséries. Esse fenômeno é tema do livro Mídia
e política no Brasil: jornalismo e ficção,
de Alzira Alves de Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Mônica
Almeida Kornis (Editora da Fundação Getúlio
Vargas, 2003), que faz uma análise da trajetória de
mudanças na mídia brasileira nas últimas três
décadas. Em um capítulo sobre a teledramaturgia (o
campo próprio das novelas e minisséries), Mônica
Kornis analisa, entre outras coisas, a linguagem realista e a preocupação
com a verossimilhança que marca a produção
ficcional da Rede Globo desde o início dos anos 70.
A autora procura mostrar como os produtos ficcionais da Rede Globo
sempre estiveram preocupados em expressar uma determinada conjuntura
histórica, resgatando muitas vezes um momento do passado
para falar do presente. Kornis analisa a minissérie Anos
Dourados, escrita por Gilberto Braga e exibida pela Rede Globo
em 1986, procurando mostrar como se realizou a operação
de, logo após o fim da ditadura militar, retomar uma conjuntura
identificada com a ordem democrática. O governo de Juscelino
Kubitschek associado às idéias de esperança,
otimismo e espírito moderno é ligado com a
retomada democrática expressa pela então chamada Nova
República. O universo do entretenimento e da ficção,
então é utilizado a serviço do debate político
sobre a transição democrática.
Daí a preocupação em usar uma linguagem realista
e verossímil. Nesse caso, ao contrário do verificado
na guerra do Iraque, a ficção é que é
travestida de realidade.
A partir de 1982, a Rede Globo inicia uma nova etapa de produções
ficcionais, através das Séries Brasileiras,
direcionadas especificamente para temas atuais e históricos
da sociedade brasileira. Essas minisséries apresentam-se
como um produto mais sofisticado que as novelas e destinado a um
público menos popular, os chamados formadores
de opinião. O objetivo, segundo Mônica Kornis,
é contar a história brasileira, assim
como Hollywood sempre procurou contar a história
norte-americana. O que parece haver em comum entre essa estratégia
(que reveste produtos ficcionais com uma linguagem realista) e aquela
adotada por grande parcela da mídia na guerra do Iraque (em
que a informação é deformada por artifícios
próprios da ficção) é que o objetivo,
nos dois casos, é vender um determinado produto ao público.
Ou seja, a informação transmitida pela mídia
não procura exatamente informar e a ficção
transmitida pela novela ou minissérie não procura
exatamente divertir ou educar. A facilidade
com que se mistura realidade e ficção parece obedecer
sempre a uma mesma lógica: a do espetáculo e da mercadoria.
Se o antídoto contra isso é uma sólida educação
desde a infância, como propõe Umberto Eco, vale a pena
lembrar, como reforço, uma passagem de Guy Debord em sua
obra Panegírico: Quem pode escrever a verdade
senão aqueles que a sentiram? O autor das mais belas Memórias
escritas no século XVII (Montaigne), que não escapou
da crítica de ter falado de sua conduta sem manter as aparências
da mais fria objetividade, fizera a respeito dela essa oportuna
observação, segundo a qual apenas são verdadeiras
as histórias escritas por homens sinceros o suficiente para
contar a verdade a respeito de si mesmos.
Assim, seguindo os passos de Eco e Debord, poderíamos dizer
que uma boa maneira de tentar identificar a fronteira entre realidade
e ficção nos produtos da mídia (sejam eles
notícias, filmes ou telenovelas) é olhar para seus
autores, para sua história, e ver se há honestidade
e transparência em suas intenções. É
claro que, para poder olhar corretamente, é preciso estar
no mundo e aprender com a nossa própria experiência
cotidiana. Talvez essa seja a educação de que fala
Eco, aquela que forma uma uma casca comportamental espessa
e dura demais para ser iludida pela lógica do espetáculo.
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